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DECO faz balanço positivo
do ano de 2008


 

Figuras populares de Ponte de Lima

Manuel Ponte Nova

Luís Dantas
Colaborador

Veio das bandas de Santa Marta de Portuzelo, de uma família de barqueiros. Deixou-se enlevar por uma rapariga da terra e permaneceu por cá. Viveu sempre à beira do rio. Chegou a possuir vários barcos de água arriba, que faziam a carreira da feira de Ponte, o transporte de passageiros e de mercadorias na época áurea das carroças e das estradas fluviais. Conhecia todos os portos e pousos, desde o cais de Darque até ao Carre­gadouro de Jolda ou São Martinho. Em pouco tempo, o Manuel Ponte Nova trans­formou‑se no barqueiro mais importante e popular do Rio Lima.
O seu nome foi sempre pronunciado com respeito ao longo da zona ribeirinha, entre os pescadores e a gente dos negócios ou das veigas. Tinha fama de saber sondar o tempo, as luas, as estrelas, as marés, o vento, as chuvas, as cheias. Por isso lhe pediam conselho em rumorejados bons-dias: vossemecê acha que é bom semear agora o milho de grão amarelo? «O rio tem sete cheias», respondia ele, «aguarde pela última que, se tudo bater certo, vem aí pelos Ramos». (1)
Nas horas vagas, nos dias de ramerrame, os amigos foram‑se habituando a visitá‑lo na sua casa flutuante para merendas e cavaqueiras. Preparavam peixe de cebolada numa caçarola esquentada por um fogareiro a petróleo e bebiam vinho tinto por malga. Iam de uma conversa para outra, com reportórios de anedotas, evocações de perigos e tragédias sucedidas no rio, narravam crendices, proezas extraordinárias e casos picarescos como aquele de Santiago Maior de Cardielos. «Quando passei ali pela primeira vez», contava o anfitrião, «perguntaram-me se ia levar os feijões ao Florentim. Não entendi patavina, mas gritei à mulherzinha: Num trago feijões! De uma outra ocasião, aconteceu a mesmíssima coisa. Mais tarde, vim a apurar pelo Piqueira, barqueiro em Darque, os contornos da graçola: em eras priscas viveu em Cardielos um reizete pouco cristão, o tal Florentim, Barreto de apelido, estirpe nobre. Diziam que se fez tão tirano, que as vassalas donzelas combinadas para casar, haviam de vir estar com ele os dias, que ele quisesse, antes de se ajuntarem com seus maridos, os quais, quando ele mandava, as vinham buscar, trazendo‑lhe de oferta umas rasas de feijões.» A estória deu azo a sorrisos e comentários velhacos, e quando se davam conta já o sino da igreja Matriz tocava as trindades.
No dia seguinte, ao ler do pataco, o Ponte Nova deixava uma vela a arder na capela de Nossa Senhora da Guia e retomava o trabalho na extensão vastíssima das águas. Ia com ele o Zé Patacho, moço de bordo, de calças arregaçadas, sempre descalço, a cantar: A Maria Noba/como bai bonita/de seu lenço nobo/e saia de chita! //Ó Maria Noba, quem te deu o lenço? / Foi û caixeirinho/chamado Lourenço. // Ó Maria Noba, / quem te deu a saia? Foi û caixeirinho/das bandas da Maia. //Ó Maria Noba, / ó Noba Maria! /quem me dera ter/a tua alegria. E durante muitos anos subiram e desceram o rio, à vela ou à vara, nas cargas e descargas de produtos artesanais, rolos de madeira, sulfato, enxofre, cal, milho, feijão, centeio, farinha, sal, batatas, bacalhau, couves, galos, frangos, perus, patos, coelhos, porcos, vitelas, ovelhas, vinhos, açúcar e potes de mel.
Sabe‑se que o correr dos meses eram pachorrento, mas, a partir do final da segunda metade do século, o modo de viver, os hábitos e os costumes começaram a ser influenciados irremediavelmente pelo ritmo das máquinas, da construção de estradas, dos motores dos automóveis e das camionetas. O último barqueiro de Ponte ficou pasmado, foi perdendo a freguesia, o seu ganha‑pão, e no fim da vida, sem alegria e sem gosto, era um homem pobre: tinha apenas uma barquinha para matar saudades e ir ver o fogo da meia-noite nas Feiras Novas.  

(1)    Dia da Bênção e Procissão dos Ramos, ao entrar na semana santa.

 

ENTRE VISTAS E OUVIDOS
Política em declínio

Franklim Fernandes
Colaborador

Neste castiço pagode em que se transformou a nossa valente e imortal nação, vão-se sucedendo casos bizarros à velocidade de cruzeiro deixando abismados os mais insignes cómicos deste glorioso circo de mentalidades obtusas que nos fixam no mapa-múndi em qualquer canto do Amazonas ou na América do Sul de estranhas democracias.
Em absoluto desprezo pelo voto popular e pelos cidadãos que se julgaram no dever de cumprir o mais sagrado direito que a Democracia consagra, um nome sonante do panorama político desta república mandou às malvas o mandato que lhe foi conferido renunciando, sem nela se sentar, à cadeira no Parlamento imediatamente após lhe ter sido confirmada a posse como deputado da Nação.
Invocando razões de saúde cujas maleitas não haviam sido diagnosticadas até à eleição, o ex-ministro e respeitável político João de Deus Pinheiro anunciou, pesaroso que não tomará assento na sede da democracia respeitando os conselhos do seu médico que lhe terá receitado os ares dos campos de golf, bem mais saudáveis que a cadeira parlamentar, favorável às artroses e outras doenças congéneres.
Infelizmente, o povo português, tão apaparica­do em tempo de eleições, vai-se habituando a estes malabarismos que desacreditam a classe política e promovem a abstenção eleitoral.
Por certo, Deus Pinheiro compareceu em campanha comprometendo-se ao exercício do cargo se para ele viesse a ser eleito, pugnando pela defesa do distrito que o candidatou, e deu esperanças aos seus eleitores que nele depositaram confiança, mandatan­do-o para representar os seus interesses e anseios. Por isso, a sua atitude configura irresponsabilidade e absoluto desprezo pelos cidadãos votantes. Curiosamente, o seu comportamento, não sendo repudiado pelo partido, foi por esse tacitamente avalizado.
Perante a enorme e sempre condenada abstenção que se vais implantando no sistema eleitoral como a maior opção política sufragada em sucessivos e diferentes actos eleitorais, estávamos preparados para zurzir nos abstencionistas e defender a obrigatoriedade do voto de forma a acabar com os indiferentes e acomodados que, deixando para os outros a responsabilidade da escolha, se julgam no direito de exigir do Estado e afins soluções para os seus problemas sociais como direito de cidadania. Iríamos mesmo defender que a estes conformados fosse vedado o acesso a benefícios fiscais, ao sistema do Serviço Nacional de Saúde, aos abonos e subsídios sociais e de família, ao subsídio de desemprego, ao rendimento de inserção social, como forma de os mentalizar para o grave dever de consciência que é comum a todo o cidadão no gozo dos seus direitos de maioridade cívica. Mas, mediante atitudes como a desta ilustre personalidade, mais não nos resta que acatar a posição dos abstencionistas que, assim defraudados, consideram inútil essa tarefa preferindo não contribuir para a manutenção de uma classe que se demite da própria responsabilidade, tantos são os casos de adulteração do serviço público com que, tão displicentemente, somos confrontados.
É necessário e urgente criar-se na classe política uma nova consciência cívica que, eliminando este clima de suspeição e descrédito, garanta confiança nesses profissionais ou disponíveis da causa pública, fazendo-os entender que os cargos que exercem são de serviço e não para alcançar fins pessoais ou como fonte de riqueza, repondo no seu verdadeiro sentido o termo “ministro” que, nas suas impolutas origens, assumia o carácter de exercício de ministério ou de serviço e não o adulterado conceito actual de poder, afinal o oposto do seu real e genuíno sentido.
É imperativo impedir que qualquer dignitário político afastado do cargo venha a transferir-se para o sector privado ou para administrar institutos criados à medida e por feitio, encerrando-se a lura onde estes coelhos se alapam refasteladamente.
Abolidas estas mordomias, credibilizado o sistema, a enorme coutada onde se pavoneiam os tentáculos do poder perpetuado será destruído podendo todos nós, enfim, avançar para a exigência do cumprimento dos deveres cívicos e colher os frutos de um serviço público visando o interesse colectivo e a promoção da sociedade.
Enquanto isso, valha-nos Deus, Pinheiro!

Um autarca que deixa “marca”

Lima Barreto
Colaborador

Campelo deixa a Câmara de Ponte de Lima, por sua própria vontade, e deixa também uma marca de sucesso no exercício das suas funções.
Terá, como todos nós, os seus adversários, mas isso faz parte das lutes. Um homem sem pedestal, mas com pegada. O seu pé político nunca esteve for a do alcance de ninguém e os que o seguiram, os que caminharam na sua caminhada – Vertigia pedis – e também os outros, têm motivos suficientes de terem orgulho no presidente que se despede, que não é despedido e que mostrou não estar agarrado ao poder, coisa pouco comum na nossa política.
Deixa a vila com créditos nacionais e internacionais acrescidos; hoje, Ponte de Lima é uma referência turística, gastronómica, mas sobretudo histórica, com um património material muito cuidado e com um património imaterial intangível, mas sempre centro do homem verdadeiro, daquele limiano que tanto ama a Vaca das Cordas, como as feiras no areal, como as Feiras Novas, como os garranos ou os cabritos do monte, como as corridas de cavalos, mas sobretudo, aquele homem que deixa um rasto cultural distinto e uma extensão desportiva para os jovens limianos que hoje carrega medalhas de ouro, prata e de bronze, sobretudo nos desportos nautico-fluviais.
Ponte de Lima pode orgulhar-se de se ter constituído num ritual de mobilidade diversificada, com uma fileira de gente jovem, com sorriso ou sopro, de ritmo vital de energias com o embrião da “transuban­cialidade”, isto é, domínio da essência ou da força daquilo a que chamamos destino.
Campelo lega aos limianos um alento forte para que a vila e todo o concelho, num sopro, não de Deus, mas dos homens, preserve as suas tradições e valorize as suas riquezas humanas, sociais, culturais, mas também materiais. É uma terra com futuro, com “dentes” e com olho no futuro, para não desperdiçar sinergias criadas endogenamente no seio da cordialidade deste povo limiano.
Há dias lemos que em Ponte de Lima “se crítica muito em surdina”. Entendo o que o emissor quis dizer, mas aqui a palavra surdina tem pouca consistência, porque sendo natural não tem contexto para se tornar madura, eficiente ou eficaz. É uma surdina de campainha que normalmente só toca a defuntos e nós precisamos mais dos que tocam ao “nencifar”, isto é, ao simbolismo da abundância e sobretudo da fertilidade espiritual e não só.
Perder os dentes sé acontece normalmente na nossa velhice; ora, em Ponte, uma terra plena de juventude e de man­díbulos activos extensivos ao imaginário tanto quanto ao progresso, é de crer que essa “agres­sividade da juventude limiana”, mesmo em auto-defesa daquilo que é seu, não se fique na castração dos valores reais e não virtuais, de um futuro pleno de poten­cialidade.
Por isso, que esta nossa homenagem ao au­tarca muito conhecido pelo famoso caso político do “queijo limiano”, leve a todos os limianos uma mensagem de crédito num futuro risonho, sem mascaras de algumas manifestações contingentes, com o rosto do sol que aquece, mas também alumia.
Algumas mascaras podem ser até demoníacas , mas a vida tem dentro dela anjos e demónios. No conflito entre esta mítica dualidade, o povo limiano vai usar as marionetas da sua prodigiosa imaginação, para criar e gerir um futuro de marfim, inquebrável e incorruptível, como foi o Presidente que ora se despede dignamente do seu cargo.
A geomância que é a teoria da adivinhação tem segredos de vento e de água; pois bem, com o tal “vento norte” e com a água do nosso sagrado Rio Lima, o futuro de Ponte de Lima, tem fumo ou incenso de um diagnóstico que se vai fazer no legado deixado e no querer dos que se lhe vão seguir.
Futuro é esperança, esperança é mais que sonhos, e é o estilo de eliminar o que não for essencial. Esta vila tem estômago de fortuna e não de fracasso.
O fracasso pode até descobrir o génio, mas o sucesso esconde-o. Esta terra limiana é um torrão de sucesso que sabe pensar no seu futuro para se lá chegar, sem tropeçar no seu presente.
O maior crime contra um trabalhador é uma empresa que não dá lucros, só que Daniel Campelo além de seguro e sensato é um bom talento e de sucesso. O sucesso tem dois terços de inspiração e um terço de perseverança e o talento para alguns medíocres e invejosos não só os incomoda como também faz deles refinados malandros. O talento não é um direito; é sim uma obrigação. Enganar um homem não é admiração, mas uma mulher que engana outra mulher , tem que ter talento (…).
Parabéns Daniel Campelo. Ponte de Lima está grata ao teu trabalho, empenho e honestidade.
Para alguns detrac­tores políticos o elogio pode ser um V Império, mas para a maioria dos limianos este elogio corresponde só a gratidão.

O bom samaritano

Antero Sampaio
Colaborador

Naquele tempo, o samaritano José andava pregando a sua política pelos caminhos da Portugaleia, quando encontrou a samaritana Manuela, já sua conhecida. E depois de uma boa conversa, perguntou-lhe se ela esta disposta a ajudá-lo no governo do seu povo, governo para o qual tinha sido eleito. Depois de o ter ouvido atentamente, Manuela disse-lhe que não.
José continuou o seu caminho e foi parar a uma terra onde se realizava uma feira. Aqui encontrou o samaritano Paulo a quem fez a mesma conversa e a mesma pergunta. E o samaritano Paulo disse-lhe também não, embora, no seu íntimo a resposta talvez fosse “nim.
Continuou o seu percurso e já longe do seu palácio, encontrou um velho conhecido, o Jerónimo. Este, depois de o ter ouvido atentamente, também lhe disse que não.
  no seu regresso a casa, José encontrou o Francisco. Também este, depois de o ter escutado,  com um sorriso nos lábios, disse-lhe  que não.
Cansado, triste e desiludido, José entrou  em casa, ali para os lados de S. Bento e resolveu consultar o oráculo, ) divindade que responde  a consultas). E do oráculo responderam-lhe que, se ele queria a ajuda da Manuela, do Paulo, do Jerónimo e do Francisco teria que, primeiro, cumprir as promessas que fez ao seu povo, tais como: diminuir o desemprego, baixar os impostos, acabar com guerra aos professores, melhorar as pensões sociais, aumentar o salário mínimo, aumentar a celeridade da  justiça, acabar com os paraísos fiscais, melhorar os cuidados de saúde, etc. etc., depois, mostrar que está disposto a alterar o seu modo de governar.  Se assim proceder, no próximo governo, o José vai ter mais compreensão por parte daqueles que agora lhe disseram não, dando-lhe possibilidade para concluir esta legislatura. Se, por ventura, cair na tentação de governar, em minoria, como fez, durante quatro anos e meio, com maioria absoluta, o José dificilmente terminará o seu mandato, com total prejuízo, para o seu povo.
Ai, José, José, olha mais para o teu povo, cada vez mais pobre e necessitado, que sofre, na pele, o problema do desemprego e da injustiça… Esse mesmo povo, que ao longo da sua história lutou, com armas na mão,  para que a sua Pátria fosse livre e democrática, onde valha a pena viver.

 A nossa difícil relação com o poder – 
o deslumbramento

Manuel Pires Trigo
Colaborador

A maioria de nós ambiciona ter uma relação fácil com o poder, pouco mais do que isso. Que o poder não seja injusto para nós, que consigamos dizer da nossa justiça quando nos aprouver. Hoje é importante ter voz. Podermos falar ou ter quem fale por nós numa relação transparente e leal. Já não é aquela máxima da “paz e sossego” se lida à letra, mas de certa forma a frase ainda pode servir.
Claro que aqueles que se apropriam de modo fraudulento da nossa representação ou aqueles que a adquirem por métodos legítimos mas a vêm a aproveitar para outros fins, a desrespeitar a nossa vontade, não nos deixam estar sossegados. E há sempre algo que ocorre inesperadamente e nos tira a paz.
Como estamos quase sempre calados, até porque se falássemos todos ao mesmo tempo ninguém se entendia, há quem venha falar por nós e, arrogando-se o estatuto de intérpretes da nossa vontade, diz coisas que nós não diríamos ou fala de uma forma diferente da nossa. Mesmo quando falamos quase sempre não o fazemos no momento e no lugar certo. Mas podemos estar seguros de que alguém se aproveita e falará por nós.
Alguns destes ainda se desculpam, que falam assim por ser a maneira de se fazerem ouvir, que aplicam o exagero ou outra forma específica porque só existem duas opções: Ou ocupam um lugar que está vazio ou reforçam a voz que já ocupou o lugar de onde a voz se ouça melhor. Mas o problema é que não é só esta razão que os move, os seus propósitos são no geral bem diferentes dos nossos. Eles movem-se numa lógica de poder e têm do poder uma noção demasiado lata, mesmo quando se dizem liberais.
Todos nós, os não políticos, gostaríamos que o poder se desenvolvesse só o necessário e amoldado a nós, capaz de satisfazer as nossas necessidades do presente e do futuro. Todos nós gostaríamos de ter algum poder e influenciar o restante, disso não fugimos. Hoje, mesmo que tenhamos tido essa ideia, sabemos que é inglório lutarmos pela anarquia, a anarquia já não é possível num mundo de relações complexas que exigem a submissão a algum poder.
No entanto o nosso problema com o poder não está resolvido. Ele consiste muito em deixarmo-nos deslumbrar pelo poder dos políticos. Eles aparecem nos telejornais, dão entrevistas, fazem declarações e nós ficamos embasbacados. Até pequenos títeres de província, caciques de aldeia, quando têm uns minutos de tempo de antena depressa passam a figuras nacionais e a terem a sua eleição garantida.
A nível dos políticos nacionais este poder mediático imenso está mais repartido entre situação e oposição e dá origem a batalhas mais renhidas que têm o duplo efeito de nos causar repulsa e deslumbramento. A gravidade do problema reside em que isto é sinal de que já perdermos a noção, eu diria mais, ainda não chegamos à noção do que é razoável, do que é ponderado, proporcional, apropriado, aplicável na prática.
Assim admiramos os políticos, as suas excentricidades, as suas arrepiantes vulgaridades. Cobiçamos a sua vida por coisas fúteis, condescendemos com poderes excessivos de figuras pueris a quem entregamos mais facilmente o poder. As figuras mais sérias só nos atraem esporadicamente, que no geral ainda nos suscitam temor. Permitimos que o poder seja usado a propósito e despropósito, que no meio das influências legitimas se disfarçam intuitos desonestos.
Todos nós, os não deslumbrados, gostaríamos de exercer algum poder a propósito e de ter alguma influência legítima sobre outros ao mesmo tempo que aceitaríamos ponderar a opinião dos outros em relação ao que nos coubesse fazer e não dissesse respeito somente a nós mesmos. A colaboração com os outros é o caminho e a partilha o objectivo final a atingir.
Quanto ao deslumbramento, nem sequer sabemos se alguma vez acabará. Mas o grave está em que nem nós próprios podemos ter a certeza de que estamos perfeitamente imunes a esse mal. Haverá algumas noções que nos ajudariam a exercer o poder de uma forma moderada e justa. A mais forte é mesmo a noção de partilha que convertida em sentimento muito ajudaria à convivência humana. Mas não haverá dúvida de que o vazio de poder é um impedimento a essa partilha.
Para exercer o poder é melhor retirá-lo a alguém do que ocupar o vazio. Este é aproveitado pelos mais perversos que o utilizam como justificação não de um poder específico e limitado mas de um poder geral, suficientemente lato para permitir todos os sonhos de poder. Invertendo a questão dá a teoria de “ou nós ou o caos”. Nesta situação o deslumbramento é quase inevitável.
Quando temos consciência de que haverá outras pessoas prontas a exercer o poder com uma eficácia semelhante à nossa, quase automaticamente somos levados a exercê-lo com mais cuidado, de forma mais participada, de modo a suplantar por essa via todos os outros possíveis utilizadores. A democracia só avança se houver um número cada vez maior de pessoas habilitado a exercer o poder e se um maior número tiver uma participação genuína no poder.
A desculpa de muitos, que nos é apresentada a nós e também de certeza a eles próprios, é que as alternativas seriam bem piores do que a sua. Há realmente casos em que as alternativas sobram, no entanto de duvidosa qualidade, mas geralmente escasseiam e é nestes casos que a porta está mais aberta a todos os oportunistas. Porém este facto não dá direito a ninguém de excluir os outros da participação na gestão da coisa pública.
É o querer a exclusividade na gestão que leve muitos a não fomentarem qualquer tipo de participação. Quando a preocupação pela defesa do poder suplanta a preocupação pela sua melhoria permanente e pela sua partilha o resultado é sempre desastroso. A opção adoptada por muitos é a teimosia com recurso a argumentos laterais, o prescindir do aperfeiçoamento próprio, a exclusão do contributo dos outros. O poder torna-se um vício e o deslumbramento é o elemento viciante.

Vocês são um vórtice de energia* (2)

João Gonçalves Costa
Colaborador

O olho humano só pode ver para a frente, vocês têm uma visão de túnel, numa visão .
Peçam para poder ver através de todas as células do vosso ser. Peçam para ver o que ainda está por vir, o que foi e o que será. Peçam para ver através de cada cabelo, que também tem consciência. Vocês constituem um holograma e tudo o que provém de vós e vai em direcção a vocês é uma imagem holográfica também. Uma única gota do vosso sangue contém a sua história: Uma célula de um dos seus pés contém a história da sua vida. Uma minúscula mecha de cabelo mostra-vos a verdade que vós ignorais acerca do vosso passado, do passado da vossa família, ou da sua história genética. Todos vós são vórtices. Alguma vez se quedaram à sua volte e vos observaram realmente? Quando vos olham atentamente, você muda de figura? Quanto ao calor dentro do holograma Quando mudam de percepção, mudam tudo. Vocês não estão aqui para mudar o dia de Sally e Bob.  Estão aqui para mudar a sua própria essência. O Creador começa desde um ponte de centralidade e, desde esse ponto, de amor e centralidade , cria para o lado de fora. Vocês não criam desde o centro do vosso ser
Comecem desde um ponto de creação que comece num ponto de centralidade. Comecem o dia aceitando quem são. “Scanem” as energias doo dia com sua mente. Vocês conhecem o programa. A partir desse ponto, enviem amor para todas as direcção
Comecem desde um ponto de creação que principia num ponto central. Comecem o dia aceitando quem são. “Scanem” as energias do dia com a sua mente. Vocês conhecem o seu programa. A partir desse ponto, enviem amor para todos os carenciados dele. Comecem num ponto central em direcção ao lado de fora.
Não podem se preocupas compor os que os amam. Não podem se procupar  para torná-los melhor, levando-os a renunciar às suas tarefas, às suas dúvidas e os seus medos. Cada soma, cada enfermidade, cada situação é uma prenda, Eles próprios devem desenvolvê-los. Vocês não podem abrir os presentes recebidos pelos outros. Mantenha a visão de que os seres amados estão salvos. Mantenham a visão para eles de como ocreador minha a visão a vosso respeito indefinidamente, não os abandonem. Isso jamais  se fará. Se os temos sempre na mais alta estima estimação e a sua luz é vista dessa forma.
Nunca abandone os demais. Venham e falem-lhes de amor ao seu coração, de forma em que o creador chegue até vós através das energias , da luz e através do seu coração. Nunca se deve abandonar alguém na Terra. Somos o Conselho Pleyadiano e  lhes agradecemos e os honramos.
Aceitam que. Odeiam. Aceitem o que vos recusa. Aceitem o que ter o ama Aceitem o que vos traz alegria. Amem a sua condição humana, porque só amando-a evoluirão. Vocês são o vértice da vossa própria pirâmide. São o que procuram. São a luz que procuram, são o amor que procuram e s

http://g11-primercontac­to.blogspot.com/
*Publicado por energia alternativa para Urantia. Por Gillian MacBe
Tradução livre de João Gonçalves da Costa, Porto-10-2009.

joaogcp@sapo.pt
Porto-10-2009.

Fujam!!

Hélio Bernardo Lopes
Colaborador

Há já uns bons vinte e cinco anos, numa tarde de sábado, passeando com uma figura muito cimeira do Direito Português, disse a dado passo, a propósito de certo escândalo público que dealbara, mas que, naturalmente, viria a dar em nada: hospitais e tribunais, o melhor é não entrar neles, porque só se sabe como se entra, nunca como se sai. E se assim me exprimi, de imediato recebi, e por voz bem audível, a aquiescência de quem me acompanhava.
Não estranhei, pois, a resposta que o Basto­nário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, há dias deu na entrevista que concedeu ao programa dos Gatos Fedorentos, sintetizando, já ao final, o seu conceito de Justiça em Portugal: Fujam!!
Muito para lá do modo extremamente peculiar de se exprimir de António Marinho Pinto, e de discordar do conteúdo de muitas das suas intervenções, a verdade é que concordei de imediato com aquela sua definição muito sintética: Fujam!!
De resto, isso mesmo transparecia já naquela conversa com a tal figura tutelar do Direito Português, vão passados quase vinte e cinco anos sobre a mesma. Mas com esta diferença: mau grado tudo, o ambiente dos nossos hospitais, de um modo indiscutível e apesar dos naturais e inevitáveis conflitos de interesses, soube adaptar-se e responder à generalidade dos desafios que lhe foram sendo colocados, que é uma situação diametralmente oposta à que vem tendo lugar com os tribunais.
Para ver que assim é, basta recordar dois temas ainda muito recentes, um passado em torno de uma decisão do Conselho Superior da Magistratura, outro ligado às (re)mudanças que parecem ir agora ter lugar nos domínios penal e de processo penal.
No primeiro caso, passaram-se anos com mil e um a exigir a presença de gente escolhida pela classe política, ou pelo setor da advocacia, no sentido de que personalidades exteriores à magistratura tivessem assento naquele órgão da Judicatura, iniciativa de que sempre discordei.
Surgiu, no entretanto, o caso Rui Teixeira, e de pronto se passou a ouvir que quem não é juiz e votou de determinada maneira devia deixar o referido órgão, ao mesmo tempo que o presidente deste, certamente com razão, ainda conseguiu explicar que não existe no caso sansão alguma. Portanto, onde está aqui a mão exterior à magistratura judicial?
No segundo caso, não há quem se não recorde das mil e uma exigências, na sequência do caso Casa Pia, para que se alterasse a utilização da escuta telefónica como meio essencial de prova. Isto num tempo em que o telefone, fixo ou portátil, é um instrumento do dia-a-dia da vida das pessoas e das comunidades, e, portanto, também da grande criminalidade. Ao mesmo tempo, exigia-se um direito quase absoluto à inocência, defendendo-se, de modo uníssono, uma redução inacreditável dos prazos de investigação e das condições para aplicação do regime de prisão preventiva.
Mas eis que surgiram as mais recentes eleições. Num ápice, o que todos haviam defendido passou a ser posto em causa pelos mesmos. Ficaram de fora, naturalmente, os que haviam promovido a iniciativa legislativa das tais mudanças. Quem apoiara o preto ou simplesmente se calara, por mera tática política, passou a defender o branco. E a verdade é que parece que alguma brancura vai mesmo vir aí num destes dias. Num qualquer ano, lá mais para diante, outra negritude acabará por impor-se. A lusitana democracia sinusóide.
Por tudo isto, eu pergunto ao meu caríssimo leitor: tem ou não razão o Bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho Pinto, quando dá como melhor sinónimo para a Justiça em Portugal, Fujam!!? Claro que tem! É lamentável que assim seja, mas é a grande e evidente verdade.

Dia de todos os Santos

Jaime Franco
colaborador

 
No dia dos Santos
E nos Fiéis Defuntos,
Vão aos Campos santos
Visitar seus defuntos.

Levam lindas flores
E acendem lampiões,
Lembram seus amores,
Recordam paixões.

Junto do sepulcro,
Onde estão enterrados,
Todos prestam culto,
Aos seus bem-amados.

Familiar ou amigo,
Amor do passado,
Todo o ente querido,
É ali lembrado.

Há olhos que choram,
Choram de saudade,
Há vozes que imploram,
A Deus piedade.

Impera a tristeza,
Ouvem-se ais sentidos,
E cada um reza,
Por os seus entes queridos.

A atmosfera é pesada,
Está impregnada de odores,
De cera queimada
E de tantas flores.

Por todo o Campo Santo,
Na hora do adeus,
Há quem faça um pranto,
Ao deixar os seus.

Fica um cheiro a incenso,
Quando a gente sai,
O silêncio é imenso,
Quando a noite cai…

A caneca da cerveja

Maria Alice Martins
colaboradora

Na caneca da cerveja bebia a amargura
Da solidão do meu quarto a vaguear pela rua.

Poisei a caneca p’ra beber mais logo
E pensar na avó que me trouxe ao colo.

Bebo mais um golo daqui para ali
Para afogar a mágoa da mãe que perdi.

Esvaziei a caneca e mais outra pedia
E pensar no pai que nem conhecia

Fria a madrugada eu bebia no bar
A doce saudade da mulher que não soube amar.

Bebia, bebia p’ra esquecer em vão
Os dois no jardim em noites de verão.

E de bar em bar tentava esquecer
O filho perdido que não quis compreender

Na caneca da cerveja bebia  a tristeza
Já não estamos os três sentados à mesa

A caneca da cerveja eu bebia no bar
O tempo passado que eu queria apagar.

 
CS4309


Seremos ainda uma sociedade conservadora?

 
Manuel Pires Trigo
Colaborador

Normalmente associa-se o Minho ao conser­vadorismo, a um atraso atávico, onde não entram ideias modernas, nem inovações. Há um certo erro nesta visão porque, paralelamente à formal, sempre no Minho se desenvolveu uma cultura de transgressão em muitos aspectos do comportamento. O Minho não é uma sociedade imóvel, apática. Só que as referências parecem não ter mudado e a transgressão não significa mais nada além disso mesmo, não representa uma vontade de mudança
Para caracterizar esta sociedade podemos recorrer a um aspecto da vida, um domínio de acção a que se possa atribuir a responsabilidade por todos os outros? Será de atribuir o conserva­dorismo à religião? Com certeza que a religião está associada a alguns comportamentos de contenção e sobriedade mas que as pessoas assumem também levadas por outros motivos. De certo que quem associa religião a conservadorismo também associa modernidade a excesso, o que é excessivo.
Haverá sempre alguns aspectos da vida que voluntariamente ou não assumem temporária e conjuntural a prevalência sobre outros. Qualquer domínio da actividade humana pode mesmo assumir uma importância desmedida e até alterar certezas tidas por absolutas. As forças e fraquezas próprias surpreendem-nos por vezes. Para sabermos se um domínio da actividade trava ou acelera a mudança exige-se um olhar sobre o que lhe é intrínseco e sobre o exterior hipoteticamente afectado.
O grande travão do desenvolvimento económico tem sido os próprios factores económicos. É a economia que se mostra incapaz de gerir convenientemente as suas insuficiências e os seus excessos. O grande travão do desenvolvimento cultural tem sido a própria cultura que não controla as suas próprias fontes de financiamento. Também o grande travão ao desenvolvimento político democrático são as próprias forças instaladas que condicionam a nossa visão das relações sociais, do ambiente e mesmo das formas de economia possíveis.
Não somos atrasados, entendemos é mal toda a organização social que extravase o domínio da nossa aldeia. O nosso mundo vivencial pode aumentar mas o conhecimento relacional mantém-se. De tal modo que gente que hoje é erudita, cultivada, cosmopolita, mas que tem a sua origem nesta terra, cultiva ainda essa visão estreita que lhe ficou da infância e para não perturbar as relações cá vividas assume, quando cá está, essa forma de comportamento reservado e obsequioso que nos caracteriza.
Tais pessoas são capazes de se baixarem ao nosso nível, embora usando uma visão estereotipada e essa sim ultrapassada, mas nós somos incapazes de nos elevar até eles, de colocar os problemas que eles colocam, porque para nós tudo se resume a uma realidade trivial e a alguns medos que a imprensa nos trás. A nossa visão do mundo desenvolveu-se com muito pouca formação, pouca mais informação e está condicionada pelo passado, pelo presente e pela falta de uma visão esclarecida do futuro.
Tal como o fazem com as aldeias os meios de comunicação social também vão criando e mantendo os seus estereótipos que falam daquilo que se desenrola nas grandes metrópoles, no sexo, na política e nalguns outros sectores mais especializados, mas que em nada nos ajudam a perceber a realidade. Limitamo-nos a ser caixas de ressonância, repetido­res de umas vozes mais tonitruantes que por acaso se façam ouvir.
Ter voz própria nunca aqui foi uma ambição particularmente sentida. Há uns loucos que de vez em quando despontam e falam em dissonância com todos. Mas aí o discurso é incoerente e repentista. E como podia deixar de ser assim, como é que se poderiam desenvolver vozes personalizadas e com suficiente ligação à realidade nesta terra de fundos caminhos, altos muros, espessos bosques, culturas exuberantes?
Faltam-nos as grandes planuras, horizontes largos, visões diversifica­das? Mas também nós podemos subir a altos miradouros, vislumbrar de lá planícies verdejantes, outros montes mais longínquos, ainda e sempre barrando-nos a paisagem. Só que não podemos permanecer lá tanto tempo quanto queríamos. Temos a beira-mar, essa imensidão líquida de que não nutrimos medo, antes nos atrai sempre. Faltam-nos os barcos para nos fazermos ao mar.
Podemos sonhar, só que os nossos sonhos não coincidem com os sonhos dos outros. Estes, aqueles que têm acesso à largueza da mundivi­dência, têm os seus sonhos construídos noutra base, assentes em pilares de outra flexibilidade, movimentam-se melhor, aspiram a outros céus. A nós até este verde persistente e sombrio nos enche, não deixando espaço para outras cores, para outros odores, é um travão aos nossos sentidos. Somos duros, de cintura firme, de imaginação paralítica.
Não está em causa a beleza do local, a ternura da paisagem, a amenidade da aragem, o vigor que brota do próprio solo. Está em causa a saturação, o excesso, a asfixia, a necessidade de subir ao monte para respirar, evitar a paralisia, o atrofia­mento, o definhamento e a necessidade de exercitar a voz. Principalmente exercitar a voz quando as vozes dominantes são monocórdicas. E con­servadorismo existe quando isto acontece.

 
As autárquicas

Hélio Bernardo Lopes
Colaborador

Terminou, finalmente, o tal ciclo eleitoral que envolveu as três recentes eleições que tiveram lugar em Portugal: para deputados ao Parlamento Europeu, para deputados à Assembleia da República e para as Autarquis. E podem desde já retirar-se três conclusões.
Em primeiro lugar, a completa ausência de significado político interno que envolveu as primeiras eleições, e que levou mui boa gente a tomar os seus resultados como uma errada estimativa do que viria depois.
Em segundo lugar, o fortíssimo desaire sofrido pelo PSD nas segundas eleições, cujos resultados se situaram dentro do intervalo de cofiança apresentado na noite europeia na emissão da SIC Notícias.
E, em terceiro lugar, o novo desaire sofrido pelo PSD nas mais recentes eleições autárquicas. Em todo o caso, um desaire que se estendeu, por igual, à CDU e ao Bloco de Esquerda. Embora, claro está, não tenham sido eleições nacionais.
Tal como pude já escrever na noite das anteriores eleições parala­men­tares, deverá ter já começado o desenvolvimento da queda destes dois últimos partidos, sobretudo, porque a continuação da sua subida acabaria por beneficiar a direita e, naturalmente, vir a pôr em causa o pouquíssimo que ainda resta das conquistas presentes na Constituição de 1976.
Os eleitores estão já muito treinados, sabendo perfeitamente perceber o que realmente está em jogo, não estando na disposição de apoiar a salvação política de dois partidos à custa, no fundo, da destruição das exíguas conquistas que ainda estão presentes na Constituição da República.
Mas os eleitores terão agora, mais uma vez, a oportunidade de medir o grau de responsabilidade do PCP e do Bloco de Esquerda: irão ajudar a direita a derrubar o partido mais votado em eleições livres...? 
Atenção, porque os eleitores portugueses já sabem muito bem o que fazem, mesmo sem grande apego à dita democracia...
E já agora, meu caríssimo leitor: tente encontrar um mapa onde se mostrem as cores dos anteriores vencedores autárquicos, e compare-o com o destas últimas eleições. O que acha?

 
Ao Limiano Manuel Pimenta a minha homenagem

 
José Lima
Colaborador

A Fundação Bill & Melinda Gates doa 255 milhões de dolares, a acrescentar a 100 milhões já doados em 2007.
Bill Gates sensivél aos problemas dos mais desprotegidos, junta-se à Fundação Rotária Internacional, para eliminar a poliomielite no mundo.
Portugal, na decada de 60, inicia uma campanha de combate, com a vacinação de 1.377.­610 doses, o que a pôe em posição privilegiada.
Sobre Bill Gates, Ri­chard Quert disse: “acho que este homem  fez realmente uma revolução, na forma como se ajudar a comunidade”.
“Dar de si antes de pensar em si”, é o lema mundial de Rotary Internacional, mas não é exclusivo dos seus membros. Há centenas, milhares, milhões de pessoas, que todos os dias põe em prática este lema, numa sociedade onde a ganância, a inveja e a corrupção impera.
Manuel Pimenta não é Bill Gates, mas é o homem modesto, generoso, e culto, que como qualquer cidadão da sua geração, prestou serviço militar na Guiné. Fruto do seu trabalho, inteligência e capacidade empreendedora, tornou-se, como hoje se diz, um empresário de sucesso.
Manuel Pimenta, foi um dos cidadãos deste país que contribuiu para a mais progressista constituição  Europeia, enquanto deputado do parlamento português.
A sua experiencia de vida, e oriundo de uma região pobre, o Minho, a sua vivência na Guiné, a sua ansiedade de saber, por isso a sua cultura, levou-o a desejar uma sociedade mais justa, dignificando as pessoas e as suas carências. Por isso, criou a Fundação Manuel Pimenta, que com a cooperação com outras instituições, pessoas colectivas,  públicas e privadas, designadamente autar­quias,universidades, e demais instituições de ensino, organismos de cariz científico e cultural, procurando na interacção com outras entidades a máxima rentabilização dos recursos próprios.
Os anos de guerra, marcam qualquer um, e Manuel Pimenta, homem sensível, não pode deixar de responder ao apêlo. Por isso, a Fundação Manuel Pimenta, vai construir uma Maternidade em Cacheu-Guiné/Bissau, mas não fica por aqui, e em 29 de Agosto passado, na sua residência na Quinta d’Arrifana, em Moreira do Lima, teve lugar a assinatura de um protocolo de colaboração entre a Fundação Manuel Pimenta e a Universidade Lusófona da Guiné-Bis­sau.
Este acto de grande importância cultural e solidária, contou com a presença de ilustres figuras do nosso distrito. Deve-se no entanto destacar, o Doutor  Professor Manuel Damásio, Presidente do grupo Lusófona, e o Engenheiro Montenegro Fiuza responsavel pela Universidade Lusófona da Guiné-Bissau.
Manuel Pimenta, não precisou de  ter criado a fundação, para proteger, apoiar, dar-se aos mais carenciados. A sua humildade e modéstia, levam-no a ocultar muito do que tem feito em prol dos outros.
Manuel Pimenta, é pai de dois filhos que lhe seguem as pisadas, na formação académica, mas fundamentalmente nos valores. São dois jovens que já deram provas de querer dar continuidade a uma dinastia, que com eles, vai na sétima geração.
Esta fundação de que eles (filhos), também são fundadores, garantem a continuidade de trabalhar por uma sociedade mais justa, onde a fome, a desigualdade de oportunidades, o desemprego, a corrupção, a ganância, não tem lugar. Só o equilibrio, porque o contrário é anti-natura.
Não posso deixar de louvar, quem deixa em testamento a criação de uma fundação para ajudar a humanidade, mas mais admiração é para aqueles que o fazem em vida, abdicando de alguma mordomias, para assim col­matar necessidades básicas dos mais desfa­vo­recidos.
Manuel Pimenta, não é Bill Gates, mas é um português, limiano que deve servir de exemplo a muitos. Não sendo revolucionário, pode contribuitr para a mudança, ajudando a comunidade, local, nacional e mundial.
Enquanto houver homens como Manuel Pimenta, a esperança nunca morre.

 
ENTRE VISTAS E OUVIDOS
Seriedade e honestidade

Franklim Fernandes
colaborador

Foi fértil em sublimes tiradas a verborreia das últimas campanhas eleitorais que, longe do fulgor oratório e do colorido visual e sonoro de outros tempos, trouxeram à praça pública travestidas personalidades bem diversas das que conhecemos do dia-a-dia político, afinal a sua verdadeira face, activa e emotiva.
Políticos que, no exercício do poder, se apresentam arrogantes e omnipotentes, desprezando tudo o que vem da oposição porque tudo é demagogia, enfrentaram-nos agora cândidos e angélicos, de palavra serena e suave expressão, estendendo a mão a polícias e ladrões, professores e alunos, crentes e ateus, militares e paisanos, imunes a qualquer vírus gripal potencialmente transmissível por mero contacto manual. Outros, os da oposição, desdenhando de toda a obra do Poder, prometeram mudar a face da Terra e criar paraísos mesmo os materialmente irrealizáveis por  megalómanos ou pe­la adversa conjuntura financeira.
Expressões como “é preciso mudar”, “é preciso fazer”, “é urgente e imperativo”, “somos a competência e o progresso” e outros que tais, inundaram as nossas praças com profusão tal que somos levados a crer que, de facto, toda a acção politica e social tem sido nula ou inconsequente e nada se aproveita da obra realizada.
No meio de toda esta máquina publicitária, há uma expressão profundamente leviana e seriamente preocupante que, despudorada e inconscientemente, foi proferida em abundantes enxurradas.
Sobretudo em presença de várias candidaturas em debate de ideias, nos frente a frente que a comunicação social nos dispensou, foi recorrente ouvir-se “eu sou sério e honesto” reivindicando tais atributos como qualidades exclusivas que não se encontrarão associadas aos opositores uma vez que o vocábulo “também” não participa daquela expressão reivindicativa de posse.
Tudo seria diferente se tal expressão admitisse o “eu também sou sério e honesto”.
Estamos então conversados sobre o significado de honestidade e seriedade assim levianamente proferidos e ficamos a saber que são atributos de mentalidades superiores, adquiridos no egoísta discernimento pessoal, pressuposto elemento de oposição às ideias fatalmente desonestas e irresponsáveis dos demais, em rota de colisão com os auto proclamados seres impolutos e irrepreensíveis, arautos de ética e de carácter.
Uma segunda conecção a esta peculiar seriedade dimana da proximidade do termo “democracia” no seu sentido lato de absoluta liberdade, aquela que altera e molda leis e conceitos, morais e éticas, abstraindo-se da liberdade responsável para despenalizar, desculpar, adulterar.
Por mim, prezo muito mais o conceito de seriedade e honestidade que deriva do reconhecimento dos outros, duvidando seriamente de quem sente necessidade de, a todo o momento e em qualquer circunstância, se declarar sério e impoluto. O conceito que os outros fazem de nós é genuíno e resulta da observação directa e desinteressada da nossa postura perante a sociedade.

Seriedade e honestidade não se apregoam, antes se cultivam, vivem-se e os outros que as apreciem e avaliem porque, se a elas não estiver aliada verdadeira humildade, é certo e sabido que nenhum destes valores fará parte da estaleca do homem, por muito que ele as apregoe e delas se ufane.

 
“Porrada” de Gondufe foi o melhor episódio das Feiras Novas?

 
Cândido Costa
Colaborador

Ao dirigir-me ao local onde adquiro o jornal diário, e como, habitualmente, dou uma passagem pelas capas dos jornais, deparei com uma notícia do Jornal Alto Minho nº798 de 21 de Setembro de 2009, dizendo o seguinte: “Porrada” de Gondufe foi o melhor episódio das Feiras Novas.
Adquiri o jornal e folheei-o à procura do “melhor das Feiras Novas”. Deparei, então, com um quadro, espelhando a eleição do jornal e que teve por base as escolhas dum júri composto por seis elementos e que pelos vistos têm grande conhecimento em et­nografia! O prémio para o primeiro lugar será a assinatura do jornal durante um ano, até aqui tudo normal.
Devo confessar que assisti com muita atenção ao cortejo etnográ­fico, observando todo o trabalho desenvolvido pelos participantes, não esquecendo um pormenor muito importante, que é a forma como os mesmo estão trajados para o trabalho apresentado, certamente que os membros do júri sabem, melhor que ninguém, que antigamente o lavrador não usava calças de ganga, e que o malhador não usava adornos, como sejam os broncos na orelha.
Então o que é a etnografia?
Qual a classificação do trabalho apresentado pela freguesia da Correlhã, o rigor dos trajes e a postura dos seus participantes?
A freguesia de Poi­ares, com a representação da malhada, em que a sequência e o rigor do levantar dos malhos, levado a cabo por jovens e menos jovens que sabem estar no tempo e na época que representam, envergando trajes indicados para esse trabalho?
Perdoem-me as pessoas das outras freguesias que tão bom trabalho apresentaram no cortejo etnográfico, apenas me referi a estas duas freguesias como exemplo.
Sendo um apaixonado pela etnografia, fiz recolha escritas, visuais, através de imagens e fotografias das tradições, usos e costumes das gentes do Vale do Neiva, zona onde estou inserido, e por essa razão segui, atentamente, durante o cortejo os trabalhos apresentados e os trajes que os participantes envergavam. Se todos o fizessem certamente a classificação seria outra.

 
Vocês são um vórtice de energia*

João Gonçalves Costa
Colaborador

Vocês contêm todas as possibilidades dentro de vós mesmos, contudo não as vêem Acreditam como os Deuses que são. Utilizem as vossas palavras, os vossos pensamentos, as vossas intenções para vos levar em  círculo completo, onde deve dar entrada. Se desconhecem o terreno, se ignoram as instruções para atingir o nível seguinte do vosso ser, então peçam que vos seja mostrado e confiem no que vêm.
Deixem ter medo de vós mesmos, do vosso mundo e das vossas opções. Tentem ajudar as vossas famílias e os vossos amigos, talvez  andem muito frustrados, visto que as energias que eles expiram são como pontas de fogo. Vocês estão zangados que as vossas famílias, com os vossos amigos, porque eles ainda dormem. Se eles acordassem. Teriam gostado  que o resto do planeta lhes virasse as costas, da vez em, atando o cabelo para trás e continuara a andar pela estrada fora em direcção ao Pôr do Sol, porque vos tinham decepcionado? Quando se desenterrasse alguém, eles sabê-lo-iam  e senti-lo-iam? Dá a impressão de que há um letreiro no seu campo energético. Todos sabem o que se passa, excepto vocês. Menos vocês.
Nos próximos três meses tentarão uma grande viagem, uma imensa viagem, quando regressar a partes do seu passado, de seu futuro e seu presente simultaneamente. As energias sobrepor-se-ão e num momento  verão à sua volta uma e acreditarão que viviam em seu passado, ao minuto seguinte pensarão que estavam em seu futuro, e logo depois, voltaram ao presente, que é pré-enviado, como sabem ( mais elevada vibração.
Eu estão em seu futuro, e depois voltarão ao presente que é pré-enviado, como sabem (NT: presente = presente = presente; = pre-sent =pré-enviado.)
Vocês contêm dentro de vós todas as possibilidade. Estão  zangados com as  vossas famílias: Estais zangados com as vossas famílias os vossos amigos, porque eles ainda dormem.  Mas se eles acordassem, de vez, vocês dormiriam? Se acordassem  enquanto vocês dormiam?  Teria gostado que o resto do Universo os abandonasse? Atava o cabelo para trás e continuaria a andar pela estrada fora porque você os tinha decepcionado? Quando se desinteressam de alguém, eles sabem-no e sentem-no. Dá a impressão que há uma facha de néon no seu campo magnético. Todos sabem o que se passe excepto você.
Nos próximos três meses experimentarão uma imensa viagem quando regressarem a partes do seu passado, do seu futuro e do seu presente simultaneamente. As energias sobrepor-se-ão e, num momento verão à vossa volta e acreditarão que estavam em seu passado, ao seguinte minuto passarão que estavam em seu futuro.
Nos  próximos 3 meses experimentarão uma imenso viajem, quando ingressarem em partes de seu passado, seu futuro, e seu presente simultaneamente. As energias  vão sobrepor-se  e num momento verão à vossa volta e acreditarão  que estavam em seu passado, depois no siguinte minuto pensaram que estavam  em seu futuro, e de repente voltarão ao presente que é pre-enviado, como sabem (NT: present = presente; pre-sent = pre-enviado). Observem a  vibração más elevada de sua pró pia luz). Observem a vibração mais elevada da vossa  própria luz.

 *Publicado por energia alternativa para Urantia. Por Gillian MacBe
Tradução livre de João Gonçalves da Costa, Porto-10-2009.

 
Ser prior, numa freguesia destas

 
Antero Sampaio
Colaborador

O Engº. José Sócrates, vencedor das Eleições Legislativas, onde o Partido Socialista teve uma maioria relativa, foi indigitado pelo Sr. Presidente da República, para formar um novo Governo.
O futuro Primeiro Ministro, que sucede a si próprio, entendeu e bem, consultar os partidos com assento na Assembleia da República no sentido de, uma vez, que o P.S. não tem maioria absoluta no Parlamento, os sensibilizar para um futuro entendimento ou cooperação estratégica. Isto é, o P.M. quis saber se a Oposição, quer de Direita ou Esquerda, estavam dispostos a “facilitar” a vida ao futuro Governo.
Todos os partidos disseram, NÂO. E disseram não, embora, passada a aprovação do Programa do Governo e do Orçamento (estou convencido que estes  diplomas de vital importância par o País, vão ser aprovados), poderiam viabilizar determinados  diplomas, desde que o P.S. alterasse a sua política, política que marcou a sua postura, durante a última legis­latura.
Assim e salvo melhor opinião, o Partido Socialista terá que governar sozinho. Isto não é a primeira vez, pois o Engº. António Guterres, também foi Primeiro Ministro do Governo Minoritário. Simplesmente, nessa altura, o Partido Social Democrata tinha outro sentido de Estado e foi criado o tal chamado BLOCO CENTRAL.
Nesta legislatura, não vai ser fácil, para o Primeiro Ministro governar este País. Digo mais, não vai ser nada fácil SER PRIOR NUMA FREGUESIA DESTAS.
Portugal atravessa ainda uma das piores crises, económica e financeira, da sua História. O desemprego continua a aumentar, atingindo e de que maneira, os jovens licenciados; as empresas continuam a fechar, algumas delas alegando falta de encomendas, outras fecham por motivos que deixam os seus trabalhadores de “boca aberta”; as exportações, mola real da economia continuam a baixar; o investimento, quer nacional ou estrangeiro é quase nulo; o nosso ensino é deficiente; os cuidados de saúde, sobretudo no interior do País, deixam muito a desejar, pois a maioria dos médicos, pretende fixar-se nas grandes cidades do litoral; a justiça, cara e morosa, não é capaz de resolver o problema da criminalidade, cada vez maior e mais sofisticada; a nossa agricultura vive dias difíceis, etc. etc. Todos estes problemas dificultam a vida da maioria do povo português, que não confia  nos políticos e prefere, na minha opinião, preocupar-se mais com a ida da nossa selecção de futebol ao Campeonato do Mundo , com a próxima vinda do Papa a Portugal ou  com as reportagens televisi­vas sobre a vida de Amália Rodrigues…
Caro leitor,  quando a­queles que agora nos vão governar, numa nova legislatura, encontram, por parte das Oposições, não uma cooperação mas sim, uma total obstrução, reafirmo o que disse: Assim, vai ser  difícil ser-se prior numa freguesia destas.

 

Será amor esse teu sentimento?!…
(lê este poema, talvez fiques elucidado/a)

Jaime Franco
Colaborador

0 amor é assim,
Nunca tem fim,
É para sempre;

E se alguém não crê,
Eu sei porquê,
Amor, não sente;

Pensa que ama,
Que bem se engana,
Só tem paixão;

Porque essa sim,
Tem sempre fim,
Tem duração…

Amar é dar,
É perdoar,
É querer bem;

Pois quem não doa,
E não perdoa,
Amor não tem;

Amar é dar,
Sem esperar,
Compensação;

Porque quem der,
Para receber,
Só tem paixão…

Se ao dar um beijo,
Sentes desejo,
E tentação;

Esse calor,
Não é amor,
Mas sim paixão;

Porque quem ama,
Não se inflama,
Não fica a arder;

E ao dar um beijo,
Não tem desejo,
Mas sim prazer…

Se alguém duvida,
Nunca na vida,
Sentiu amor;

E é evidente,
Que o que sente,
É só calor; 

Ao duvidar,
Está a confessar,
Sem o saber;

Que é uma paixão,
Uma ilusão,
Que está a viver…

 
Parecia de mel e era de fel


Maria Alice Martins
colaboradora


Parecia de mel o João
Em tempos que já lá vão.
Como era doce o sacana do João
E fosse lá como fosse
Conquistou meu coração
Agora é pedra e cimento
Ternura ficou na Igreja
No dia do casamento.
Perecia de mel o João
Em tempos que já lá vão.
Agora fala a gritar
Quem manda em casa sou eu
E ninguém mais vai mandar.
Ferido desiludido
Meu coração ainda chora
E o João senhor de tudo
Bate o pé não vai embora.
Parecia de mel o João
Em tempos que já lá vão.
Ó tempo volta p’ra trás
Quero ser livre e donzela
E o bom senso vai ficar
À porta de sentinela.
Se o tempo voltar p’ra trás
Vou fechar meu coração
E se alguém à porta bater
Fico a sonhar à janela
Mas quem bate
Eu não vou ver.

CS4308

Votos contados, vale a pena falar?

Manuel Pires Trigo
Colaborador

Votos contados, não vale a pena falar, dirão os mais cépticos, dirão também os mais arrogantes. Vale sempre a pena falar, diremos nós, porque estamos a falar do homem, do seu modo de encarar a vida, os outros, e porque devemos alertar para o desdém com que alguns inteligentes serão tentados a encarar quem os produziu e para os abusos que alguns serão tentados a cometer sobre os mesmos.
Votos contados, vamos ao trabalho, que não querem ouvir falar mais em votos, dirão os mais fracos, dirão também os mais apressa­dos, desejosos de pôr em prática aquilo que congeminaram à revelia dos eleitores. Vale a pena deixar trabalhar quem tem obrigação disso, mas também vale a pena aproveitar para pensar porque as coisas correram assim e não doutro modo qualquer.
E valerá a pena ser oposição, mas convenhamos que aqui deveríamos ter uma conduta mais comedida. Nas eleições nacionais é comum fazer-se oposição logo a partir do dia seguinte à eleição, sem um balanço feito, sem uma autocrítica, muitas vezes sem ter em conta as consequências dessa posição. Tanto nas locais como nacionais impor-se-ia que um balanço completo fosse feito porque o idealismo político de cada um comporta decerto alternativas mais flexíveis dos que as mostradas durante as campanhas eleitorais.
Porém mesmo quem se propunha trabalhar com os vencedores não pode ou não deve abdicar assim de rompante das suas ideias e passar a partir da derrota a perfilar outras, só porque aparentemente saíram vencedoras. Pelo menos haveria que ver se foram as pessoas ou as ideias que venceram, porque estas só parcelarmente são tidas em conta., e, se uma pessoa está bastante convencida da validade das suas, mais se deve empenhar na sua defesa.
Afinal o que faz as pessoas votarem? O que faz as pessoas mudarem de voto de umas eleições para outras, como acontece tão drasticamente em Ponte de Lima? Será apenas um benefício imediato, nem que seja só um bom relacionamento com os poderosos, que levará tantos milhares de eleitores a redireccionar nas autarquias os votos em relação ao que se praticara nas legislativas?
Mas as pessoas também gostam de se olhar ao espelho e de olhar do mesmo modo o seu grupo, a sua aldeia, a sociedade em que se integram. Será apenas o benefício mediático que levará a entregar a gestão da imagem àqueles que contribuem para projectar a imagem básica do concelho, mas também, reconheça-se, acrescentaram a essa imagem, para o bem e para o mal, algo da sua lavra?
Ou serão tão só as pessoas, umas com que nos identificamos porque elas se identificam connosco, e votamos nelas, e outras com quem não temos ligação, que nos são avessas, indiferentes ou fracamente apelativas e que não merecem o nosso voto? Afinal de que tipo de pessoas gostamos mais, aqueles que se identificam mais com o nosso estado de espírito, ou daqueles que nos dão ânimo para enfrentar o futuro?
Desde finais dos anos oitenta, desde que entramos na Comunidade Europeia e dela começamos a sentir a influência, desde a queda do muro de Berlim, que a política deveria ter deixado de ser vista com o empirismo de outrora. O relacionamento político pode estar enfim a um nível diferente do relacionamento social, inter-pessoal, familiar mesmo. A política pode dar um contributo para a dignificação humana que a própria família, abandonada à sua sorte, é incapaz de dar.
Quem votou neste ou naquele candidato a autarca deve ter para nós a mesma dignidade, mesmo que vejamos que houve factores que influenciaram o sentido do voto, sejam efeitos psicológicos ou materiais, do âmbito da coacção ou do constrangimento, da chantagem ou da sedução. Se houve quem se deixasse “levar” isso só revela a nossa falha política quando nos propomos defender os direitos e a dignidade dos outros.
Afinal o ser indefeso, que pode ser vítima, mas também o abutre pronto a cair sobre a presa, é o princípio e o fim de toda a actividade política. Elevar a dignidade do homem é também colocá-lo em situação de ser elemento de uma relação aberta, leal, igual entre quem é chamado a trabalhar na organização do Estado e quem tem que delegar em alguém as funções que ele próprio não pode ou não quer executar.
Quando há muito poucos a queixarem-se, há, do outro lado, muitos a rejubilar, porque é sempre bom estar do lado dos vencedores. No entanto a liberdade é suficiente para que possamos atribuir culpas próprias aos que se queixam e nenhum valor aos que enaltecem a vitória porque o seu contributo poderá ter sido nulo.
Aqueles que perdem fazem bem em repensar o seu enquadramento e a sua intervenção política nesta sociedade que, não os tendo escolhido, não formula desta forma qualquer juízo explícito de valor. O que não podem é ignorar, querer teimosamente persistir no erro e arrastar as organizações em que se inserem para um abismo permanente. O eleitorado perdoa melhor àqueles que são fracos mas ganham e não perdoa aos que perdem, mesmo sendo um pouco mais fortes. Ou será que só são teimosos?


Deputados por Ponte de Lima 
na Primeira República (1911-1926)

Narciso Cândido Alves da Cunha

Luís Dantas
Colaborador

Narciso Cândido Alves da Cunha nasceu na freguesia de Formariz, Paredes de Coura, a 5 de Setembro de 1851. Estudou em Braga, no liceu e no seminário. Mais tarde, em Coim­bra, foi ordenado presbítero (1878) e concluiu o curso de direito (1881). Ocupou diversos cargos: Conservador do Registo Predial da comarca de Paredes de Coura (1885-1901), Magistrado em Bragan­ça (1901-1908) e no Funchal (1910-1911), Administrador do concelho e Presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura (1908-1911), Deputado e Senador (1911-1913).
Foi um «homem de saber, de falar e de escrever» (1). A sua obra «No Alto Minho – Paredes de Coura», editada em 1909, não é só um reflexo do carinho consagrado ao património da sua terra e da sua gente, mas também o repositório de vastos conhecimentos no domínio da história, da arqueologia, da lexicologia e da etnografia. Em Agosto de 1905, foi anfitrião e companheiro de Leite de Vasconcelos (1858-1941) na exploração dos dólmenes na Serra da Boulhosa.
Eleito deputado por Ponte de Lima (Círculo n.º 2), nas eleições de 28 de Maio para as Constituintes de 1911, representou com empenho, afinco e probidade, os interesses da região minhota. A sua acção política esteve sempre relacionada com as grandes causas. Na Câmara do Senado, na sessão n.º 9 do dia 14 de Dezembro de 1911, chamou a atenção para os problemas da instrução primária e popular: os maus métodos de aprendizagem; a existência de salas de aulas em casas particulares com vários meses de renda em atraso; a falta de escolas públicas e os edifícios degradados: «à escola da vila de Ponte de Lima, concelho muito populoso e muito frequentado por forasteiros, ruiu‑lhe o tecto, há tempo, não tendo havido desgraça porque os alunos não foram atingidos pelos destroços.
Doutra escola que conheço, a escola de Ferreira, no concelho de Paredes de Coura, diz o próprio professor que quando chove, é preciso abrir os chapéus-de-chuva para se abrigarem da água.» (2)
Num dos seus discursos sobre o mesmo tema, o tribuno apresentou um projecto de lei para a «criação duma escola agrícola, prática, móvel, pelo sistema das escolas conhecidas pelo nome de Maria Cristina (3), e que tem dado óptimos resultados.» (4) Em boa hora, estas escolas tinham já triunfado em várias localidades: Rio Tinto (1901), Vila Nova de Famalicão (1902), Guimarães (1903), Barcelos (1904), Santa Marta, Viana do Castelo (1905), Braga (1906), Arcos de Valdevez (1907), Ponte de Lima (1908), Penafiel, Amarante (1909) e Marco de Canavezes (1911). Foram surgindo outras também de iniciativa individual, na mesma ocasião, com o nome dos seus patronos: «Comércio do Porto» (cujo título foi escolhido pelo Conde de S. Cosme do Vale, Famalicão, 1903); «Conde de Sucena» (Borralha, Águeda (1904), Azeméis (1905), Ovar e Estarreja em 1907); «José Bessa» (Barcelos, 1905); «Alves Teixeira» (Vidago, 1907); «Condessa de Sucena» (Águeda, 1907); «Conde de Agrolongo» (Guimarães, 1909) e «Rodrigues de Morais» (Ponte de Lima, 1909). 
Alves da Cunha tinha ali a palavra límpida, larga visão do futuro - a emoção também o dominava - vontade de compartilhar a vida digna com os homens, as mulheres e as crianças do mundo rural, com «as massas anónimas, que vivem do campo, que vivem da terra e para a terra, que mourejam todo o dia, hora a hora, desde manhã até de noite, debruçadas sobre a mesma terra para lhe pedirem pão para comer e até para o dar ao Estado. Estas classes considero‑as eu como o verdadeiro nervo da Nação (Apoiados), e por isso hão‑de permitir‑me que lhes diga que elas têm sido, precisamente, as mais esquecidas. (...)
Esse povo, ou essa classe do povo, donde venho e com o qual me criei, cujas dores tenho auscultado desde há muitos anos, a cujas festas tenho assistido e com quem ainda há pouco privei perto de quatro anos para lhe estudar e registar a linguagem (...), é de índole naturalmente boa, sofredora e ordeira. (Apoiados).
O povo do norte, e quando digo norte não me refiro a esta ou aquela província determinada, mas a uma grande parte, senão à maior parte do país, é essencialmente trabalhador, respeitador das autoridades, pontual no cumprimento dos seus contratos e verdadeiramente amorável.
Haja vista o que se passa no Alto Minho, naquelas montanhas da Peneda, Soajo e Castro Laboreiro, quando algum forasteiro (e são bem poucos os que por lá aparecem) se abeira do tugúrio do mais pobre dos habitantes que estão encerrados nas ravinas daqueles montes: o hóspede é, para eles, uma pessoa sagrada e é tratado com o melhor que há em casa que, na maior parte dos casos, é pão de centeio e leite.» (5)
Em Abril de 1912, defendeu ainda com entusiasmo «um projecto de alta importância regional, e até nacional» (6): os caminhos-de-ferro do Alto Minho.
A sua voz lúcida, vibrante e firme deixou‑se de ouvir, mas permanece ainda hoje o eco retumbante dos seus ideais luminosos.
O grande homem público caiu gravemente doente devido a uma pneumonia, e morreu em Lisboa, na casa da Travessa da Palmeira, 64, 2.º andar, no dia 14 de Janeiro de 1913.

NOTAS
(1) Jorge Fernandes Alves, in Narciso Alves da Cunha, Perspectivas do Alto Minho, Intervenções Parlamentares, Edição da Câmara Municipal de Paredes de Coura, Paredes de Coura, 1997, pg. 9
(2) Narciso Alves da Cunha, Perspectivas do Alto Minho, Intervenções Parlamentares, Edição da Câmara Municipal de Paredes de Coura, Paredes de Coura, 1997, pp. 33-34
(3) «Tendo o Comércio do Porto preconizado a ideia de que para o engrandecimento agrícola em Portugal se carece não de altas escolas agrícolas, mas sim de ensino posto ao alcance dos mais modestos lavradores, um devotado filho do Porto, em cujo carácter parece reviver o civismo da velha raça portuguesa, leu no Brasil essa afirmação do jornal portuen­se e, no meio do labutar incessante da sua prodigiosa actividade de comerciante, lembrou‑se de proporcionar ao próprio Comércio do Porto os recursos pecuniários para a realização do pensamento de que fora apóstolo.
(...)
Interrogado o criador dessas mensageiras do futuro agrícola de Portugal sobre o título que deveria dar‑se às escolas, respondeu muito singelamente: «Chamem‑se «Maria Cristina» - o nome da minha mulher.»
Bento Carqueja, Escolas Móveis Agrícolas, Ilustração Portuguesa, n.º 110, Lisboa, 30 de Março de 1908
(4) Narciso Alves da Cunha, Perspectivas do Alto Minho, Intervenções Parlamentares, Edição da Câmara Municipal de Paredes de Coura, Paredes de Coura, 1997, pg. 35
(5) Idem, idem, pg. 36
(6) Idem, idem, pg.127

ENTRE VISTAS E OUVIDOS
Portugueses de Terceira

Franklim Fernandes
Colaborador

Violando as normas comunitárias, segundo o parecer da Junta Metropolitana do Porto, o Governo promoveu a alteração das normas de aplicação dos fundos estruturais do QREN permitindo o desvio de mais de mil e quinhentos milhões de euros que se destinavam às regiões carenciadas do Norte, Centro e Alen­tejo, as denominadas “Regiões de Convergência”, para as aplicar na privilegiada região de Lisboa e Vale do Tejo.
Esta determinação, tomada em segredo em pleno período de campanha eleitoral para as últimas Eleições Legislativas, escondida da opinião pública pela carga negativa e pelo impacto adverso que necessariamente haveria de provocar junto das populações afectadas em época tão sensível e decisória vem agravar profundamente o fosso já existente entre Lisboa e a periferia que é todo o Portugal profundo, martirizado por décadas ou mesmo séculos de absoluto obscurantismo, longe do poder decisório, com um Produto Interno Bruto e qualidade de vida muito inferiores à média euro­peia, bem ao contrário da região agora beneficiada com esta habilidade governativa cujo PIB não permite o acesso às verbas destinadas às regiões de convergência.
Estamos, assim, perante uma verdadeira batota, consciente e voluntariamente idealizada e acabada pelo Governo nada sensível às questões periféricas vistas à distância a partir das amplas janelas do Palácio de São Bento e abençoada pela dominante Comunidade Europeia.
Entretanto, as populações lesadas continuam a vegetar em terra queimada, sofrendo com carência de acessibilidades, de desertificação, de cuidados de saúde, de desemprego, de fome, de todos os inconvenientes male­fícios de interio­ridade.
Mas, à boca cheia, os nossos paternalistas governantes, vão afirmando dissimuladas preocupações com este estado degradante e miserável em que sobrevivem os enteados habitantes, enganados como crianças a quem é oferecido o rebuçado do Rendimento de Inserção Social, habilidoso sofisma que vem mantendo precariamente silenciosas graves carências e em permanente vida airada uma significativa franja de beneficiários deste abominável abono que, a troco de votos no padrastozinho amigo e solidário, vai permitindo a inactividade voluntária e o parasitismo, em prejuízo dos direitos sociais da massa trabalhadora, dos verdadeiros desempregados e das reformas.
Está, assim, irremediavelmente ferida a confiança de bem-intencionados e conscienciosos cidadãos no seu governo que tão escandalosamente escamoteia a sua primeira preocupação governa­tiva, a de garantir o bem – estar da capital e seus arrabaldes como território verdadeiramente nacional que merece atenção permanente, sendo a enorme periferia do resto do rectângulo peninsular mera paisagem que apenas precisa de pormenores para que os portugueses de Lisboa e Vale do Tejo, possam passar férias e desfrutar fins-de-semana em mínimas condições de comodidade.
Enquanto isso, vão sendo erguidas as bandeiras da ignorância, do comodismo, do seguidismo partidário inconsciente e irresponsável, do masoquismo incoerente que deixa para os outros o ónus da decisão esquecendo-se que a sua própria inacção e alheamento pela res pública será a arma que se apontará a eles próprios o que seria bem feito se não viesse prejudicar cidadãos civicamente conscientes e colectivamente empenhados para o bem comum.
Com tais mentalidades, apenas nos resta sobreviver com dignidade cívica e ética para, no fim desta peregrinação em vale de lágrimas, sermos todos nós e os de Lisboa, tabelados na mesma categoria de mortos, uns com direito a panteão, outros em campa rasa, mas todos na mesma situação de antepassados.

Os portugueses devem estar atentos

Hélio Bernardo Lopes
Colaborador

É verdade, meu caríssimo leitor, os portugueses devem estar atentos ao que se passou desde que o Presidente Cavaco Silva tomou posse das funções que hoje desempenha. E devem estar atentos a tal realidade porque o desempenho deste Presidente da República, sem razão lógica, tem vindo muito rapidamente a perder virtudes e a ser fonte de constante conflitualidade interinstitucional.
O Presidente Cavaco Silva foi eleito por uma escassa margem acima do mínimo exigido para aceder ao cargo logo à primeira volta. E foi eleito, em essência, na base de uma ideia que desde o início da campanha eleitoral do tempo a todos se mostrou imprecisa: a cooeração estratégica com os restantes órgãos de soberania, muito em particular o Governo.
A generalidade dos comentadores desse tempo eleitoral percebeu que a tal ideia imprecisa, quase certamente, poderia traduzir uma vontade de intervir, fosse do modo que fosse, na condução da governação do País, o que, nos termos constitucionais conhecidos, compete ao Governo e não ao Presidente da República.
Isso mesmo foi logo possível observar, ainda mesmo ao início do seu desempenho presidencial, com a ideia de que nos temas de grande interesse nacional se deveriam procurar consensos alargados. Ora, num Governo com maioria absoluta uma tal ideia simplesmente correspondia a esvaziar boa parte do direito de governar que o Partido Socialista havia recebido do eleitorado.
Com mui ligeiros e naturais conflitos, em geral em torno de questões importantes e públicas da governação, as coisas foram correndo, diga-se assim, normalmente. A verdade, porém, é que nem o PSD saía do marasmo permanente em que ia vivendo e se voltou a ver agora, nem as sondagens auguravam nada de bom.
Até que, depois de ter Luís Marques Mendes deixado a liderança do seu partido, o mesmo veio a ter lugar com Luís Filipe Menezes, e em condições de gravidade de bastidores que se perceberam mas nunca foram esclarecidas. Assim surgiu, pois, Manuela Ferreira Leite, um objetivo mito político que agora foi possível observar de um modo pleníssimo.
Quando um dia se fizer a história deste mandato do Presidente Cavaco Silva, pelo que se me foi tornando evidente, foi com a chegada de Manuela Ferreira Leite à liderança do seu partido que se operou, já de um modo indiscutível, uma mudança no comportamento político do Presidente Cavaco Silva. Uma mudança que se traduziu numa crescente oposição às legítimas opções do Governo no âmbito que a Constituição da República lhe confere.
O tempo, porém, ia passando, com as sondagens a mostrar uma linha constante e sem variantes: o PSD na zona dos trinta, e o PS na dos quarenta. A designada esquerda ia subindo sem parar e ao CDS/PP, como de costume, profetizava-se o falhanço.
Surgiu, deste modo, a infelicíssima ideia de fazer assentar a campanha eleitoral que ora passou em questões de caráter: Manuela seria séria, competente, verdadeira e patriota, Sócrates tudo ao invés. De um modo verdadeiramente estranho e espetacular, como se se estivesse a tratar com uma qualquer magia, eis que a administração da TVI, espanhola ou portuguesa, pôs Manuela Moura Guedes e o seu horroroso noticiário na alheta. Portanto, para os incautos, de quem teria sido a cupla? A verdade, que logo todos perceberam, é que a Sócrates é que tal iniciativa não convinha de todo.
Até que lá surgiu a notícia de Agosto de que gente do Palácio Nacional de Belém estaria a apoiar a campnha do PSD. Não tendo o Presidente da República desmentido de pronto tal notícia, como fez, por exemplo, com o caso BPN, ainda que de si nada tivesse sido dito, tornou-se natural e legítimo admitir que Cavaco Silva apoiaria tal apoio que estava a ser dado ao PSD por gente do seu staff. Uma mais que expectável indução.
Depois, bom, foi o que se viu. Lá surgiu o tal e-mail, ao mesmo tempo que o próprio Presidente Cavaco Silva nos veio agora, de um modo algo inacre­ditável, dizer que não sabia se a respetiva estrutura informática do palácio onde trabalha e mora é suficientemente segura!!
Claro está que nunca teve lugar qualquer escuta, ou vigilância, ao Palácio Nacional de Belém, ou a gente que aí trabalha, porque nada ali se passa que mereça uma especial atenção perversa do Governo. A menos que ali estivesse a ter lugar algo de muito grave, ou de ilegal, o que também não era o caso. Belém, num certo sentido, pouco difere de Buckingham.
O que se deu, claro está, foi uma tentativa, fosse de quem fosse, para se derrubar a liderança, pessoal e política, do Governo, o que acabou por se não dar. Ao contrário, é Manuel Ferreira Leite, como tudo já faz crer, que irá pela porta fora. Tudo, portanto, ao contrário.
Termino com esta pergunta ao meu caro leitor: tenho ou não razão? E porque tenho, acha que Aníbal Cavaco Silva está hoje em condições de desempenhar cabalmente um segundo mandato, depois dos mil e tropeções políticos que foi possível observar-lhe? Não haverá por aí quem seja melhor e mais capaz de desempenhar o cargo de Presidente da República?

 
Música, danças e cantares de Ponte de Lima

Lima Barreto
Colaborador

A música e a dança no nosso Minho andou sempre de mão dada: o folclore, o vira, os zés-pereiras, as concertinas, os cantares ao desafio, os ranchos folclóricos, são comuns às nossas comunidades limianas, como a bem dizer a todo o nosso minho, litoral e interior.
Claro que cada concelho tem as suas diferenças mas é precisamente na diversidade que cresce a riqueza desta cultura dita popular.
Música profana e música religiosa misturam-se como corpo e espírito e cruzam-se em ricas tradições dos ciclos religioso e laico. A música religiosa é mais conservadora, mas a profana tanto é lúdica como festiva, como austera e despida de todos os excessos, impondo sempre a solenidade. Formas musicais sacras e formas musicais profanas, predominantemente arcaicas ou recentes, a solo ou a coro, uníssono ou polifónico, unisexual ou misto, fazem parte das tradições do Lima, como do Minho ou do Coura ou mesmo do Ave e Cávado.
Os instrumentos musicais também são variados, mas sobrevive a tudo isto uma linha tonal própria e hegemónica.
Por exemplo, a chulada substituía o cavaquinho pela rabeca chuleira. No inventário musical limiano, claro que os cantares ao desafio sobressaem dos demais.
Os Zés-Pereiras constituídos por membrafones e aerofones, de percussão directa ficaram um pouco descaracterizados no nosso Minho com a introdução da gaita-de-foles, que tem origem celta e portanto também muito galaico. A junção entre os gaiteiros e os bombos foi facilitado pelo intercâmbio cultural entre a Galiza e o Minho. Reparem que a gaita-de-foles é um “ex-libris” musical escocês, muito mais que galego ou minhoto. Mas os autóctones da Serra d’Arga, da Peneda, do Gerez, etc, depressa fizeram deste instrumento quase exótico, uma concorrência séria ao cavaquinho e à concertina, daí saindo “grupos” que ficaram célebres na Ribeira Lima, que foram “Os unidos de Cepões”, os “Aguaceiros do Bárrio”, e outros de menor renome, como os bombos de Fornelos, Vitorino de Piães, Facha, Cabaços e S. Julião de Freixo.
A catalogação da música popular é difícil e incorre em alguns erros e suposições que muitas vezes são mais invenções do que dados provados e defensíveis. Isto porque a música popular escapa, de algum modo, a uma origem bem definida, porque manipulada pelos seus praticantes, misturam-se géneros, como alhos com bogalhos. É certo que há sempre uma prevalência histórico-popular, de região para região, mas no seu cerne, prevalece o reportório das romarias principais.
A prevalência dos cordafones tradicionais (cavaquinho, viola braguesa, violão e posteriormente o rialejo) trouxeram à nossa música uma estabilidade musical que é conhecida em Portugal inteiro.

O Minho é a capital do folclore como é a capital do “verde”. A arte de cantar e de dançar à moda minhota não tem par em mais sítio algum. Por isso, é um património muito nosso, peculiar, sugestivo, atractivo e envolvente, porque no “arraial dança toda a gente”, mesmo que seja “pé de chumbo”. Os cantares ao desafio são por excelência, manifestações tradicionais, mesmo de uma tradição oral, como são as rezas, as quadras votivas, os cânticos e as danças comuns nos nossos campos.
O “desafio” nunca é contido mas é sempre muito temático. Tem surpresa quanto baste e desgarrada que sobra. No nosso Minho, a música e a dança são como o pão e o vinho para as nossas mesas. 

 
Oração para afastar a inveja, 
o encosto e os maus olhados

Antero Sampaio
Colaborador

Esta notícia, ou melhor, esta oração, encontrei-a no meio do meu arquivo, mas como é sempre actual, aqui vai.
“Inbeja?”, pergunta a Ti Pitinhas. “Eu já sou belha. A mim ninguém me tem inbeja. Só à gente rica e bonita”, responde depressa, entretida com uma mão cheia de arruda. “Esta planta é boa pra isso”, diz a velhinha de Vilar de Perdizes, quase sem parar. “mas olhe, eu conheço uma oração que corta o mal da inbeja. Até a rezo muitas vezes”. Sim, sim , explica. Não é por nada, mas às vezes o diabo é tendeiro”.
Sempre a separar umas ervas das outras, a Ti Ana conta sorridente que muita gente lhe pede os ditos para afastar o encosto. “Inda noutro dia estiveram cá muitos alentejanos a quem eu dei. São muito engraçados”, lembra satisfeita. “cantei uma cantiga do Alentejo e depois rezei”.
A ladainha da “doutora das ervinhas”como todos a tratam carinhosamente, começa com a mão direita. “A gente benze-se, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A seguir diz: corto inbejas e maus olhados e todos os espíritos e raibas que no meu corpo e na minha casa ande incostados. Pelo Poder de Deus e da Virgem Maria, Pai Nosso, Ave Maria”.
Com uma lucidez encantadora, a Ti Ana lembra que a reza deve ser repetida nove vezes, findas as quais o corpo terá de ser benzido com arruda. E resulta. “Comigo sempre deu certo, porque isto não faz mal a ninguém. É só para afastar o encosto”.
Mas expurgar o manquinho  não é especialidade da Ti Ana. Do que ela sabe mesmo é de plantas.De cor e salteado, diz para quem a quiser ouvir que o loureiro é bom para a digestão, menstruação e reumatismo. Melhores ainda são os coentros, que além de serem um tempero de trás de orelha, ajudam a acabar com a gripe, as vertigens ou a arteriosclorose. A cidreira é das mais conhecidas por facilitar a digestão. Mas também acalma as dores de estômago e o nervosismo, além de combater as insónias. Depois destas todas e de mais algumas, que podem ser compradas em frente do centro paroquial da vila, a Ti  Ana Pitinhas, lembra a famosa salva, cujas propriedades o próprio Padre Lourenço Fontes, já havia elogiado. A planta serve para o tabagismo, depressão ou desinfecção. E é mais miraculosa que o “Viagra”, pois liberta as mulheres da frigidez e os homems da falta de “músculo”.

Caro leitor, aqui tem os remédios da Ti Ana Pitinhas, uma transmon­tana dos quatro costados. Se quiser saber mais, o melhor é um dia rumar a Vilar de Perdizes. Talvez regresse com a ideia de utilizar mais e melhor determinadas plantas que, podem não fazer bem, mas  mal não fazem, de certeza.

Adeus Menã

Eugénio Monteverde
colaborador

 
Chuva, sol, brisa ou ásperos ventos
Podem ajudar a construir momentos
De dor, de amor, de paz e alegria.
Tudo o que na vida o poeta sente
Ficará bem assinalado para sempre
E a tudo isto chamamos poesia.

Adeus Menã, silencioso poeta,
Também para ti a porta esteve aberta
Para nela passar apenas o lado físico.
Porque a obra feita ao longo dos anos
Sempre combateu a realidade, os enganos,
Para que cá fique o melhor… o lírico.

Na morte de um poeta não há dor
Porque bem mais forte é o grande amor
Que dá à natureza. A nostalgia
Não serve para quem nasce diferente,
Nem podemos considerar, nunca, ausente
Aquele que viviu abraçado à poesia.

 
Quadras soltas

Maria Alice Martins
colaboradora


Se a mocidade passou
Já não sou o que antes era
Assim vou levando a vida
Enquanto a vida me leva.

Com meu vestido de folhos
Na romaria dancei
Com o som da concertina
Nos teus braços balancei.

Eu quero ficar contigo
Contigo eu quero viver
Fico acordada de noite
Com medo de te perder.

Mas são tão longas as noites
São grandes os meus cansaços
Adormeci e sonhei
Que te prendi nos meus braços.

Meu amor meu doce bem
Só de ti tenho queixumes
Levanta os olhos do chão
Das pedras tenho ciúmes.

Eu foi ver o meu amor
Que anda no mar embarcado
Mandou-me um beijo nas ondas
Mas que beijo tão salgado.

Se tens saudades de mim
Eu tenho de ti decerto
Ou eu vou viver contigo
Ou vens tu mais para perto.

Ouvi falar da alegria
Mas não sei onde ela mora
Se encontrar a alegria
Mando a tristeza embora.

 
Sonho de criança

Jaime Franco
Colaborador

Desse meu primeiro amor,
Sinto uma enorme saudade;
Sinto na face o rubor,
Sinto no peito o calor,
O calor da mocidade!

Essse amor de adolescente,
Que estou sempre a recordar;
Talvez por ser inocente,
Não conseguiu ir em frente,
Não teve asas para voar!

Mas se deixou saudade,
Não era palavra vã;
Se não era amor de verdade,
Era decerto amizade,
Amizade pura e sã!

Só sei que não foi paixão,
Porque essa é passageira;
Tal e qual como o vulcão,
Quando entra em erupção,
Nunca é para a vida inteira!

E essa amizade ou amor,
Não me sai do pensamento;
E apesar do seu calor,
Sinto cá dentro uma dor,
Que é para mim um tormento!

É bem maior a saudade,
Quando já não há esperança;
Quando é já muito tarde,
Para tornar realidade,
O nosso sonho de criança!…

 

CS4307

Refeição grátis nas escolas limianas

 
Franclim C. Sousa
vereador da educação do Município de Ponte de Lima

O PSD apresenta como medida, no seu programa eleitoral, conceder a todas as crianças e jovens que frequentam o ensino obrigatório, no concelho de Ponte de Lima, pelo menos, uma refeição grátis.
Esta proposta não tem em conta a legislação sobre Acção Social Escolar e extravasa a competência do Município.
Se considerarmos que a escolaridade obrigatória vai desde o 1º ao 9º de escolaridade, sendo o serviço de refeições do 5º ao 9º ano competência do Ministério da Educação, cumpre-nos equacionar:
Em que condições o Município assumiria esta competência?
Além disso devemos ter em consideração que em breve a escolaridade obrigatória passará para o 12º ano.
A educação pré-escolar, dos 3 aos 5 anos de idade, não é considerada ensino obrigatório. Será que as 1000 crianças deste ciclo de ensino tam­bém seriam abrangi­das pela medida?
Estas são algumas das questões que se devem colocar que precisavam ser esclarecidas no imediato do aparecimento da proposta. Tudo o resto não passa de mera propaganda.
Como sabemos a política de acção social implementada pelo Município de Ponte de Lima visa acima de tudo a redução das assimetrias sociais, o combate à pobreza e à exclusão social que no fundo se traduz por ajudar mais quem mais precisa.
Esta proposta do PSD, em nossa opinião promove a desigualdade social e ofende os princípios básicos da justiça social
A Acção Social Escolar do Município está bem estruturada e permite apoiar efectivamente as crianças das famílias mais carenciadas. Não há sistemas de acção social completos mas há bons sistemas de acção social que permitem melhor qualidade de vida.
Esta política alcando­rou Ponte de Lima ao 5º e 1º lugares, na Região Norte, na qualidade de vida e no desenvolvimento municipal, respectivamente. 
Por sua vez não des­cortinamos em que critérios de gestão se baseiam as propostas do PSD elevando os encargos ao máximo e a redução de taxas ao mínimo.Fica à consideração dos leitores esta reflexão.

Vicissitudes do poder local

 
Franklim Fernandes
Colaborador

Acontecem coisas neste mundo que não lembram ao diabo e deixam perplexo o mais insensível mortal.
Por razões que a razão não atinge e que não deveriam ocorrer numa sociedade civilizada como julgamos ser aquela em que nos inserimos, uma criança de cinco anos, alegadamente com problemas de saúde agravados pela violência psicológica sobre ela exercida pelo caso em apreço, está a ser usada como bola de bilhar numa guerra de adultos tendo como primeiro protagonista um autarca que usa o mandato como coisa sua, pessoal e intransmissível.
O caso passa-se numa freguesia rural do nordeste limiano e envolve uma família há muitos anos de candeias às avessas com o presidente da autarquia que, no passado, foi alvo de uma acção judicial perpetrada pelo director do grupo folclórico local, hoje avô da criança afectada pela singular decisão que é tema desta crónica, de que resultou a sua condenação em juízo.
Com a abertura do Centro Educativo, recentemente inaugurado, numa localidade vizinha, as crianças da terra em questão frequentam aquela nova infra-estrutura para o ensino pré-escolar. Competindo às juntas de freguesia assegurar o transporte, e assim tendo agido aquela autarquia, dele foi excluída a criança, situação única em toda a população pré-primária.
Confrontado com tão insólita atitude, o autarca ter-se-á limitado a argumentar, através de uma familiar, que ela resultou exclusivamente da ausência do pai da menor a uma reunião informalmente convocada com a finalidade de delinear o plano de viagem do transporte para o aludido centro educativo.
Ora, sendo obrigação da autarquia assegurar esse transporte pré-escolar, não se afigura razoável nem sequer legítima a disposição da autarquia em rever a sua posição desde que os pais da menor se disponham a custear o transporte a setenta e cinco cêntimos por quilómetro percorrido diariamente.
Então, e a regra da universalidade de direitos?
Fácil é perceber-se que a criança é vitima de danos colaterais e duma inacreditável descriminação terceiro-mundista levada a cabo por um responsável autárquico que se alheia do dever de servir servindo-se do poder para exercer represálias e saciar a sua sede de vingança pessoal descarregando sobre uma criança indefesa o seu visceral rancor. Tratou-se apenas de aguardar pela ocasião para dar uma traiçoeira estocada num alvo determinado para atingir um outro por via colateral.
Perante outras estórias de afrontamento de âmbito meramente particular e pessoal como a de ordenar a colocação de um bloco de granito de considerável volume e peso no terreno do pai dessa criança apenas para, segundo terá afirmado, “limitar o meu terreno e o dele”, apesar de não ser proprietário de qualquer imóvel nas imediações (o “meu” será a estrada municipal confinante com a propriedade do lesado cidadão), e a de pactuar com a descarga de lixo onde antes existiu um contentor entretanto, misteriosa e estrategicamente, desaparecido em combate, uma bem formada consciência é levada a questionar que motivações lógicas terá uma qualquer figura a servir-se do voto popular (e todos sabemos, oh! Se sabemos!) com que facilidade ele se garante, e do poder que assim se institui para remover barreiras éticas e servir mesquinhos interesses particulares ignorando o interesse colectivo ou os elementares direitos individuais de outrem, saciando ódios de estimação e concretizando desforras pessoais esgrimindo uma espada a que se dá o honroso nome de legitimidade democrática.
A violência assim exercida demonstra como é perigosa a conferência e concentração do poder local em mentalidades destituídas de valores éticos e de senso de bem comum cimentando a sua tirania no indevido uso da confiança de outros superiores poderes tutelares sobre cuja sombra vegetam.
Em democracia não pode valer tudo, sobretudo valer-se do poder para exercer pressão e vingança.
Poder assim não tem sentido, é abominável e criminoso.

 
Ainda há esperança

Paulo Geraldo
professor de Língua Portuguesa

Há flores que crescem no esterco. Ou entre duas telhas, com as raízes aconchegadas entre meia dúzia de grãos de terra que o vento arrastou. E talvez sejam mais verdadeiramente belas do que as outras, que alguém colocou num grande jardim e regou abundantemente durante o estio até que se cobrissem de cores e aromas.
Com os homens acontece algo de muito semelhante. Quando parecem existir todas as condições para que um homem se desenvolva harmoniosamente, cheio de virtudes e qualidades, sucede frequentemente que esse homem se torna mole e falso. E que a sua beleza – descobrimos isso mais cedo ou mais tarde – acaba por não passar de aparência.
Bela e forte é a flor que cresceu nos telhados.
O ouro é provado no fogo; o valor de um homem avalia-se nas contrariedades, nos obstáculos, nas dificuldades de todo o género.
Jamais se encontrará outra maneira de medir quanto vale um homem.
O fraco foge daquilo que é difícil e árduo; alimenta-se daquilo que recebe dos outros; ama o que é fácil e cómodo. O homem nobre vive do que dá; enfrenta as dificuldades; não tem receio de ir contra corrente.
Durante o terrível ataque terrorista nos Estados Unidos, num dia 11 de Setembro, aconteceu que alguns homens foram contra corrente. Os relatos dos sobreviventes referem o facto espantoso de que – enquanto a multidão descia, tão depressa quanto possível, as escadas que conduziam à salvação – os bombeiros subiam as mesmas escadas, procurando mais pessoas para salvar.
A corrente descia e eles subiam. Tinham a perfeita consciência de que o edifício podia ruir a qualquer momento, como de facto veio a acontecer. Mas subiam, subiam...
Os que iam a descer nunca mais poderão esquecer os rostos daqueles homens que iam a subir e nunca mais regressaram lá das alturas. Hão-de lembrá-los, talvez, como anjos salvadores; mas, sobretudo, como homens fortes, cheios de nobreza. «Não podemos ir embora – explicavam. – Este é o nosso dever».
O ataque às torres gémeas suscitou inúmeros actos de heroísmo, muitos dos quais ficarão escondidos para sempre. Porque esse ataque foi para os homens o mesmo que o fogo é para o ouro: fê-los mostrar o que valem.
Não gosto de tragédias, mas gosto de ver como o homem se ergue nas tragédias. Gosto de verificar que continuamos a ser capazes de heroísmo. E que – apesar de muitas vezes as nossas revistas e a nossa televisão prestarem culto à mediocridade – continuamos a ser capazes de apreciar o heroísmo.
Assim, ainda há esperança!

“Gostava dele na simplicidade dos seus versos”

Claúdio Lima
Colaborador

Fico surpreendido e consternado com a morte do “nosso” Me­nã, tanto mais quanto a sua produção literária vinha evidenciando a pu­jan­ça e a regularidade de sempre, no “Cardeal Saraiva”, no “Anunciador das Feiras Novas” etc.
O Menã, para ser um grande poeta, faltava-lhe escolaridade; mas, para ser um grande amante da poesia, sobrava-lhe paixão. A mesma paixão desmedida que devotava à sua e nossa terra, a quem dedicava as melhores das suas rimas.
Eu gostava dele na simplicidade dos seus versos e da sua forma de viver. Por isso, aqui expresso a minha grande tristeza.

 

O tesouro da nossa vila

Lima Barreto
Colaborador

Manancial de património material e de património imaterial, onde está o tesouro de Ponte de Lima? No património ou na sua valorização? Claro que está em ambos.
É uma coisa que se transmite de geração em geração, mas que também faz parte de idiossincracia sociológica e cultural desta vila. A vila é uma enciclopédia; também é uma biblioteca e um museu. Tem a sua biologia como qual ser vivo, porque cresce, transforma-se e sofre metamorfoses várias. Não é só uma biblioteca de livros ou de documentação histórica, é também a biblioteca da vida limiana, da partilha, da opção, do conformismo e também do seu dinamismo. Uma vila autêntica, com identidade própria e original, também histórica, mas sobretudo tem a pertença do seu passado como jóia preferida e não faz do futuro, mas astrologia nem “científica”, nem popular. Não é uma terra de presunção, mas somente de valoração.
A vila cresceu sempre como uma comunidade , talvez como uma família parental, como soi dizer-se hoje; não tem limites temporais e essa intem­poralidade manifesta-se na sua cultura, no seu linguajar castiço, na capacidade de se reproduzir nos outros sem interferir nos espaços alheios: é uma vila ligada muito ao seu historicis­mo, mas também à sua religiosidade secular.
A capacidade de se estruturar sem perder a sua verdadeira simbolo­gia, o destituir o conceito redutor de uma vaidade com base na sua cultura popular, a capacidade de criação e valorização de todos o seu “histórico”, a crítica velada mas dinâmica, tanto do jeito e do gosto de qualquer limiano, a dinâmica transformadora verificada na sociedade com o crescimento sobretudo de jovens promissores, estudantes, atletas e até cientistas; com uma alma que pretende a todos, que se herdou, mas que também se renova; uma emoção muito eclética porque ela é empresarial, mercantil, muito melhor, mas sobretudo uma emoção muito ritual, com o exemplo mor da tradicional “Vaca das Cordas” onde ferve a histeria, a raiva ou mesmo a paciência, do confronto com o imprevisto, de uma forma ousada, mas sem bases patológicas, porque esse povo vive a “Vaca das Cordas” e as suas “Feiras Novas” como ninguém: há um caldeamento de culturas, de costumes, de tradições, de rituais, de vivências, fruto de um processo social que se consubstância no respeito pela cultura do seu povo.
Já dissemos muitas vezes que as Feiras Novas não são sequer uma romaria, mas antes uma festa pagã à natureza bucólica que rodeia esse concelho. Os espaços limianos não são estanques, mas antes partilhados com uma humanidade que bem poderia chamar-se o acervo de uma território que cheira a rio, mas também cheira a monte ou a serra, e que criou um perfume especial não só para a vila como para todos os forasteiros.
Hoje, Ponte de Lima é a rota turística mais frequentada e apetecida de quem viaja pelo nosso Minho. A sua proximidade da Peneda e do Lindoso, o seu leque variado de literatura oral, música, dança, folclores, trajes, cantares, tudo isso junto faz um universo festivo com ritmos que se compuseram não só com música ou dança, mas também e sobretudo com uma cultura agrária, sobretudo do milho e do vinho e outra cultura de gado específicos, como a do garrano, do cabrito e do cavalo do monte (montês).
Não houve necessidade de invenções de tradições e costumes, porque estão lá como bens actuais dum passado e de um presente à altura deste nosso povo limiano.
Hoje fala-se mais em Portugal de Ponte de Lima do que, por exemplo, de Braga ou de Viana, porque esta vila tem saberes e sabores autóctones, que são atractivos para qualquer ser humano. É uma vila com cheiro a Minho e com um perfume lusitano, sóbrio, mas consistente, para não tirar loas ao nosso Viriato de viseu.
Os nobres, a burguesia, o povo simples, apesar dos seus próprios estatutos específicos, estão todos marcados por uma ruralidade que tanto é brasonada como cheira a “postas de cavalos do monte”. É esta energia intemporal que dá aos próprios telhados da vila a sua verdadeira idade, coisa que nem sempre é fácil. Escritores, eruditos e populares fazem uma simbiose perfeita da vila que temos: lendária, histórica e actual.

 

Presa ao meu olhar

 

Jaime Franco
colaborador

 

Naquele altinho onde eu moro

Há tanta coisa para ver,

Mas tudo o que eu mais adoro,

É quando a vejo aparecer…

 

Fica presa ao meu olhar,

Sempre que está ao alance,

Logo que a vejo chegar,

Não a perco um só instante…

 

Vejo sempre onde ela vai,

Vejo tudo o que ela faz,

Quando entra e quando sai,

Se fala para algum rapaz…

 

Vejo a rua onde ela passa,

Espalhando o seu perfume,

Sorrindo a todos com graça,

Despertando o meu ciúme…

 

Vejo a casa onde ela mora, / Lá na herdade…

A janela do seu quarto, / Para o meu lado…

Vejo até o quanto chora, / Com saudade…

Ao olhar aquele quadro!…

 

Será do pai, ou da mãe,

Quem sabe, do namorado,

Mas só pode ser de alguém,

Por ela muito amado…

 

Por o jeito com que adora,

E porque ajoelha e reza,

É talvez nossa Senhora,

Ou é Jesus com certeza…

 

Vejo o seu rosto dorido,

Sempre que vai para a cama,

Vejo-a despir o vestido,

Vejo-a vestir o pijama…

 

Só depois vem à janela,

Para fechar a persiana,

Por isso não vejo ela,

Deitada na sua cama…

 

Daquele altinho onde eu moro, / Vejo o céu…

Tenho tantas coisas lindas, / Para ver…

Mas tudo o que eu mais adoro, / Ó deus meu…

É quando a vejo aparecer…

 
Dados lançados…votos à urna!

Manuel Pires Trigo
Colaborador

Depois das legislativas as eleições autárquicas serão subestimadas, dirão pouco a muitos, só alguns as relevarão, a esses dirão muito mais. O apelo interior ao voto, que cada um de nós sente nestes momentos, será nas autárquicas menor, sem dúvida, o apelo exterior com que a toda a hora nos acometem será nas autárquicas quase sempre maior, a proximidade produz os seus efeitos. O mais relevante do que se espera será que em muitos sítios as opções sejam outras.
São outras as funções a cumprir pelos eleitos autárquicos, outras são as qualidades exigidas, as expectativas criadas são doutra natureza e são estes factores que teremos que analisar e avaliar de modo a tomarmos uma decisão, porque ela nos é imposta. Mas levantar-se-á sempre o problema de como é possível que uns partidos não consigam pessoas de qualidade, disponíveis e empenhadas em exercer funções autárquicas “a tempo inteiro” e para outros parece sobrarem as pessoas e o seu problema é a escolha.

Como é possível que uns que até têm bastantes votos nas legislativas se desunhem para arranjar candidatos que concorram sob a sua bandeira e não os conseguem, senão à última hora, e outros agreguem a si com tanta facilidade pessoas de diferentes origens, prontas a desfilar sob bandeira alheia? Como é possível que uns nem com a preocupação de qualidade consigam as boas graças do eleitorado e outros nem precisem de preocupar com ela porque alberguem sob o seu manto gente de qualidade muito díspar e conseguem o apoio popular?

Essencialmente porque uns aparecem esporadicamente nas campanhas eleitorais, antes delas votam os eleitores ao desdém, depois do desastre enterram a cabeça na areia à espera que o flagelo passe. Para que é que eu me meti nisto, dizem os mais desiludidos pela sua fraca prestação. Má hora a que não resisti à vaidade de aparecer numa lista, dizem aqueles que nunca se deveriam ter metido, por não terem a humildade bastante.

E porque há outros que já ocuparam quase todo o espaço, que conseguem dar a ideia de que há falta de necessidade de haver no terreno outras organizações além das que os próprios controlam, que procuram convencer os outros de que são capazes de conciliar o interesse de todos. Para esses quem surge de forma meteórica não está interessado em defender os interesses de ninguém a não ser de si próprio. Quem procede desta maneira e é portador de tal estado de espírito não vai a lado algum. Vai passar o resto do tempo a olhar para si.

Então será que “ Os dados já estão lançados”? No geral nas autarquias os dados são mais antigos e os votos mais previsíveis. Quase tudo se passa como se o processo de decisão já esteja concluído há muito e como se tudo o que ocorreu depois não seja suficiente para abalar a decisão já tomada. As eleições são periódicas e, sejam quais forem os resultados esperados, deveriam obrigar-nos a uma reflexão mais ou menos longa. Porém a nossa preguiça mental não nos leva a tal, muito menos a reconsiderar votos feitos.

Se formos benevolentes é sempre tempo de dizermos que podemos fazer escolhas, que nem tudo está previamente decidido, que se não nos deixamos condicionar pelos outros também não nos devemos deixar condicionar por nós mesmos, que escolhas antes feitas nos não devem condicionar agora, que tanto nos podemos ter enganado então, como podemos estar enganados hoje. Sermos capazes de recolocar a indecisão e avançar a partir dai para as decisões é uma qualidade e não falta de coerência, como por vezes se diz.

Quer dizer que o importante é sabermos como tomar as decisões. E neste aspecto o mais importante ainda é o sabermos que o que foi importante, o que pesou há anos pode-se revelar hoje perfeitamente irrisório, assim como podemos estar seguros de que o que nos parece importante hoje se pode revelar amanhã como um conjunto de pormenores ridículos que só foram levados em conta devido ao nosso “agrado” de momento.

Se nós adoptarmos um bom método de tomada de decisões podemos enganar-nos mas não temos razões para nos sentirmos diminuídos. Mas será que nos podemos decidir correctamente se a toda a hora nos surgem novos candidatos, novas caras ou então pessoas que nós conhecemos com outra roupagem? Será legitimo que nós nos deixemos levar por aqueles que já conhecemos há muito, que de algum modo nos acompanham, que de alguma maneira nos ajudam a superar este sentimento ambíguo de orfandade? Ou será melhor entregarmo-nos a um desconhecido, por mais méritos com que o cubram, e por mais convencido que ele esteja que nós o conhecemos?

Ninguém toma decisões sem “pensar”. Se muitas vezes não usamos todo o capital intelectual e tomamos reacções rápidas é porque o ritmo de vida adoptado nos convida a não gastarmos muito tempo a pensar e às tantas convencemo-nos mesmo que já sabemos tudo e decidimos pelo gosto de momento, pelo agrado, pelo mimo que nos é feito. Para os intelectuais o valor das nossas decisões depende da leviandade com que as tomamos, isto é, da maneira como nos deixamos impressionar por leves sentimentos ou por simples emoções de agrado.
Qualquer acusação de manipulação social não tem fundamento. É tão legítimo lutar pela manutenção de um ascendente já conseguido pelo apelo constante àquelas impressões leves, como o é o apelo a sentimentos fortes e cujo deslocamento até é muitas vezes mais do que evidente. Assim as nossas decisões não devem ser contestadas pelo seu valor, mas são os políticos que devem ser realistas e criar os laços que possam ser mais fortes do que os do adversário.
Se nas autarquias um partido tem uma votação interior à votação nas legislativas é porque os seus candidatos locais não têm o valor correspondente ao dos nacionais. Ou tão só não têm a persistência, não se querem submeter à exposição a que todos os políticos estão obrigados. Não se queira que a população veja da mesma forma um meteoro e um satélite geostacionário. Alguns laços ou pelo menos a disponibilidade para os estabelecer são elementos essenciais nas eleições locais. Não chega passar, olhar, andar por aí, nem chega sequer ter boas ideias, é preciso estar de alma e coração cá, com a gente de cá.

 
Eternos amores

 
Eugénio Monteverde
colaborador

 

Cheguei a Ponte de Lima…

No Caminho dos Recados

Revi os belos momentos passados,

O arfar de antigamente,

Os abraços sentidamente apertados

E o saudosismo que nunca mente.

 

Continuei a caminhada

Até ao lindo largo de Camões

E logo antigas recordações

Me deram a pertinente bofetada;

Lembraram-me as horas que eu a esperava

E que, impacientemente rimava

Namoro e o Lima das ilusões.

 

O tempo insensível passa

E a idade imperturbável

Avança sobre os momentos mais felizes.

As amorosas raízes

Que guardam o perfume e a graça

Deste forte queres é incontornável.

Cada vez que chego a Ponte o coração
Entra em alvoroço no meu peito
Melancólico mas feliz, em jeito
Do submisso eterno enamorado.
Porém, lembra-me que o meu maior pecado
Foi ter ficado apaixonado
Por uma mulher de Ponte de Lima!

Um presidente inteligente

Antero Sampaio
Colaborador

Depois desta onda de comunicados jorna­lísticos e televisi­vos sobre a veracidade ou não de certas notícias, sobre escutas ou emails, vindos de S. Bento ou do Palácio de Belém, depois de já serem conhecidos os resultados das Eleições Legislativas, o Presidente da República chamou o Belém o Engº. José Sócrates, conversa que o ainda Primeiro Ministro apelidou de “uma boa conversa”.
Creio não estar  errado, se afirmar que o Dr. Cavaco Silva disse a José Sócrates que, a partir de agora, não se fala mais de escutas, de emails ou de inventonas  e o que é preciso é nomear um novo primeiro ministro que formará o novo governo. O P. da R. recebeu Sócrates, para ambos “fumarem o cachimbo da paz” e “enterrarem o machado de guerra”, duma guerra de “alecrim e mangerona”, na minha modesta opinião, que, a continuar, não iria beneficiar o País nem os Portugueses. Ao mesmo tempo “inaugurou”, um novo tempo de coexistência pacífica e de cooperação institucional entre os dois órgãos de soberania.
Depois da tempestade, duma tempestade “em copo de água”, creio eu, veio a bonança.
O casamento, que dura há cerca de quatro anos e meio, com avanços e recuos, superou, mais uma vez uma crise e tudo leva a crer que, voltou ao seu estado inicial, onde tudo eram  rosas, isto é, que José Sócrates e Cavaco Silva voltam a ser como Deus com os Anjos. Posso estar enganado, mas o P.da R. quer recuperar o tempo perdido, colocar-se no topo do reconhecimento positivo dos portugueses. Não nos esqueçamos que, no próximo ano, haverá eleições presidenciais e o Dr. Cavaco Silva, está interessado num novo mandato.
Esta pequenina “guerra”, entre S. Bento e Belém, incomodou as elites portuguesas, os empresários, as grandes instituições com peso na sociedade portuguesa. E têm razão. Todo o ambiente de crispação política entre aqueles dois órgãos de soberania, reflecte-se, pela negativa,  no mundo empresarial português, a braços com uma crise que parece nunca mais acabar. Portugal precisa de ultrapassar definitivamente esta crise  para se colocar no rumo do progresso e da modernidade , na Europa e no Mundo.
O País, infelizmente, não pode contar com determinadas forças políticas, com legitimidade política é certo, mas que parecem apostadas, no meu entender, numa política de “bota abaixo”, nada condizente  com o interesse dos portugueses. Por isso, Portugal, tem de contar com o Presidente da República e com o Primeiro Ministro para, em total sintonia, garantirem uma acção governativa eficaz e sensata.
Quando for indigitado o novo Primeiro Ministro que, tudo indica, será José Sócrates, o PS precisa de, sobretudo de asssegurar na Assembleia da República, a passagem do Programa do Governo e dos orçamentos anuais. E, o Partido Social Democrata, embora com certa reserva, poderá vir a desempenhar um papel importante neste contexto.
É deveras curioso que, neste pretenso mal-estar entre o P. da R. e o P. M., surgissem vozes de alguns “sampaístas” a ensaiarem uma nova candidatura a Belém. Acho que não vão ter sorte nenhuma. Existem, no PS, duas personalidades , de reconhecido valor, com mais competência que o Dr. Jorge Sampaio. São eles, o Dr. Manuel Alegre e o Dr. António Guterres. No entanto, entre estes dois “animais políticos”, embora reconheça que Manuel Alegre, pela sua cultura e pelo seu passado antifascista, tenha o seu valor,  António Guterres parece-me -ser o candidato que o P.S. vai escolher para disputar as eleições com Cavaco Silva. António Guterres, é de facto uma personalidade incontornável, pela sua cultura, pela sua inteligência e pelo seu papel que hoje desempenha ao serviço da ONU.
Cavaco Silva e António Guterres, representando correntes de pensamento distintas, poderão protagonizar umas eleições presidenciais de grande importância para o País. Até lá, Portugal precisa dum governo estável, que dê aos portugueses melhores condições de vida, mais emprego, melhores  cuidados de saúde, melhor ensino, melhores vias de comunicação, melhor justiça, etc. etc. Vamos ver se o Partido Socialista, consegue governar, sem maioria absoluta. Tenho a impressão que o papel do Presidente da República, nesta legislatura, vai ser crucial na angariação de consensos, entre as várias forças políticas. Embora não seja determinante, poderá  aconselhar. Ele é um Presidente inteligente!

 
Como um baralho de cartas

Hélio Bernardo Lopes
Colaborador

De um modo que ao espírito nos traz a derrocada de um baralho de cartas, assim foi no que se tornou a fantástica historieta das supostas escutas sobre gente do Palácio de Belém.
Claro está que só um idiota poderia acreditar nessa tal historieta, até porque, nos termos constitucionais, de Belém nunca nada pode apresentar especial relevância para a acção do Governo. Escutar em Belém o quê?!
E porque esta é, de um modo indubitável, a realidade do funcionamento dos nossos órgãos de soberania, a tal historieta, se não se tivesse transformado num isomorfismo do tal baralho de cartas, só poderia servir para atingir, mais uma vez, o Primeiro-Ministro, José Sócrates.
Esta historieta, contudo, levanta aspetos deveras melindrosos, e que, como é natural entre nós, nunca serão explicados. Resta, pois, a perspicácia dos portugueses, que não requer, neste caso, grande esforço na sua aplicação, tal é já o estrondo da queda do tal baralho de cartas em que tudo se transformou.
Depois deste estrondo, é hoje legítimo e natural, até pelas calúnias e mentiras que se viram ao tempo da primeira candidatura vencedora de José Sócrates, que nos questionemos sobre a veracidade de quanto de si se tem dito em torno do caso Freeport. De resto, lá diz o sábio ditado, quem mente uma vez, mente sempre. E quem faz um cesto, faz cem...
Com um pouco de atenção, o leitor constatará facilmente que o Primeiro-Ministro, José Sócrates, de há muito vem sendo alvo de mil e uma tentativas de desacreditação, e logo desde a campanha eleitoral de que saiu vencedor.
É verdade que teve a possibilidade de fazer mais e melhor em muitos domínios, mas também o é que lhe surgiram ao caminho da governação escolhos simplesmente singulares. Verdadeiros outliers da História Económica dos últimos cem anos. Indubitavelmente, a podre e interesseira direita dos nossos dias não teria feito melhor, muito pelo contrário.
Esta realidade foi-se manifestando nas mil e uma sucessivas sondagens, sempre com o partido hoje no Governo muito à frente dos restantes opositores. Uma verdadeira dor de cabeça para os seus oposicionistas, mormente para o PSD.
Pois aqui está como uma orquestra sem maestro assumido acabou por sossobrar em pleno espectáculo, mau grado a grande parte dos espectadores de há muito perceberem o que estava a passar-se... A teimosia das sondagens lá mostrava esta mesma e omnipresente realidade.
Terminou, pois, e da pior maneira, a tristemente célebre cooperação estratégica. Uma invenção sem lógica, que chegou aonde os mais lúcidos sempre pressentiram. Mas será que a esquerda portuguesa, e também os eleitores, terão já percebido que uma tal situação não deve continuar? 
Portanto, se for maioritária essa esquerda no Parlamento, haverá a coragem para decidir como se impõe em favor do País e dos portugueses? 
Estaremos cá para ver.

 

Quem educa uma criança educa um povo

 

Maria Alice Martins
colaboradora

 

A menina está dormindo

Nos braços da sua ama

Está a dormir no colinho

Que não quer dormir na cama.

 

Venham amas p’ra vestir

Venham amas p’ra calçar

Venha o avô e a avó

Venha a tia p’ra embalar.

 

Traz a gata da vizinha

Porque a menina a quer ver

Venha o coro do Alentejo

P’ra menina adormecer.

 

Mas se não quiser dormir

E se lembrar de chorar

Tragam palhaços e bobos

P’ra menina se calar.

 

Se acordar de madrugada

A chorar e a embirrentar

Mandem chamar o abade

P’ra benzer com água benta.

 
CS4307

Pedir fiado é ficar de lado

 Lima Barreto
Colaborador

O “pedir fiado” foi outrora na prática muito comum, sobretudo nas mercearias; o tempo melhorou a nossa situação durante a gover­nação Cavaco Silva, como primeiro-ministro, mas agora voltou em maior escala. O desemprego e a crise levam as pessoas de novo à prática do “fiado”, ou seja leve agora e pague depois (…) como a vida está dificílima, hoje já não se pagam as dívidas como antigamente, sobretudo observando o crescer do “crédito mal parado” na banca, que atinge já limites impen­sáveis.
Há dívidas de dinheiro mas há também outros que são o sinónimo ou de ingratidão ou mesmo de vigarice. Diz o ditado popular que aquele que more paga todas as suas dividas. Claro que, hipoteticamente as irão pagar serão os eventuais herdeiros. O “fiado” é um crédito de boa vontade, e mesmo com a existência da figura do fiador que é o que se responsabiliza pelo cumprimento desse crédito nem sempre as coisas, hoje, chegam a bom termo.
O sentido da poupança muito endógeno na nossa mentalidade popular, é hoje na sombra já foi entre nós.
Nas aldeias sobretudo, qualquer agricultor ou reformado (remediado) ao fim do mês pegava os trocos que sobravam e esses iam direitinhos para a “caixa” que era a instituição mais credível para as populações. Actualmente as populações tiveram um decréscimo drástico nas economias, porque os salários ou estagnaram temporariamente, ou simplesmente foram suprimidas pelo fecho de centenas de empresas que lançaram no desemprego mais de meio milhão de portugueses. Não fora a criação dos bancos alimentares, quer pela própria igreja, ca­ritas, conferências vi­centinas e sobremaneira pelo movimento extraordinário de cidadãos voluntários que têm prestado um serviço relevante a esta nossa endémica do social, e não como caridade, tem hoje um lugar muito maior do que aquele que o próprio estado deveria ou podia ter. E sempre houve, antigamente, mais ajuda nos meios rústicos do que os urbanos, mas actualmente ela atinge-nos a todos por igual, cada qual na medida das suas posses. A solidariedade hoje identifica-se com subsistência na sobrevivência de muitas famílias.
Primitivamente era um termo jurídico. Há solidariedade da parte dos devedores quando são “obrigados” a uma mesma coisa, de maneira que cada um possa ser constrangido pela totalidade de todas nós. No código civil, etimologicamente, a palavra solidariedade é uma deformação da palavra latina “solium” que, entre os juristas romanos, servia para designar a obrigação que pesava sobre os devedores quando cada um deles era tomado pelo todo (insulidum), por inteiro, em massa, solidariamente. Quase se pode dizer que actualmente a solidariedade é uma de dependência recíproca e espontânea. Pegou, como se diz no latim “in pectore” isto é no peito a sério e com toda a seriedade, sem malabarismos ou palavras fala­ciosas, que essas sim são um embuste contra quem deseja ser solidário.
Num sentido unilateral: sobre o mostrador dum relógio a agulha dos minutos leva consigo ou conduz a agulha das horas sem que esta conduza a agulha dos minutos. Por outras palavras, o movimento da agulha das horas é solidário com o da agulha dos minutos, etc. O verdadeiro sentimento social, contém em primeiro lugar o conceito de solidariedade, e depois, sobretudo, o da continuidade, uma continuidade sucessiva, gratuita, para uma solidariedade actual.
O país está a reagir bem à crise, sobretudo a nossa sociedade. Estado e algumas empresas ainda deixam muito pelo caminho, por causa, diz o estado, por falta de fundos, e os empresários, por medo de ficarem pobres e perderem o seu estatuto terrível de “ricos”.
Riqueza pode ser ofemilidade, isto é, “valor de uso” e “valor de abuso” sobre pessoas e empregos que por deixarem de serem um bem de utilidade socioeconómico, passaram a ser um egoísmo feroz, quase patológico, uns sentidos nor­mativos, absolutos ou relativos, contraries ao que seria desejável, com comportamento com o que eticamente é totalmente reprovável, que é seguir o caminho mais fácil “ fechar empresas ou deslocalizá-los, o que nunca é desejável numa economia de Mercado, onde a justiça não seja palavra vá, e condene esses prevaricadores,
Diz-se entre nós que a justiça estrita, é frequentemente injusta. Nesta oferta perigosa de linguagem, quem fica a perder são sempre os mais fracos.
A justiça não é só a procura da verdade, mas sobretudo, na lógica racional, a distribuição justa dos rendimentos; porque na lógica dos sentimentos, os empresários, os empresários, quase, todas, no lugar do coração têm uma pedra que classificam paradoxalmente de gestão. Gerir a riqueza pertence aos ricos, mas gerir a pobreza deve ser um hábito ético e activo de ricos, de remediadas e até de alguns pobres, que não são de todo miseráveis. Gerir bem é repartir com equidade, lucros e prejuízos. Quando dissemos que “ pedir fiado é ficar de lado” quisemos dizer que muitos não fiam e muitos não pagam o fiado… Leva consigo a suspeita e outras vezes a especulação.

 
“É tempo de dizer…basta!…”

Jaime Franco
colaborador



Com a revolução dos cravos,
Sonhamos ter chegado o dia,
De não ser mais amordaçados,
De viver em democracia.

Criamos a ilusão,
Que tudo seria melhor,
Só que essa revolução,
Para muitos foi pior!…

Prometeram mundos e fundos,
Mas pouco ou nada se vê.
Vê-se sim, mais bagabundos!
E todos sabem porquê.

Os que foram bufos da Pide,
têm hoje boas pensões,
Quem trabalhou sobrevive,
Com uns míseros tostões.

Fizeram leis a granel,
Para pôr o povo na linha,
Leis que ficam no papel,
Se esse povo é gente fina.

Há por aí uns candongueiros,
A fazer grande fortuna,
Mas para alguns cavalheiros,
Não há justiça nenhuma.

Alguns deles já passaram,
Por governos anteriores,
E a todos já mostraram,
Que não são nada melhores!

Convém que os falsos profetas,
Percam a sua arrogância
Os que não  cumprem promessas,
Há que pô-los á distância.

O aviso fica feito,
O meu recado está dado,
E só peca por defeito,
Por vir um pouco atrasado.

Vê-se o caso Casa Pia,
Com tantos jovens abusados!
E como já se previa,
Afinal não há culpados!…

Protesta o povo e com razão,
Dizendo que isto está mal,
E até protesta a oposição,
Mas no fundo é tal e qual!

Mas vem aí as eleições,
Uma boa ocasião,
Para tomarmos desisões,
Para dizer sim … ou não …

São todos bem conhecidos,
Não há margem para errar,
Só mesmo os desprevenidos,
Se deixarão enganar …

Mas já não há mais confiança,
Nesta classe política,
O povo perdeu a esperança,
É o que diz toda a crítica!…

 
Porque são diferentes as eleições autárquicas?

 Manuel Pires Trigo
Colaborador

A maioria de nós não está vinculado a qualquer partido político mas poucos lhes serão manifestamente indiferentes. Haverá também alguns equidis­tantes em relação a dois dos partidos mais significativos, mas não em relação a todos. Quase todos nós temos a tendência para em cada momento “cairmos” mais para o lado de um do que para o lado de outro ou dos outros. No fundo para estarmos mais à esquerda ou mais à direita.
Mesmo aqueles que estão vinculados ou têm uma ligação forte a um partido político o terão atraiçoado seja em eleição presidencial, legis­lativa, autárquica e desde há uns anos nas eleições europeias. Mas é nas autárquicas que se encontra o terreno de eleição para essas democráticas traições. As autárquicas contribuem muito para isso porque aqui o histórico pesa muito mais e até quem está no poder a nível nacional tem muitas vezes dificuldade em conseguir candidatos autár­quicos a condizer. A qualidade deixa muito a desejar e convida à traição.
É uma verdade comummente aceite que as eleições autárquicas se perdem, não se ganham. Quer dizer que as eleições se resolvem por arras­tamento, quem ganhou uma vez dificilmente não repete a proeza. Quando alguém sai dum partido e muda para outro para concorrer ao mesmo cargo arrasta atrás de si uma legião de seguidores e quase sempre consegue ser eleito. Quem se mantém não precisa de revelar grandes dotes. O que está vale sempre mais do que se propõe vir.
A procura de razão para estes factos leva a pensar que há ocasiões em que os eleitores não gostam de apostar no desconhecido que é sempre quem não tem experiência autárquica do mesmo tipo. O eleitor odeia a desconti­nuidade salvo se se sentir directamente atingido ou ofendido. Por isso a traição do nosso eleito é tolerada mesmo que nos obrigue a votar num partido diferente e é bem vista se nos permite votar ao mesmo tempo na mesma pessoa e no partido do nosso agrado. Já hoje ninguém se sente constrangido a não fazer trair.
Afinal os partidos não são parte credível nesta questão, as suas indicações são sempre colocadas sob suspeição. Embora todas estas razões possam estar na mente do eleitor, no momento de votar parece haver uma ou mais razões mais profundas para que isto aconteça desta maneira. Uma razão imediata é a cobertura mediática que é dada e o facto de que o ela ser positiva ou negativa é indiferente, ela acaba por proporcionar um saldo positivo a quem dela beneficia.
Outra razão mais longínqua será a manutenção de uma maneira própria de ver o poder local., já não de proximidade ou de afastamento mas de indiferença próxima. Por mais cor­data que seja a população sempre houve ocasiões em que enfrentamos e afrontamos o poder. Mas para nos levantarmos contra o poder local é preciso um motivo muito forte. Mesmo quando o poder local era exercido sob mandato do poder central não era aquele que sofria os efeitos da nossa oposição.
Quando o poder local passou a ser eleito houve de tudo um pouco nas escolhas que os partidos fizeram e que o eleitorado sufragou. Fora alguns equívocos resolvidos nas eleições seguintes, as mudanças verificaram-se depois disso mais por desistência do que por derrota. E esta só ocorreu por evidente falta de jeito demonstrado num mandato infeliz. O crivo para ver a competência autárquica é mais grosso, não é comparável ao usado para a escolha do governo. Há mesmo muita leviandade no eleitorado autárquico.
A entrada em cena de algumas figuras mediáticas viria alterar um pouco a forma de eleição nos grandes centros urbanos onde também o voto político mais se faz sentir. Nos outros locais é o mediatismo que tem reforçado o poder dos que já estão no terreno. Entre pequenas realizações e grandes obras tudo é aproveitado para ter algum tempo de exposição pública que extravase o território. A fama sentida pelos de fora vale mais do que a sentida pelos da casa. Um autarca “querido” do País nunca é traído pela sua população.
Se o eleitorado vê com alguma leviandade a escolha dos autarcas já os interessados não brincam. A luta mais eficaz é subterrânea. Interessa obter apoio seja qual for o método, aliciamento, coacção, sedução. O cerco vai-se apertando sobre Juntas, associações e particulares. Qualquer pretexto é utilizado, agravando-se o método à medida da relutância, com coação moral e económica, com discriminações positivas e negativas, usando os poderes autárquicos de modo arbitrário e pessoal.
Aqueles que se deixam coagir a qualquer título porque disso tiram benefício pessoal ou relacional, económico ou outro, arrastam atrás de si muitos que apostam em manter a mesma cobertura e não vêm razão para mudar. Oferece-se protecção utilizando hierarquias sociais já estabelecidas, lideranças formais e informais e aceita-se protecção que não altere substancialmente o relacionamento normal com o meio social. Os eleitores não se querem chatear muito.
As hierarquias esta­be­lecidas não aceitam com naturalidade lideranças informais. No entanto não tardam a tentar integrá-las sob o seu abrigo protector. A rejeição absoluta quase não existe, existe sim uma tentativa permanente de corrosão e corrupção moral que desvaloriza a ideologia e arrebanha os incautos. No poder local a ideologia funciona pouco e à medida que os mandatos se prolongam cada vez menos influência têm. Porque temos uma relação diferente com ele não vemos no autarca o político nacional do mesmo partido que odiamos, mas no geral ele é mesmo igual, às vezes pior, depende da sua heterodo­xia.
Nas escolhas autárquicas os sentimentos ditos pessoais, sem serem provenientes de qualquer aprofunda­mento de relações realmente pessoais, contam imenso. Quem está no poder, desde que aberto a esse tipo de relações de falsa proximidade, tem uma evidente vantagem. A maioria das pessoas, se diz preferir uma pessoa dura, não dialogante, daquelas de pôr tudo na “ordem”, só aceita essa dureza para os outros, de resto vota preferencialmente em quem for mais permissivo, quem prometa defendê-lo directamente ou por entreposta pessoa.

 Ai quem me dera

Menã
Colaborador

Ai quem me dera
Novamente encontrar-te
Deixava passar a noite
Para de dia ir falar-te.

Ai quem me dera
Seguir teus passos querida
Ver os teus olhos alegres
Voltados sempre para a vida.

Ai quem me dera
Ver as flores a nascer
Ver as rosas floridas
E eu a vê-las crescer.

Ai quem me dera
Ser um pouco diferente
Amar e tambem ser amado
Por ti e por toda a gente.

Ai quem me dera
Ter o amor que perdi
Deixar para sempre o passado
Viver o que não vivi.

 
Proteger a natureza

Promover o desenvolvimento

 Jorge Fão
deputado do Partido Socialista

A Mata Nacional do Camarido, cuja origem remonta ao século XV, é uma área florestal com cerca de 144 ha, dividida em vinte e dois talhões, dos quais dezasseis estão classificados como espaço de protecção e os restantes com funções de abrigo que fixam o cordão dunar e formam uma barreira natural à protecção dos ventos marítimos.
O enquadramento paisagístico e as condições ambientais do local, conjugados com a crescente sensibilização dos cidadãos para a preservação dos ecossistemas e para a fruição da natureza, fazem com que esta mata, que é património nacional, para além das referidas funções de protecção, seja cada vez mais um local de recreio e lazer de grande valor ambiental.
Nos últimos anos, tem sido comum e recorrente ler e ouvir justos comentários críticos de ambientalistas, jornalistas e cidadãos anónimos sobre o estado de evidente degradação e abandono em que se encontrava o pinhal do camarido.
Na realidade o cenário com que nos deparávamos ao percorrer o interior do pinhal provocava grande preocupação pelo elevado número de árvores mortas ou em avançado estado de caducidade que se viam um pouco por todo o lado e ainda pelo facto de não serem perceptíveis sinais de intervenção técnica dos Serviços responsáveis para atacarem o problema e inverterem o desleixo que se verificava.
O conhecimento desta situação e a noção que temos da importância ambiental, social e económica que este espaço tem para o concelho de Caminha em particular, mas também para toda a região do Alto Minho, levaram-nos a usar vários instrumentos de intervenção parlamentar para fazer sentir à Secretaria de Estado das Florestas a dimensão deste problema e à Autoridade Florestal Nacional – AFN- a urgência de uma intervenção no camarido.
“Quem persegue, sempre alcança” diz o ditado e é verdade, porque durante os meses de Junho e Julho tivemos a satisfação de ver evoluir e até acompanhar no terreno com os técnicos da AFN o desenvolvimento do trabalho de abate e remoção de mais de dois milhares de árvores mortas, limpeza de caminhos e corte de espécies infestantes em áreas com significativa extensão.
Felizmente a mata está hoje mais cuidada e apetecível de fruir, pelo que me parece oportuno recomendar a todos os apreciadores deste local, mas particularmente aos que criticavam e bem o seu abandono, que a visitem agora e comentem o seu actual estado, mas também e porque entendo de justiça, que se sublinhe a importância desta nova atitude da Autoridade Florestal Nacional para com a manutenção do camarido, o que nos faz criar animadoras expectativas sobre o futuro desta mata.
A recente aprovação de um Plano de Gestão Florestal especificamente desenvolvido para aquele espaço constitui outro sinal de empenhamento da administração florestal para definir e hierarquizar as prioridades de intervenção técnica para o início de um processo de urgente repovoamento arbóreo, sem o qual será inevitavelmente posto em causa, a curto prazo, a sustentabilidade da mata e das suas importantes funções ambientais e lúdicas.
É pois necessário continuar a pugnar pelo início dos inadiáveis trabalhos do repovoamento florestal, mantendo pontuais intervenções de limpeza e conservação do pinhal, acções na quais devem ser mais responsabilizadas as autarquias locais, podendo ser envolvidos os cidadãos, num pedagógico espírito de voluntariado.
Garantida a realização destas acções, depois de concretizado o investimento na requalificação do parque desportivo que já conta com o apoio de cerca de setecentos mil euros da Administração Central, é também tempo de os responsáveis autárquicos locais desenvolverem um projecto ambicioso para a orla ribeirinha do pinhal que, integrando a agradável infra-estrutura pedonal já existente, crie espaço adequado para acolhimento da náutica de recreio e, porque não, compatibilize esse equipamento com condignas condições para a acostagem e apoio à frota de pesca artesanal do rio Minho.
A estes projectos deve estar associada a contínua melhoria das instalações do parque de campismo, uma cuidada qualificação da praia da foz e a recuperação e aproveitamento da casa do antigo couteiro nela instalando, nomeadamente um abrigo de acolhimento de visitantes, um centro de interpretação ambiental e serviços de manutenção e vigilância do pinhal.
Dessa forma, a Mata Nacional do Camarido será, ela própria, selectiva dos seus utilizadores e cada vez mais respeitada e apreciada, mantendo-se essencialmente como um espaço de excelência para a promoção do bem-estar e qualidade de vida dos cidadãos, mas simultaneamente pode e deve ser rentabilizada como uma distinta oferta turística, plena de atractivos nas quatro estações do ano, o que constitui um forte potencial gerador de desenvolvimento económico para a região.

 

Começou o futebol

Antero Sampaio
Colaborador

Depois dum longo defeso, onde os clubes de futebol mais endinheirados, reforçaram os seus planteis, começou o futebol,  essa indústria milionária que todos os domingos e não só, consegue movimentar milhares e milhares de adeptos, que enchem os estádios deste país.
Mas enquanto há jogadores que ganham fortunas, também a crise já chegou ao futebol profissional, pois cada vez é maior o número de jogadores desempregados. Veja-se o caso do guarda-redes Ricardo, que de herói nacional em 2004,está no desemprego, já que o Bétis de Sevilha entendeu dispensá-lo. Por isso, eu costumo dar ao futebol apenas o valor que tem, pois entendo, como afirmou um dia o Sr. Presidente da República, há coisas mais importantes, neste país,  que o futebol.
E já que falei em jogadores desempregados, eles fazem parte dos 500.000 portugueses que, segundo as estatísticas do Instituto Nacional  de Estatística (I.N.E.), já constituem cerca de 9,1% da população activa. Sobre estes dados, as centrais sindicais afirmam  que é preciso criar mais empregos (que novidade…) enquanto as associações patronais dizem que a culpa é do enfraquecimento, melhor, da queda da nossa economia.  Ora, para criar mais empregos, é preciso, como é lógico, criar mais empresas. E para criar mais empresas, é preciso cativar os empresários, os homens que “têm o dinheiro”, os chamados capitalistas, quer nacionais, quer estrangeiros. Mas para cativar o investimento, é preciso que o país tenha uma estabilidade social, que permita ao investidor desenvolver o seu negócio, ganhar dinheiro, manter ou até aumentar os postos de trabalho. Caso contrário, o desemprego, infelizmente, continuará a aumentar e qualquer dia, nem  dinheiro há,  para ir ao futebol. Já com  futebol, o país vai a eleições. Só espero que, em Setembro os portugueses saibam escolher um governo que, duma vez por todas, melhore as condições de vida  dos portugueses. Se não for assim, qualquer dia, só se falará de futebol , nas primeiras páginas dos jornais, nas rádios e nas televisões  e isso é mau sintoma.

CS4302

Serra de Arga, entre o Minho e o Lima

 
Lima Barreto
Colaborador

A Serra d’Arga liga os rios Minho e Lima, com o Rio Coura pelo meio a distribuir trutas aos amantes da pesca.
Terra que é composta por três freguesias: Arga de Baixo, Arga de Cima e S. João d’Arga, com a grande festividade de S. João d’Arga (dia 29 de Agosto); terra que tem vindo a recuperar a tradição do linho, a gastronomia do Cabrito do Monte, o ouro pesado ao peito das lavradeiras e os legados celtas, perdidos na serra do silêncio, na serra que faz a festa ao seu padroeiro, ainda sem luz eléctrica, única no nosso país.
Preserva a águia real, a lebre e tem na pasto­rícia uma riqueza de décadas.
A romaria de S. João de Arga chama à montanha muitos romeiros, ainda puxados a pé descalço por alguns dos seus rudes romeiros. Abriga cabanas e rochas, ossa­das humanas em alguns “dolmens” e sobretudo a devoção de um povo granítico, onde a água de Agosto é de açafrão, mel e mosto.
Em Agosto, também se malha com o suor o rosto daquele povo, lidando o linho como no antigamente.
Portanto, o acesso a São João de Arga ainda hoje é difícil, com gentes vindas de Caminha, Viana, Ponte de Lima, Paredes de Coura, Cerveira, Valen­ça e Arcos. Tudo a caminhar por carreiros de cabra, na serra da Senhora do Minho, caminhos de serra, ao serviço de romeiros de tambor e ferrinhos, pandeiretas e castanholas. Mulheres descalças, merendas à cabeça, chouriço e cabrito a “granel”, toalhas brancas bordadas e franjadas fazem do São João de Arga provavelmente a Romaria mais antiga de todo o nosso Minho.
Nos tempos antigos, as mulheres a pé descalço, receosas dos caminhos e dos possíveis estragos, levavam os fatos “à lavradeira”, guardados em sacos, só os vestindo quando chegavam à romaria. O mesmo acontecia às chinelas que só calçavam em plena festa. O ouro brilhava sobre os peitos das lavradeiras, em cordões pesados e nas arrecadas das orelhas.
Talvez juntamente com a Peneda, S. João d’Arga é ainda hoje a romaria com os trajes mais ricos do nosso país, tradição que depois foi copiada pelas festas da Senhora da Agonia, essa hoje a Rainha das Romarias, em tempo moderno. Mas no tempo antigo, o São João de Arga era sem dúvida a genuína romaria de todo o Minho, com as famosas tendas de petiscos, as voltas rituais à capelinha do santo e os antigos quartéis lá construidos para abrigar os peregrinos, ainda hoje relíquias de um passado carismaticamente minhoto. A broa, o café de saco, a aguardente, o mel da serra (especialidade tradicional de Arga) são atractivos que juntos ao “carrascão” vinho de Perre e de Venade, ainda hoje têm clientela fiel.
Quanto ao local é ventoso, frio e desabrigado no inverno, mas no verão é um lençol de brisa, bafejado pelo respirar dos lobos e onde as águias-reais fazem o seu ninho para perpetuarem um passado de tranquilidade, que liga o nosso Minho ao nosso bucólico Lima.
O mosteiro de São João d’Arga, restaurado na Idade Média pelos frades beneditinos, tem a primeira referência no tempo no ano de 1252; em 1346 continuava a ser habitado por monges, tendo ficado vago no ano 1515, quando foi doado à Ordem de Cristo. Com os anos, o tempo deixou-o no esquecimento, os monges partiram para locais rentáveis e a tradição desta romaria reforça-se em 1840. Vestígios desses frades são a famosa “Fonte dos Monges” a sul da capela, com boa àgua da serra, que é coisa rara.
Os romeiros ofereciam sal ao santo (símbolo do baptismo) e também para a cura dos feridos dos ditos romeiros no seu regresso às suas terras.
De acordo com a antiga praxe, o sal costumava ser levado à cabeça e colocado dentro de uma arca existente na casa das ceras, edificada juntamente com a sacristia, no século XVIII.
Na Serra de Arga, ainda hoje são conhecidas duas lendas: o do Santo Aginha. Na Serra de Arga é célebre o ladrão que se tornou santo, de seu nome Aginha. A lenda do Santo Aginha ou do Santo Oginha, que deu origem a uma capela de granito na Igreja Paroquial de São João, datada de 1720, situada entre os lugares de Santo Aginha e Felgueiras.
A Serra de Arga, com o seu violento trovão, ainda é hoje testemunho histórico de um Minho celta e suevo, onde o demónio se corre com esse vento diabólico que a serra pára no inverno, sobretudo.

Bem prega Frei Tomás (IV)

Franklim Fernandes
Colaborador

“FAZEI O QUE ELE DIZ, NÃO FAÇAIS O QUE ELE FAZ” é rifão antigo mas de uma gritante actualidade na sociedade em que vivemos, tão frequentes são as situações de incoerência entre o discurso e a prática com que diariamente nos confrontamos, entre o que se proclama acreditar e a realidade de uma vivência antagónica. A vida está repleta de exemplos em que a letra não bate com a careta nem a bota com a perdigota. Apesar disso, vamos vivendo alegremente o nosso egoísmo sem que estas distor­ções de carácter nos melindrem ou preocupem convivendo com um narcisismo doentio que merece o vómito da sociedade.
Dizer e não fazer é a absoluta negação da personalidade e uma manifestação de falsa superioridade que pretende para os outros o que para o sujeito não serve, desobrigando-o de regras cujo cumprimento lhes exige com todo o rigor. Veio-nos à memória aquela estória de um padre que, tendo-se esquecido da determinação do quarto mandamento da Santa Madre Igreja, mandou preparar um nutrido leitão para deglutir no jantar da confessada do segundo mandamento, em Sexta-Feira Santa. Antes de começar o lauto repasto, um dos abades comensais chamou a atenção para o ilícito que todos iriam cometer. Respondeu o padre anfitrião: - maior pecado seria lançar aos porcos tão saboroso e caro manjar. Por isso os ilustres colegas não tenham escrúpulos e deixem para mim o ónus moral deste pecadilho do qual me penitenciarei no final perante um de vós, com dor de coração e propósito firme de emenda.
Outro exemplo da falta de rigor entre a palavra e a acção é descrito nesta segunda parábola que refere que um padre, invectivando os fiéis que, em contravenção ao primeiro mandamento da Igreja, teimavam em colher a azeitona ao domingo, ameaçava com as labaredas do inferno aqueles que não se abstinham de trabalhos servis. “Tomai nota – dizia o pregador – que Deus deu ao homem seis dias para trabalhar guardando para Si apenas um que o homem deve respeitar para Sua glória. Guardai-o como sagrado”.
Aconteceu, porem, que o padre herdou de um parente um lagar de azeite.
Do púlpito passou a admoestar os que, por manifesta falta de tempo, deixavam apodrecer a azeitona:
– Deus criou o homem e criou para o seu serviço todas as boas coisas da Natureza. É grande pecado, apenas expiado eternamente nas profundas do inferno, esbanjar os frutos que Deus lhe deu. Tendes vós de colher a azeitona, da qual deriva a luz que arde perenemente na lamparina do sacrário. E se achais que seis dias não são suficientes, aproveitai o domingo para ripar o fruto da árvore da paz que não pode ser desperdiçado. Se doze horas do dia não chegam, de noite também é dia.
Destes exemplos de contradição proveio o provérbio de que fazemos titulo.
E quem terá sido este Frei Tomás, celebrizado pela incoerência entre a pregação e a prática que deambulou, peregrino, neste vale de lágrimas?
Chegou-nos à mão um exemplar do ALMANAQUE DE SANTO ANTÓNIO (curiosa coincidência!), no seu vigésimo sexto ano de publicação, de 1924, edição da empresa do “Boletim Mensal”, de Braga. Passamos a transcrever, na íntegra, as suas páginas 255 e 256:
“FREI TOMÁS – Fazei o que êle diz, o não o que êle faz”
Mal sabem os leitores que o rifão tão sabido tem por autor, em parte, um autentico frei Tomás, por sinal eminente pregador português, e em parte um fidalgo, provavelmente abespinhado com os seus sermões.
Nasceu em Ponte do Lima aí pelo ano de 1530, filho natural de Manuel de Magalhães, morgado de Fonte Arcada. Entrou na Ordem dominicana, vestindo o hábito no convento de S. Domingos de Lisboa, para onde foi ainda muito novo.
Frei Tomás de Sousa, pois assim se chamava, mal ordenado consagrou-se ao púlpito, revelando-se desde logo insigne orador. Alcançou tanta fama o seu talento, que El-Rei D. Sebastião nomeou-o pregador régio, e a rainha D. Catarina escolheu-o para seu confessor.
Quis o bom frade aproveitar a sua influência na côrte para corrigir com liberdade apostólica os vícios tão asados aos paços reais.
Um fidalgo, cujo nome a história não regista, mas provavelmente ferido nalguma mazela pelo pregador do Rei, prega-lhe à porta um papel com este lembrete:

Aqui mora frei Tomás, que bem o diz e mal o faz
O padre viu, leu e não se incomodou. Apenas lhe escreveu a seguir.
Fazei vós o que ele diz, e não façais o que ele faz
E foi-se embora. A côrte aplaudiu a boa saída do frade.
O cardial D. Henrique é que não gostava dele. Anulou a eleição que o elegera para Provincial em 1578.

O seu patrício Diogo Bernardes no seu Lima fala dele:

Divino preceptor da lei divina
Tomás, que ao grão Tomás vai imitando,
Na vida, na lição e na doutrina.

Que duro coração, que ânimo fero
Te poderá ouvir que não se abrande!
Eu já des que te ouvi, só isso quero.

O soberbo em seus mandos se desmande;
Descubra o cubiçoso novas minas.
Cada um a seu gosto viva e ande

É esta porventura a lei que ensinas?
Não mostras tu ser tudo só vaidade
Fora do amor do céu, em que te afinas?

Bem pregas a verdade da verdade,
Bem verdades guardas quanto pregas
Se olhas sempre em Deus, sempre à vontade.

Frei Tomás não deixou de si maior fama. Morreu ignorado na sua ignorada cela. Mas anda em provérbio. Ficou imortal.” (citei)
Terá sido pela sua influente passagem por esta região que nela abundam os lobos com pele de cordeiro a justificar a controvérsia da sua pregação, boa doutrina mas péssimo exemplo.

 
Vou sentir saudade…

Jaime Franco
colaborador


Setembro chegou,
Chegou o Outono,
O Verão terminou,
Terminou o meu sonho.

Vou ter que voltar,
Para terras distantes,
Voltar a ficar,
Triste como dantes.

Vou ter que deixar,
A minha Princesa,
Quem sabe a chorar,
Também com tristeza.

Vou sentir saudades,
Dos beijos que demos ,
E na intimidade,
Tudo o que fizemos.

Descobrir segredos,
Que tão bem guardavas,
Tocar com os dedos,
Onde mais gostavas .

Vou sentir saudade,
De irmos ao cinema,
E depois mais tarde,
Reviver a cena.

De irmos á boate,
Para nos divertir,
E daquela parte,
Sempre ao despedir.

Vou sentir saudade,
De tanta alegria,
Vou sentir vontade,
De voltar um dia.

Se quando voltar,
Estiveres solteira,
Vamos atear,
De novo a fogueira.

Matar a saudade,
De tanta loucura,
Ter a felicidade,
De nova aventura…

Já pensou em quem votar nas autárquicas?

 Manuel Pires Trigo
Colaborador

As forças políticas distinguem-se por objectivos, práticas, organização, afectação de novos membros, etc. A conduta dos partidos num dado momento depende de tudo isto, neste factores encontra-se a justificação para muito do que acontece, por exemplo na escolha dos candidatos aos orgãos do poder local.
O Partido Comunista renova-se fechando-se e procurando nos seus membros novas escolhas e velhas confirmações. Os mais pessimistas dirão que estagnou, os outros dirão que está numa atitude defensiva, de aposta na estabilidade. Aos candidatos interessa manter a chama.
O Bloco de Esquerda com uma votação superior nas europeias, mas com uma organização incipiente quedou-se nas boxes. Pouco vocaciona­do para o poder local, mas atraindo a juventude, caber-lhe-ia o papel de manter um bom extracto da população integrado na luta política. A abertura da juventude, a dispensa das subserviências que campeiam nos outros partidos, criaria uma outra perspectiva de olhar a vida pública.
Também o Partido Socialista falhou na organização. Este partido tem-na não a tendo. Porque a organização também serve para perpetuar erros, para prolongar inércias, para tornar a apatia uma falsa base da estabilidade. É uma organização fechada, endo­gámica, em que os membros alternam entre períodos de nojo e períodos de um activismo que porém não ultrapassa a pesca à linha.
Ou há peixe na linha ou novo período de nojo vem aí. Vivem angustiados por estarem num partido vitima da chacota quando está no poder e de excessivas expectativas quando na oposição. Não cultivam o emblema do partido, a solidariedade, e amaldiçoam a sua ingratidão, como se tivesse de lhes dar tudo.
Irrelevante para a captação de votos para o todo nacional, quem vota no partido fá-lo à revelia da estrutura local. Porque não tem sido útil ao poder local tem sido vítima do voto útil nas guerras locais passadas entre o CDS e o PSD e perspectiva vir a sê-lo na luta que se avizinha.
As perspectivas de renovação são nulas sejam a nível interno sejam pela captação de novos membros. Decerto que os membros locais vão um dia atribuir a culpa à pouca importância que o José Sócrates tem dado às estruturas partidárias mas é tão só revelador do vazio de ideias, do conformismo, do imobilismo. O PS local é um deserto com umas “estrelas cadentes” a luzir lá dentro, de que se não conhece uma ideia e que tudo devem ao PS nacional.
O PSD local é o paradigma da instabilidade permanente. Bem implantado na classe mercantil, no funcionalismo, no meio agrícola tem sempre gente activa, dentro e fora do partido, com a camisola bem agarrada ao corpo, pese embora o desconsolo dos mais clubistas que só celebram vitórias longínquas. A maioria dos seus membros bole muito mas é politicamente amorfa e sem valor.
Votam maioritaria­mente no PSD nacional mas a nível local, quando têm perspectivas de se alcandorarem ao poder todos se aliam contra eles. Traições também lhes não faltam. Até neste momento, uma ocasião única para apelar às suas hostes no sentido de se unirem à volta de uma candidatura inovadora, a traição continua a corroer o ânimo dos seus adeptos.
Nunca repetiu uma candidatura em duas eleições sucessivas e viu falhada a sua tentativa de pescar na casa do vizinho CDS há vinte anos atrás no auge da arrogância cavaquista. Tem uma história triste de sucessivos líderes perdedores e de eminências pardas sempre presentes, mas ausentes para assumir as derrotas. Tem uma história triste nas gestões partilhadas com o CDS em diferentes ocasiões, com a AD ou sem a AD, formal ou informalmente.
No último mandato foi colaboração no Executivo camarário, oposição na Assembleia Municipal, manifestando o exemplo típico de uma liderança bicéfala. O actual líder será a esperança de pôr termo a esta situação pela ausência aparente de compromissos com os velhos lobbies herdeiros do carrascão e do chã das cinco. Chegar-lhe-ia os votos sociais-democratas para ganhar, pelo que terá que saber vestir a camisola e apelar à quebra da subserviência que muitos dos seus correligionários ainda têm perante as forças retrógradas, ruralistas, paterna­listas e castradoras que o CDS representa.
Este CDS local já não tem qualquer semelhança com o nacional nem com o que localmente lhe esteve na origem. Resistiu à arrogância cava­quista, solidificou-se numa heterodoxia original e de índole pessoal. O CDS aproveitou as divergências alheias, congregou voto de esquerda com voto de direita tradicional e a partir de Daniel Campelo aproveitou o mediatismo, mesmo que patético, de lutas perdidas e outras de duvidoso ganho.
O actual candidato geriu bem o seu perfil de escudeiro, numa corte em que os papéis estavam bem definidos com peões de brega, bobos da corte e outros cargos menores. A sua tentativa de passagem a chefe da orquestra manifesta-se muito difícil. Aparentemente, maugrado as lutas intestinas, os indefectíveis parecem permanecer firmes na defesa da fortaleza, as muralhas não aparentam um desmoronar eminente.
A adesão a este projecto que seria chamado a gerir o espólio do deslumbramento final de Daniel Campelo, os ímpetos napoleónicos do resistente Gaspar Martins, é uma incógnita. No fundo quem nele acreditar é porque acha que Daniel Campelo continuará como a eminência parda a dar coesão a uma equipa disforme, desconexa e sem outro cimento que não o oportunismo de querer navegar num barco vencedor. A pureza ideológica não levaria o CDS a lugar nenhum e com Daniel Campelo uma certa heterodoxia funcionou. Mas tal deve-se à sua liderança natural, a erros alheios e a um outro conjunto de circunstâncias exteriores favoráveis.

Para manter a sigla, o CDS tradicional continuou a abdicar da sua afirmação. Na prática o executivo de Daniel Campelo sempre se manifestou mais favorável às políticas socialistas do que a quaisquer outras. Poder-se-ia ver aí aquela democracia cristã que a nível europeu deu origem, numa estreita aliança com os partidos socialistas, à Europa Comunitária. Mas haverá uma doutrina que sobreviva a Campelo? Não virá ao de cima o que é mais próprio de cada elemento desta controversa equipa? É caso para eles próprios estarem apreensivos.

 
Rede comercial terrestre através 
das nações arabizadas (11)

João Gonçalves Costa
Colaborador

Seguindo uma cópia de ilustração de um manuscrito do séc. XIII (quando Portugal ainda estava a tentar vir à  Luz) todo o espaço árabe ou melhor arabizado encontrava-se perfeitamente ligado por uma série geométrica  que mais nos parecem os desenhos da nossa actual  Internet. Não interessava se os espaços eram de arei, de águas estagnadas ou de rios de águas perfeitamente potáveis (queremos dizer, limpas, bebíveis para humanos e animais). Note-se que estamos a falar de um mapa desenhado no séc. XIII. Vamos tentar dar um resumo dos produtos que passavam por tais Rotas, começando pelo espaço mais querido dos muçulmanos que era a Cidade sagrada de Al-Hambre (mais tarde chamada de Granada): daqui, apenas são referidos Cavalos. Outras linhas seguiam em direcção, através dos Pirenéus, outras seguiam pelo mediterrâneo com acesso  a Toledo, Génova, Veneza, Nápoles e Amaffi. Entretanto, havia rotas que saídas do El Andaluz, abasteciam Ceuta, Fez, Marraquexe, Tunes, Qairuan, Tripoli, Chat e outras terras que recebiam ou davam peles, algodão, azeitonas, artigos de metal e ouro; mais para leste vinham  as tâmara para  Tunes (figos duma Opúncia, muito usados pelas vitaminas que continha esse figo Tuna. As Rotas que iam pelos trilhos dos actuais corredores de automóveis, seguiam direitinhos para Tombuctu e outras terras ao lado, donde traziam peles, marfim, ouro, escravos, tâmaras. Mais para Norte, havia o algodão, a lã, o papel, os couros, etc. Aos tempos, o Mediterrâneo era, poder-se-ia dizer uma via aquática das mais frequentadas e segura em termo gerais. Convém frisar que entre os sécs. X e XIV, o Islão fazia sentir e impunha a sua influência muito para além das sua fronteiras territoriais. O Ouro de Tombuctu breve encontrou seu caminho para a Europa, mas agora com os portuguses pelo mar. Pelo outro lado, as sedas nunca deixaram de circular do Oriente, passando através da rede comercial muçulmana através do El Andaluz e das Cortes ricas ,da Nobreza, das Igrejas e do Vaticano.
O Rio Nilo pôs de lado seus  pôs de lado seus  velhos faraós, para deixar subir e descer o que de mais importante houvesse: pedras preciosa, especiarias, pelas, cavalos, carneiros, camelos, tâmaras, artigos de metal, algodão, têxteis finos (sedas), Lã, vidrarias, papiros (ou Papel), Ouro, construção naval, etc, As 6 cidades e regiões que hoje estão em grande conflito diário faziam um corredor de produtos de alto valor: Construção naval,  madeiras preciosas, carneiros, ferro, vidraria, azeitonas, Tãmaras, Azeite e muito produtor da terra local. Entre Constantinopla, Antioquia e Trebizonda, colhiam-se o Ópio, o Algodão e têxteis. Do Golfo de Áden para Leste e Sul muitos corredores  seguiam directamente aos lugares onde se extraiam madeiras preciosas, pedre preciosas, âmbar, escravos, marfim, etc. A linha que seguia mais para o Oriente: traziam minério de ferro, Ouro, prata, Têxteis, tapetes, artigos de metal e alguma verdura e fruta local.
Já na linha atlântica  (que era muito procurada pelos negreiros) as duas linhas de Ádem, traziam ferfumes ébano, madeiras preciosas, pedras preciosas, especiarias, cânfora, seda, índigo, âmbar, marfim, etc. Afina, os escravos e a seda andavam sempre presentes, com destinos diversos, numa proporção desigual. O Golfo de Aden era uma das regiões mais importantes, não só pelas facilidade de passagem, como da segurança que ali havia entre todos. Pelas culturas que nos mostram, esta área deveria ter noutros tempos, Rede Comercial mais perfeita do Mundo Ocidental, como ainda hoje sucede, mas de outros modos e subtileza. Dos lados interiores de Tachkent, Búkarad e Nishapur, circulavam produtos idênticos, tais como: sabão, tapetes. Artigos de couro,  Têxteis, papel, perfumes, tapetes e artigos de metal. Pela via de Búcara Urgenj, vinham algodão, têxteis, lã, âmbar, peles e escravos. As rotas que passavam por Tebriz, continuavam a comerciar com artigos de ouro, têteis, arroz, algodão, artigos de metal , madeiras preciosas, tecidos tingidos, cera, carneiros, tapetes. E escravos de muitas origens. De tantos e tão variados produtos transaccionados através desse enorme espaço, fica-nos o espanto e a tristeza de saber que desde há milénios os humanos são vendáveis.

 
Quem não o conhecer que o compre

Antero Sampaio
Colaborador

Tal e qual!  Quem não conhecer o Engº. José Sócrates que o compre. Palavras do Dr.Paulo Portas, presidente do CDS-PP, aqui há dias na televisão.
Além destas palavras, ainda “mimoseou” o ainda Primeiro Ministro, com diversos adjectivos depreciativos,  que arrasam a governação do Engº. José Sócrates. Além deste Partido, também o P.S.D., pela voz da sua presidente,Drª. Manuela Ferreira Leite, não se cansa de “deitar abaixo “ este governo, que, no seu entender, só tem empobrecido o País. O mesmo acontece com o P.C.P. e o B.E..
E é neste clima de “insultos políticos” que os portugueses se preparam para, no próximo dia 27 de Setembro, eleger um  novo governo e um novo parlamento. E, neste dia, das duas, uma: ou o P.S. D. ou o P.S. ganham as eleições com maioria absoluta e o país segue a sua vida normal ou então, quem ganhar terá que fazer coligações à direita ou à esquerda. Se o P.S.D. tiver uma maioria relativa, possivelmente fará coligação com o C.D.S. Neste caso, embora possa formar governo, não terá a maioria no Parlamento. Se o P.S. ganhar sem maioria absoluta, sinceramente, não sei com quem irá coligar-se, pois o P.C.P. já afirmou que não está disponível para fazer uma aliança com os socialistas.
Para mim, o ideal seria uma maioria absoluta, quer de Direita ou de Esquerda. Se não for possível, e com a crise ainda em cima de nós, embora a recuperar “uns pequeninos 0,3%”, vai ser muito difícil  a um governo minoritário, governar o país por muito tempo.
Dentro de poucos dias, nas televisões,  todos os partidos vão fazer debates, apresentando os seus programas, procurando cativar os portugueses, no próximo acto eleitoral. O pior é que o desemprego continua a aumentar (já vai em 9,1%), os grandes investimentos continuam parados,  os professores continuam descontentes, as forças armadas não estão satisfeitas , a justiça não anda, a criminalidade urbana cada vez é maior. Tudo isto, creio eu, vai pesar e muito, no momento em que  os portugueses vão depositar o seu voto, no próximo dia 27 de Setembro. De qualquer maneira, naquele dia,  vai surgir um novo governo e um novo parlamento. Só falta uma nova política, com menos desempregados, melhor justiça social, melhor qualidade de ensino e de cuidados básicos de saúde, uma justiça mais rápida, um melhor clima nas forças armadas e de segurança. E os políticos, todos sem excepção , são responsáveis pelo êxito ou inêxito  dessa mesma política. Na minha opinião, creio que já é tempo de deixarem os interesses partidários e pensarem mais nos interesses dos portugueses.

Promessas

Menã
colaborador


Ai esta dor que eu tenho
Que me faz tanto sofrer
Que me faz pensar naquilo
Que mais gostava de ter.

Ai esta a vida sombria
Esta dor que me atormenta
Esse gostar de alguém
Que faz de ti ciumenta.

E este amor que eu tenho
Por gostar tanto de ti?
Que me faz pensar na vida
Daquilo que já vivi?

Tanto sofrer por querer
Depois de tanto amar
Tantas promessas são feitas
Depois de tanto sonhar.

Promessas soltas ao vento
Que o vento por mim levou
Tanto querer por amar
Que o amor terminou.

E esta dor que não passa
Que vivo constantemente
Promessas que tu fizestes
E deixam dor para sempre.



CS4302


A nossa difícil relação
com o poder
– o cepticismo

 
Manuel Pires Trigo
Colaborador

O cepticismo mais inicial, que já se demarca da confiança mas ainda se não consolidou, confunde-se com a suspeita, a desconfiança. O cepticismo saudável está para além da dúvida metódica e aquém da dúvida sistemática. O cepticismo mais acirrado deriva do sentimento de traição e fica a um passo da desconfiança absoluta. O cepticismo, sendo um sentimento que não resulta em entusiasmo mas em desilusão, se não descambar para a aversão, permite-nos a consideração da realidade mais a frio, a sua análise mais profunda.
O cepticismo em política manifesta-se em relação à capacidade e à vontade efectiva de pôr em prática uma dada política. Mas o que hoje está mais em voga é um cepticismo radical que põe em causa a possibilidade que alguma política venha um dia a corresponder àquilo que achamos ideal, razoável ou até simplesmente praticável. Este tipo de cepticismo também não se constitui normalmente para ser satisfeito porque, começando por exigir pouco, vai alargando as suas pretensões.
O cepticismo alimenta-se com a incoerência e a mentira, por mais ténues que sejam essas razões. O céptico por ausência de método aplica à realidade um carácter redutor que dificulta a descoberta das suas razões. Quando assume carácter doentio o cepticismo alimenta-se a si próprio numa obsessão permanente pelo precipício que separa sempre a realidade das suas exigências. Este cepticismo pode assumir um carácter retórico que disfarça muitas vezes uma oposição sistemática que pode transladar-se para o ódio.
O cepticismo pode converter-se num sentimento de revolta pouco solidário, que não resiste ao radicalismo verbal. O radicalismo não ajuda àqueles que manifestam o seu cepticismo depois de todos os esforços para serem razoáveis. O cepticismo até pode ser o resultante do cansaço, e levar a que se lhe não atribua qualquer esforço pessoal para o ultrapassar. Mas quem é escrupuloso, quer ter ideais, pode ser céptico mas não se pode deixar contaminar por doenças de carácter crónico.
O céptico radical tem uma aversão precon­ceituosa e sem fundamento e encontra sempre incoerências internas e mentiras no discurso alheio. O optimismo incomoda-o. Para ele quem lança nefastas ondas de optimismo nunca têm qualquer razão. Tenta promover e generalizar a ausência de confiança nas pessoas e no futuro. Se as pessoas são o que são, sem empenho em que o futuro seja diferente, com cépticos destes estamos tramados.
Muitas pessoas fazem do cepticismo uma estratégia de combate que visa aproximar a realidade do discurso. A ideia de que não devemos manifestar a nossa confiança em ninguém está por de mais generalizada. Tal deriva do facto de escassearem outros meios de intervenção. Os partidos são estruturas fechadas, a imprensa só reflecte a realidade pelo lado do espectáculo, os sindicatos são correias de transmissão, nos clubes faz-se tudo menos reflexão, na blogosfera vomita-se asco na sua asserção mais virulenta.
As pessoas agravam o seu cepticismo à medida que mais se isolam. Esse isolamento não se desvanece com os comentários anónimos na blogosfera. Esta forma de desabafo, que está longe de ser exclusiva dos cépticos, corresponde a uma diminuição da tensão, é uma descarga emocional, mas ela própria viciadora. Se o céptico tem no geral um comportamento mais passivo, quem adere a esta forma de intervenção pode passar a nutrir um sentimento mais activo de desforço de eventuais, hipotéticas derrotas. O céptico não pode ser o eterno derrotado.
Sem suficientes pessoas em quem confiemos, sem suficientes pessoas que possam expressar as nossas ideias, sem poder de intervenção a nível da sociedade e muitos menos a níveis razoáveis de poder, o cepticismo está demasiado perto. Caímos com uma facilidade imensa na procura dos defeitos alheios, não estando decerto alheios aos nossos, mas esquecendo-os, que também é isso que se pretende. Outra tentação dos mais cépticos é fixarem uma verdade de que não têm dúvidas.
A fixação numa verdade quando o mundo é tão deslizante é necessária para efeitos práticos, para servir de referências a propostas que se fazem, para ciclicamente aferirmos a sua pertinência e a necessidade de actualização. No jogo de forças que se estabelece com os outros o que tem uma fixação mais forte, se não tiver escrúpulos, vence por regra. A realidade, encarregando-se de desfazer as dúvidas, quantas vezes chega tarde de mais. Há erros que se acumulam sobre erros e pessoas certas que perdem sistematicamente.
Os cépticos com uma fixação forte, com tantas certezas são falsos cépticos, são cínicos. Numa conversa mole que se estabelece no meio social estas situações são comuns e desgastantes para quem quer dar alguma seriedade a qualquer discussão. O escrúpulo não cabe em certos meios.
Há muitas pessoas que nos desiludam, mas essas estão para além do cepticismo. Este, como fenómeno social deriva de uma incapacidade global, de uma descrença nas forças sociais existentes no momento. Não é uma incoerência individual, uma mentira em que alguém incorre, que altera a direcção, o vigor de um movimento colectivo. O cepticismo tem esse vigor, mas o militante extravasa em muito a sua importância e confunde o pessoal com o colectivo.
O céptico escrupuloso não é e sabe que não é o portador da verdade, mas tem que fazer algum esforço para não ser agarrado a esse anátema. Quantas vezes uma exagerada contundência numa conversa mole é utilizada para esse fim. De qualquer forma a linguagem desabrida tem sempre outras origens e outras razões e isso perturba e impede mesmo a nossa compreensão do cepticismo.
Um dos casos em que o céptico tem razões para o ser é quanto às previsões. O céptico facilmente encontra aí indícios de optimismo exagerado, mas também de um pessimismo avassalador. E neste caso o céptico até o pode ser pelo lado positivo, pese embora, perante duas previsões, opte normalmente pela mais pessimista. Sem certezas, que essas ficam para os cínicos.


Menino Triste

 
Maria Alice Martins

colaboradora

 
A vida é bela
O mundo é um jardim
Onde crianças brincam
A vida é mesmo assim

Brincam crianças
Como é costume
Uma me acerca
E me pede lume

Em vez de lume dei-lhe um peão
Numa voz sumida
Pedeu-me um tostão
Doce olhar tristonho

Menino sem pai
Só regressa a casa
Quando a noite cai
A casa vazia

A mãe não chegou
E o menino triste
Mais triste ficou

O jardim é de todos
Os que querem brincar
Mas não há para todos
Amor e jantar.

 
As sondagens

Hélio Bernardo Lopes
Colaborador

Acentuando o modo decadente como vai funcionando a nossa dita democracia, eis o novo tema da guerra política da atual oposição ao Governo de José Sócrates: as sondagens.
Não sei, como pode imaginar-se, o que se pensará no ambiente das chancelarias dos Estados que nos são mais próximos sobre este novo tema da ação política da nossa atual oposição, mas tudo me faz crer que a opinião aí generalizada será a de que os políticos da nossa atual oposição, no mínimo, não terão uma ideia correta do mecanismo das sondagens e dos seus limites.
Facilmente se percebe que terá de envolver um risco muito maior, por exemplo, o dimensionamento de uma barragem, domínio em que é essencial estimar o caudal de ponta de cheia com determinada probabilidade de não ser excedido. Para não referir já a escolha da secção do rio onde virá a situar-se o empreendimento, essencialmente determinada pela estrutura geológica correspondente.
Simplesmente, tudo isto pode conduzir a resultados bastante longe da realidade, logo a começar pelo levantamento geológico do terreno, que pode muitíssimo bem vir a ser ultrapassado, no domínio do custo, pelas perspetivas que possam ter-se estimado a partir do levantamento geológico.
E o mesmo se dá - e com que frequência...- com a estimativa do caudal de ponta de cheia, domínio que acarreta, com grande frequência, que o nível de pleno armazenamento não possa ser utilizado, até quando o mesmo é possível.
Vem tudo isto a propósito dos riscos que se prendem com a tomada de decisões em situação de incerteza, onde as estimativas conseguidas, como o próprio nome indica, são isso mesmo, ou seja, estimativas, naturalmente variáveis com a amostra estudada, e por isso apenas (esempre) válidas com determinada probabilidade.
O que os recentes protestos contra as sondagens mostram é que a atual oposição percebeu muitíssimo bem que o resultado da recente eleição para o Parlamento Europeu se ficou a dever à natureza da eleição, sendo simples compreender que a abstenção observada não deverá ter atingido bloquistas e comunistas por estarem os mesmos galvanizados pela subida de há muito esperada.
A atual oposição deverá, claro está, ter percebido isto mesmo, compreendendo, por igual, a realidade que logo na sondagem para as eleições legislativas apresentada nessa noite se consubstanciou: a manutenção da tendência vista desde há muito, mas interrompida por um ato eleitoral extremamente desinteressante para a esmagadora maioria dos eleitores.
É essencial que se perceba esta realidade muito simples: as sondagens fornecem resultados aleatórios, variando de empresa para empresa, e, dentro de cada uma, com a amostra recolhida. As sondagens são estimativas, neste caso de intervalos de confiança, obtidos com certa margem de erro e determinado nível de significância. O resto, como facilmente se percebe, é mais um pouco de baixa política. A tal baixa política que conduziu o País ao estado que pode ver-se: depois do Estado Novo, lá veio o Estado velho e, já hoje, o estado a que se chegou.
Por fim, uma pergunta: que razão se pode imaginar para que o centro de sondagens da Universidade Católica também tenha falhado? Terá procurado favorecer o Governo e desfavorecer os designados democrata-cristãos? O leitor já percebeu a falta de lógica da nossa oposição? E compreende a lógica desta falta de lógica? É fácil, não é...?


As baldas na Assembleia


Antero Sampaio
Colaborador

No fim de cada legis­latura, a discussão em volta do regime de faltas dos deputados é sempre a mesma.
Há deputados que faltam muito, outros faltam, porque pertencem ao Circulo Fora da Europa e outros, felizmente a maioria, raras vezes falta. Se a Assembleia da República  trabalhasse nos moldes duma empresa, tenho quase a certeza que já teria fechado, ou estaria em “lay off”,  pois nas empresas, quem falta, tem sempre de justificar essa falta, seja por assistência à família, para tratar de assuntos pessoais ou quando está doente. Na Casa da Democracia, não é asssim. Os deputados, cidadãos como outros portugueses, para justificar as faltas dadas, sejam de que natureza for, basta dizer nos serviços respectivos , que no dia tal e tal, faltaram. E as faltas ficam justifi­cadas.
O Estatuto de Deputado (só é deputado quem quer…), prevê que após quatro faltas justificadas, se proceda à perda de mandato dos deputados. A verdade é que esta norma, não sei porquê, nunca foi aplicada, desde o 25 de Abril de 1974. Por isso, eu tenho legitimidade jorna­lística para dizer que, há um regime de impunidade histórica, no Parlamento Português. Mais. Ainda não vi ninguém com responsabilidades neste País, quer seja o Sr. Presidente da A. da R., quer outros Órgãos de Soberania, que foram tão solícitos a criticarem o Ex. Ministro da Economia, pelo seu acto impensado, de pôr “uns cornos” a um deputado, vir a terreiro, fazer uma crítica á maneira como os nossos deputados se comportam na Assembleia da República, no que diz respeito à assiduidade.  O pouco que se sabe, é através da Imprensa que, no seu papel de informar,  leva aos seus leitores, um assunto tão importante como as faltas dos deputados.
Há quem diga que os deputados deveriam  ganhar mais, para poder dedicar mais tempo ao seu “emprego parlamentar!... Outros dizem até, que os deputados deveriam ser profissionais, isto é, não terem necessidade de fazer da Assembleia da República, uma espécie de “part-time”. No entanto, a evolução para um regime de exclusividade obrigatória, imporia a revisão do estatuto remuneratório dos deputados!... É a qualidade da Democracia que está em causa. Para se conseguir captar os melhores e exigir-lhes responsabilidades, é preciso pagar!
Mas, perguntará o leitor, quais as razões deste absentismo?. Desde logo, o facto de os eleitos para a Assembleia da República, poderem, segundo o seu Estatuto,  optar por não desempenharem as suas funções a tempo inteiro. A  acumulação da actividade parlamentar, com carreiras profissionais paralelas conduz, muitas vezes, à sobreposição da actividade, que, se reflecte , como é óbvio, na assiduidade dos deputados.
Resumindo e concluindo. 
Tem  a palavra a Assembleia da República que, para evitar estas críticas, terá que melhorar, na minha opinião, o Estatuto dos Deputados, de modo que possam exercer os seus mandatos, duma maneira mais eficaz. Não me considero um cidadão de segunda, enquanto um deputado é cidadão de primeira. Ninguém está acima da Lei…E a Casa da Democracia, tem que dar o exemplo. Penso eu de que …

“ Piquenique”

 
Jaime Franco
colaborador

 
Fizemos um piquenique
No local do costume,
Fiquei com mais apetite
Ao cheirar o teu perfume.

Foi só preparar a mesa
E começar  a comer,
E ao chegar a sobremasa
Comemos com mais prazer.

Resolvemos  repetir,
Pois comida,não faltava,
Só parei de te servir
Quando estavas saciada.

“Ai que rico piquenique,”
Que comida tão gostosa!
Comemos sempre ao despique,
Quem mais come é quem mais goza.”

Um ano depois  voltamos,
Como tantas outras vezes,
Mas connosco já levamos,
Um pimpolho com três meses.

Não houve então sobremesa,
Porque o pimpolho acordou,
E para nossa tristeza
O piquenique acabou.

Comemos depois em casa,
Antes do puto acordar,
A comida estava em brasa,
Foi comer até fartar.

“Não foi bem um piquenique,
Mas foi ainda melhor,
Quando se tem apetite ,
O comer tem mais sabor”

Se fizeres um piquenique,
Não leveis ninguém convosco
Isso tira o apetite,
E a comida não tem gosto.

Golfe em Ponte de Lima

Lima Barreto
Colaborador

Ponte de lima está em alta. Depois das corridas de cavalos (o governo é quase um “ex-libris” da região limiana), agora surge-nos o golfe.
Conforme lemos no jornal desportivo “o jogo” de 14 de julho ( data da Bastilha), deparamos sem surpresa que ponte de lima ganhou um torneio chamado “Aegean airlines PRO-AM, torneio disputado no porto carros-golf resort, onde entraram 48 equipas. É obra! A formação lusa, que por sinal é limiana , liderada pelo jovem Alfredo Cunha com os amadores Paulo Fernandes, Luis Antunes e Manuel Ferreira, completam as duas voltas com 174 pancadas, 33 abaixo do par. No ano transacto esta formação limiana ficara já em 8º lugar. Este torneio é organizado pela associação dos profissionais da Europa e federação de golf da Grécia.
Estão de parabéns os golfistas limianos. Apesar deste desporto não ser do nosso aceitável conhecimento pois como é vulgar dizer-se que é um desporto dos “elites”, o certo é que o desporto com ou sem elites, não é inferior aos demais desportos, por este facto social. O desporto é sempre uma actividade que desenvolve as nossas características, físicas, intelectuais, morais, as humanas também e por isso está dentro do lema “mens sana in corpore sano”. Mente sã em corpo são.
Quanto a ser um desporto de elites, isso talvez se deva ao preço caro dos materiais e também a uma espécie de “estatuto” que o rodeia, que atrai gente com muito dinheiro, em todo o mundo. Conclusão: é um desporto de ricos e isso não o menos preza nem o inferioriza perante todas as outras actividades desportivas. Será que os limianos sabem que têm um Campo de Golf?
A vila limiana tem corridas de cavalos, tem golf de alta competição, qualquer dia irá ter uma pista de “karting” e o mais que vier. Tem também uma Universidade, um Instituto de cultura, tem piscinas e escolas com jovens que estão a brilhar e muito, sobretudo, no remo e na canoagem. E a vila é pequena, é a mais antiga do país; as pessoas são simples, mas têm sido criadas sinergias variadas que vão de encontro a alguns talentos que fazem sucesso quer localmente, quer sobretudo internacionalmente. “ os pequenos não se medem aos palmos mas como dizia a saudosa Amália Rodrigues, medem-se ás palavras que recebem dos seus aficionados e não só.
As elites são uma família com o seu estatuto social proeminente porque geralmente, são constituídas pelos banqueiros, gestores de empresas e outros homens de negócios. E quem é que dá trabalho a todos nós?
Não são os pobres mas tão só os que têm o capital, que quando aplicado bem e com alguma ética e carisma também social, pagam as nossas renumerações e permitem a tantos um nível de vida equilibrado. Claro que o golfe não está fechado nem à classe media, nem por exemplo a um “puto pastor” que apareceu para os lados do Alentejo e hoje, quase , nem adulta é, um astro na dita modalidade.
Nem tudo o que os elites praticam é “ilícito” antes pelo contrário, porque muita gente fala contra eles por pura inveja. As elites são a “fina flor” desta nossa sociedade assim dividida e encaixada num “puzle”  social e económico, complexo e sobretudo invejado por gente que tem menos dinheiro. Também não é uma árvore que faz floresta, nem são os elites que constituem o grosso do nosso tecido social; antes pelo contrário. Como os cavalos de raça, também eles são raros, mas apetecíveis. Falar contra eles não adianta, nem atrasa, porque se as minhocas vivem da terra, as elites vivem do “capital” e do seu estatuto social. Chamam-lhe de escola, o que há de melhor na sociedade em sectores bem definidos por eles que são rentáveis, põem o nosso turismo em alta e atraem estrangeiros (cantores, actores célebres, etc) para o nosso país que é já um jardim de príncipes reais.

Os segredos que a seda encobre (8)

João Gonçalves Costa
Colaborador

Entre Castelo Mendo e Marco Polo parece haver uma estreita relação de tempo e espaço, dos quais tentaremos dar seguimento às pesquisas de Joel e Suzana Cleto, na revista atrás indicada., quando dizem que há entre esta povoação e uma outra personagem da História a que chama de Marco Pólo personagem dois elementos que têm, como pano de fundo a seda de Portugal e as árvores de Castelo Mendo “Diz-se que se foi na segunda metade do século XIII que aquele comerciante italiano atravessou toda a Ásia e atingiu a China através da famosa “Rota da Seda”, tendo sido, também nesse período que, segundo a tradição, o rei D. Dinis, o Lavrador, terá mandado plantar, às portas de Castelo Mendo um conjunto de amoreiras que seriam utilizadas na produção fibra têxtil. Para o fabrico da seda portuguesa. E, se é muito discutível que as velhas e centenárias árvores que hoje aí podemos observar sejam efectivamente dessa época, elas não deixam de evocar uma longa e histórica tradição do trabalho da seda nesta região. A origem da seda é, no entanto, bem mais antiga...
Com origem na China, há vestígios arqueológicos do 2º milénio a. C. que  atestam a utilização da seda , que começou  a ser exportada, ainda em épocas muito antigas, para a Índia e para o Próximo Oriente , e potros países, com quem os Mongóis tinham boas relação comerciais, através de vias terrestres bem definidas que seriam imortalizadas  na famosa designação de “Rotas da Seda”. Meio século  antes de Cristo, o Império Romano já mantinha, através dessas rotas, comércio com centros produtores de seda. O segredo da sua produção mantinha-se, no entanto, bem guardado. Aliás as guerras ferocísssimas que os Romanos travaram entre os Cartagineses e povos vizinhos, inclusive os muçulmanos, nunca foi por causa da Religião, mas sim pela cobiça dos produtos vindos do Oriente. o Império Romano do Ocidente estava perfeitamente sintonizado com o incremento do Comércio entre o Ocidente. Bizâncio  era, ao tempo, um dos maiores empórios de produtos que circulavam entre todos os do Hemisfério Norte, especialmente  a Império que, segundo a lenda, dois frades trazem em 552 para Bi­zâncio, escondidos nos seus bordões de bambu, as sementes ou ovos do “bombix mori” (o bicho-da-seda) e com eles a base do segredo da produção.
Com efeito, sendo a seda produzida fundamentalmente com base na “fibrína da seda”, uma proteína fibrosa obtida do casulo produzido pela lagarta do bicho-da-seda (conhecida também por sirgo ou bicho-do-sirgo) compreende-se a importância de que se reveste este bicho, bem assim como as amoreiras, já que é das suas folhas que se alimenta enquanto prepara o tão apetecido casulo.Com base na experiência portuguesa, que encontrou na região de Trai-os –Montes e Beira Alta o seu principal centro de produção, vejamos como tudo se processava. A amoreira, depois de plantada, necessitava de, pelo menos, cinco anos para cumprir plenamente a sua alimentação enquanto alimento do sirgo. Este cumpria um ciclo anual iniciado na Primavera, que assegurava uma ocupação contínua das mulheres na criação do bicho, extracção do fio e tecelagem da seda. loc cit. Todos os anos os ciclo se repetia. Entre Maio e Junho o bicho-da-seda nascia dos ovos que muitos meses antes haviam sido libertados pelas borboletas. Colocados em tabuleiros sobre as folhas de amo­reira que as moças já haviam recolhido previamente, e que não se cansarão de recolher durante as semanas seguintes, tal é o apetite da pequena lagarta que, depois de mudar várias vezes de aspecto, inicia a construção do casulo, também conhecido na região por “folhelho”, que o ocupará nos 10/15 dias seguintes.
Para o auxiliar nesta operação, as raparigas colocavam nos tabuleiros a “arçã” (Lavândula pedunculata), pequenos ramos de uma espécie de carqueja que facilitava a fixação do casulo. loc. cit. Contudo, desde os tempos mais remotos, a seda continuou e ser um dos produtos naturais mais cobiçados desde o Oriente (China e a Mongólia), como as oscilações de poder no Oriente desses tempos. “Já depois da queda do Império que, segundo a lenda, dois frades trazem em 552 para Bi­zâncio, escondidos nos seus bordões de bambu, as sementes ou ovos do “bombix mori” (o bicho-da-seda) e com eles a base do segredo da produção. Com efeito, sendo a seda produzida fundamentalmente com base na “fibrína da seda”, uma proteína fibrosa obtida do casulo produzido pela lagarta do bicho-da-seda (conhecida também por sirgo ou bicho-do-sirgo)  compreende-se a importância de que se reveste este bicho, bem assim como as amoreiras, já que é das suas folhas que se alimenta enquanto prepara o tão apetecido casulo.Com base na experiência portuguesa, que encontrou na região de Trai-os –Montes e Beira Alta o seu principal centro de produção, vejamos como tudo se processava. A amoreira, depois de plantada, necessitava de, pelo menos, cinco anos para cumprir plenamente a sua alimentação enquanto alimento do sirgo. Este cumpria um ciclo anual iniciado na Primavera, que assegurava uma ocupação contínua das mulheres na criação do bicho, extracção do fio e tecelagem da seda, loc cit.
Todos os anos o ciclo se repetia. Entre Maio e Junho o bicho-da-seda nascia dos ovos que muitos meses antes haviam sido libertados pelas borboletas. Colocados em tabuleiros sobre as folhas de amo­reira que as moças já haviam recolhido previamente, e que não se cansarão de recolher durante as semanas seguintes, tal é o apetite da pequena lagarta que, depois de mudar várias vezes de aspecto, inicia a construção do casulo, também conhecido na região por “folhelho”, que o ocupará nos 10/15 dias seguintes. Para o auxiliar nesta operação, as raparigas colocavam nos tabuleiros a “arçã” (Lavândula pe­dunculata), pequenos ramos de uma espécie de carqueja que facilitava a fixação do casulo., loc. Cit. O mais importante, segundo a nossa perspectiva, é reconhecer de facto e de jure que o mundo esteve sempre ligado por interesses comuns e mutuamente vantajosos para as partes em presença. Quando alguém por aí escreve distraidamente que Portugal descobriu isto e aquilo e deu a volta ao Mundo, tendo descoberto muitas ilhas, nações, povos, culturas e religiões que os Europeus, incluindo os Portugueses ignoravam que existissem. Isto tem a ver com os nossos líderes políticos e religiosos, de preferência os últimos, que pensavam que tinham só para eles um Mundo Novo a descobrir, a Partilhar ou colonizar. Mas, tudo isto apenas no sentido material, porque espiritualmente, os povos do Oriente desde há muito que tinham  a  chave do Conhecimento  e do mundo em todas as direcções.

Vinte anos

 Menã
colaborador

 
Precisava tanto de poder dizer-te
Quanto valem hoje os teus vinte anos,
Que poder terão, para ti na vida
Para que não tenhas nunca desenganos.

Serão tudo aquilo, que deles esperas?
Serão esse sonho, que tu queres viver?
Vais falar ao mundo, do contentamento
Que tu hoje tens, e não queres perder?

Então que teu sonho, ultrapasse os tempos,
Que fique em teu peito, gravado este dia
Para recordares pela vida fora
Que vale a pena, toda a fantasia.

Eles serão hoje, o sol do verão,
A noite que chega com o seu luar,
A lua que brilha, ao romper do dia,
São a primavera quando vão chegar.

São aquela brisa nos dias mais quentes,
São as águas  límpidas  que saem das fontes,
São os pasarinhos que fazem os ninhos,
São o roxinol, cantando nos montes.

São as andorinhas que chegam felizes,
São a madrugada surgindo para a gente,
São aquela mãe, que amamenta o filho,
São o pôr do sol, que é sempre diferente.

São os vinte anos da transformação,
Do querer da vida, para seguir em frente.

Parabéns amiga, nos teus vinte anos,
Já podes sorrir e até a sonhar,
Que sejas feliz pela vida fora
É tudo que eu posso, para ti desejar.

 

CS4298


“In vino veritas”

Lima Barreto
Colaborador

No vinho está a verdade, diz-nos este provérbio latino. Mas antes de falarmos de vinho, temos que falar de verdade. O que é a verdade?
Na filosofia vem dito que a verdade é o encontro da razão com o nosso conhecimento; é também a “mentira necessária” para descodificar dúvidas difíceis. A dúvida é já o começo da convicção. E o maior erro do mundo é o facto de os tolos estarem tão seguros de si e os sensatos tão cheios de dúvidas. Voltando ao latim, encontramos expressões interessantes, tais como: “veritas rei”; “veritas in essendo”, opostas pelos escolásticos, “veritas intellectus” ou “veritas in cognoscendo”, isto é, a ordem da verdade das coisas está no seu próprio percurso, no conhecimento e no intelecto. Mas a verdade também só existe quando a mentira se inventa e uma mentira vale mais do que todo o dinheiro. Já se ouviu falar de alguém que tivesse corrompido outro para dizer a verdade?
Mas porquê associar a verdade ao vinho? E logo nós que na bacia limiana temos vinhos fabulosos, sobretudo os loureiros. O vinho no bago tem o olho da verdade, porque, de facto, no bago existe só um olho, enquanto no homem temos dois olhos: um para a verdade e outro para a mentira. O olho do vinho é como o nosso coração que tem ao mesmo tempo corpo e alma.
Não falamos até nos “vinhos espirituosos”? Nos verdes e nos maduros; nos quentes, nos vinhos da videira e nos vinhos da torneira (os chamados vinhos de martelo).
Em Ponte de Lima há vinhos verdes broncos de excelência, enquanto os tintos são melhores na Ponte da Barca. E isto porquê? Por influências climáticas (micro-climas), recursos hídricos (hidrografia), diversidade geológica, biodiversidade (florestas, matagais, rochedos, flora e fauna), enfim, tudo junto, solo, paisagem e gestão da biodiversidade, fazem com que as castas desses vinhos verdes limianos dêm um perfume à viticultura do Lima, muito especial, porque a sua prática ancestral remonta muito antes da sua ocupação romana. São, por exemplo, famosos os vinhos de Refoios do Lima, desde 1710, dados encontrados no Tombo Velho do Cartório do Convento de Refoios, hoje pertença do Politécnico de Viana.
Portanto, o vinho, desde a Antiguidade e com muita mitologia anexa, foi sempre o símbolo da força e associado ao sangue, o símbolo da bebida da imortalidade. Em Roma, o Deus Baco era o símbolo supremo do vinho. Ainda hoje, quando visitamos Las Vegas, em Nevada, próximo da Califórnia, existe um dos mais castiços casinos, todo em mármores italianos, com uma gigantesca estátua erigida a Baco, que jorra vinho, dia e noite, para gaúdios dos visitantes.
A sub-Região do Lima é considerada hoje uma das mais prestigiadas para a região demarcada dos vinhos verdes.
Elevado nível qualitativa, por conjugação de factores naturais e humanos, com características “suis generis”, de vinhos leves, furtados, aromáticos, e nos tintos, encorpados. Portanto, o vinho, sendo na Antiguidade, também um mito dionisíaco, entre os Hebreus e com a figura bíblica de Cristo, ele entrou no sagrado. Como nos diz o livro “Cântico dos Cânticos” do Antigo Testamento, “levem-me à adega que lá eu encontro a sabedoria”.
Para Clemente de Alexandria o vinho está para o pão, como a vida contemplativa e a gnose estão para a vida activa e para a própria fé.
Na tradição bíblica (Eclesiástica e Génesis) o vinho era o símbolo da alegria, a bebida dos deuses, e muitas vezes o melhor “licor” para os eternos bêbados que persistem em tê-lo como o autêntico pão. Vinho é sangue da uva, mas também e sobretudo para os pobres, é o pão mais apetecido das suas mesas.
O Alcorão também atribui ao vinho vários versículos: “o senhor nos fará beber uma bebida pura”, ou então “dar-lhe-ão a beber um vinho perfumado”. Um grande místico pagão associou sempre o vinho ao bebedor e ao escanção. Dizia esse pagão “bebe o vinho, pois a taça é a face do teu melhor amigo”
É também um bem cultural. A alma sente o milagre do vinho. Todos nos recordamos das Bodas de Canáa e o milagre da transformação da água em vinho. E quase parecido, ressalvando as simbologias – cristã e profana – o mesmo que se passa com os que fazem ainda hoje o “vinho a martelo”.

 

Bem prega Frei Tomás (II)

 
Franklim Fernandes
Colaborador

Por deferente amabilidade de um Irmão, foi-nos facultado um exemplar dos Estatutos da Irmandade de Sto. António da Torre Velha, entidade promotora de uma acção de protesto contra a (re) construção do bar do Arnado, na vila de Arcozelo, que o Município de Ponte de Lima está a levar a efeito após pavoroso incêndio que destruiu inteiramente a estrutura anterior.
Sendo pública a con­cretização da principal pretensão da confraria, a paralisação dos trabalhos, a leitura dos estatutos forneceu alguma luz sobre a alegada legitimidade da instituição na assumida posição de confronto com a autarquia e uma grande franja da opinião pública (apesar de numericamente não aferida por qualquer abaixo assinado), responsável pela grande polémica desencadeada em torno da questão.
Desde logo, dessa leitura ressalta um facto muito mais polémico, criador de maiores confrontos e divisões de opinião: os estatutos definem como proprietário do Campo do Arnado a própria Irmandade. E é daqui que supomos advir a pretensa legitimidade de intervenção da confraria, sendo questão nova como novos são os actuais estatutos.
Esta assumida presunção de posse é desconhecida da maioria da opinião pública que sempre julgou, e tem por dado adquirido, que o proprietário é o Município. E, se assim for de facto, estaremos perante uma audaciosa usurpação de direito de propriedade capaz de vir a causar, no futuro, graves questões entre a Igreja e o poder civil, de imensuráveis danos cola­terais devastadores para a acção pastoral da própria Igreja.
O Código Civil, definindo a posse como o “poder que se manifesta quando alguém actua por forma correspondente ao exercício do direito de propriedade ou de outro direito real”, define também como se adquire o direito de propriedade não se encontrando, nas várias formas de aquisição, a mera proclamação desse direito nem que seja pela via de quaisquer estatutos.
Ora, é do conhecimento geral que a posse do Campo do Arnado está a ser exercida, pacifica e con­tinuadamente, pela Câmara Municipal desde tempos imemoriais, disponibi­li­zan­do-o como local público de lazer, aí colocando mesas e bancos de pedra, derrubando e plantando árvores perenes, implantando a estrutura do bar desde os tempos do falecido Sérgio Pinto, dele cobrando rendas, adquirindo os terrenos contíguos, ocupando o espaço como bem entende, cedendo-o à Comissão de Festas das Feiras Novas que dele retira dividendos logísticos e monetários, pavimentando os acessos, vedando o próprio Campo, e, sobretudo sobre ele tendo exercido título de posse por usoca­pião há cerca de trinta anos, tudo sem qualquer aviso ou oposição da Irmandade quem, de forma visível e reiterada, jamais exerceu qualquer forma de posse para além da efé­mera passagem de uma procissão anual tal como passa pelas ruas de Além da Ponte sem que daí advenha qualqer presunção de propriedade sobre elas.
Parece-nos, pois, muito estranha esta posição que ameaça descambar para fortes batalhas judiciais sem honra nem proveito, com as funestas consequências que se adivinham para a credibilidade da Igreja que legitima a instituição con­testatária sendo que, apesar de tudo, é a Igreja estruturalmente inocente nesta causa cuja responsabilidade moral  será cometida aos defensores da peregrina ideia de conquista deste território, como os Cruzados da Idade Média que lutaram pela defesa dos lugares Santos de Jerusalém contra as investidas dos Sarracenos. A Guerra foi declarada!
Não resistimos a transcrever parcialmente os principais objectivos e princípios da Irmandade que deveriam ocupar todas as energias dos membros da Mesa Administrativa ainda em funções, desperdiçadas em actos subterrâneos fo­men­ta­dores de discórdia e de aviltamento da doutrina social da Igreja e da caridade fraternal que preside à regra franciscana e à sua vertente antoniana:

“Artigo 3º”:

- A Irmandade, tendo em conta a doutrina social da Igreja, a acção pastoral diocesana e a sua plena integração na Paróquia (…) procurará:

1. Promover  formação cristã dos Irmãos por meio de… iniciativas que contribuam para o aprofunda­mento e celebração da fé, espírito de oração e crescimento na corresponsabi­lidade eclesial.

2.Auxiliar na cateque­se…

3.Fomentar uma liturgia participativa…

4. Desenvolver uma acção sócio-caritativa…

5. FOMENTAR ENTRE IRMÃOS E TODOS OS MEMBROS DA COMUNIDADE PAROQUIAL A UNIDADE QUE LEVE À EXPRESSÃO DE UMA VERDADEIRA COMUNHÃO ECLESIAL.

Belas regras! Sublime doutrina!
Com maior propriedade lamentamos repetir: - BEM PREGA FREI TOMÁS!

 
A hipoteca do futuro

Manuel Pires Trigo
Colaborador

Possivelmente um dia todos veremos o mundo da mesma maneira. Tal afirmação pode ser um absurdo, tanto como pode vir a ter algo de verdadeiro. Efectivamente ver o mundo da mesma maneira não é estarmos de acordo sobre tudo, percorrermos todos o mesmo percurso, procedermos de forma a copiar todos os outros. É apenas um compromisso pessoal leal.
Ver o mundo da mesma maneira nem é sequer termos todos igual responsabilidade porque temos diferentes funções, somos escolhidos ou assumimos essas funções na maioria dos casos sem a intervenção directa ou sequer indirecta da maioria dos outros. Mas é fazermos com que os nossos erros não comprometam os outros e não nos escondermos debaixo de qualquer guarda-chuva pessoal ou colectivo.
Temos que, desde logo, afastar dos nossos propósitos qualquer tentativa de obter comportamentos uniformes. A diversidade será maior numas sociedades do que noutras, mas o caminho não é regressar a uma hipotética unicidade que possa ter existido, antes chegar a uma situação em que a diversidade já nada tenha a ver com hipotéticas origens sociais.
A diversidade é já hoje aceite, incentivada, benéfica em todos os aspectos da vida, desde o social ao profissional e toda a vida prática. Diferente é a desigualdade, entendida no seu aspecto mais grave que é a diferença de base, de nascença até àquela que deriva da utilização de meios desonestos, mesmo que a aparente legalidade esconda uma evidente ilegitimidade.
Só teremos uma visão única do mundo quando não houver um litígio permanente entre a legalidade e a legitimidade. Interesses suspeitos ainda fazem que o legal muitas vezes não seja legítimo e por vezes o que seria legítimo ainda não é legal. É essencial a semelhança entre estas duas visões para resolvermos muitos dos conflitos que nos percorrem o nosso espírito. Ao agravar-se a diferença está em causa a razoabilidade e a condescendência no nosso relacionamento com os outros.
Chegaremos talvez ao ideal no dia em que ao olhar para o outro não necessitemos de saber quanto ele ganha, em que as nossas diferentes opções de vida se não devem às diferenças de rendimentos, em que cada um gerirá os seus proventos e não necessitará de tirar proveito de mim, nem eu olharei com concupiscência para o que houver no seu bolso.
O dinheiro, como elemento representativo, simboliza o princípio e o fim de toda a desigualdade, mas é essencial como elemento de troca. O problema é o seu entesou­ramento. Com dinheiro apostamos efectivamente e sem subterfúgios na competição com o objectivo de obter vantagens e não termos que apostar todos os dias na sobrevivência. Claro que mesmo sem dinheiro os animais conseguem formas de domínio.
Obviar a todas as formas de desigualdade congénitas é colocar a partilha onde há a exclusividade, a colaboração onde há competição. Não podemos acabar com o dinheiro, mas também não necessitamos de acabar com ele desde que fixemos regras precisas para o seu uso e entesou­ramento. Tal não passa por acabar com a bolsa ou por outras ideias retrógradas, mas por recentrar a riqueza sobre o trabalho.
A riqueza que assenta na posse de bens (titulados ou não), ou de dinheiro é temporária e mesmo ilusória. Os bens de utilidade imediata são riqueza efectiva mas são poucos, a maioria exige uma ou várias conversões para que se obtenha um bem de uso e isso implica a aplicação de trabalho numa ou em mais fases de transformação. Esse trabalho é que é a verdadeira mais valia. É irrelevante o valor atribuído aos bens naturais. Por outro lado os títulos representam no geral combinações de bens de características e com incorporação de trabalho diversos.
O preço dos bens originais anteriores ao trabalho é determinado pela guerra ou por outra qualquer forma de domínio e pode ser resolúvel por via pacífica como o prova a constituição da Comissão Europeia do Carvão e do Aço que, formada depois do fim da 2ª guerra mundial, veio resolver uma questão secular de conflito permanente. Resolvido este, concluímos que só o trabalho vem a dar valor à matéria bruta. O trabalho livre porque a escravatura é apropriação semelhante à dos bens naturais.
O dinheiro entesou­rado é uma hipoteca sobre o futuro. Sem futuro nada vale e o futuro, tendo de pagar tanto para sustentar o presente, derrapando sobre a ávida riqueza de hoje um juro tão usurário, mais tarde ou mais cedo impõe uma retirada de valor à hipoteca. O futuro é capaz de retirar credibi­lidade aos valores creditados sobre ele. Os títulos que representam esse futuro são facilmente desvalorizados.
Depreciam-se os bens que se esperava fossem os geradores da riqueza futura. Deprecia-se o próprio dinheiro se não tiver um Estado forte que o segure como referência. Quanto menos expectativas menos rentabilidade futura é esperada e mais sobrecarga se exerce sobre o trabalho de hoje. Este, não podendo cor­responder, faz diminuir a renda significativamente.
Mas, sendo hoje o dinheiro o valor de referência, não se deprecia por ele mesmo, caindo a depreciação sobre os bens por serem geradores de menor valia. Se o trabalho envolvido no processo de transformação desses bens não aceita ser depreciado então é o capital que vê reduzidos os seus rendimentos. Se o dinheiro se depreciasse também o trabalho o seria.
Em cada momento não há distinção entre capital industrial e capital financeiro porque as transferências são fáceis. Foi a conversão do capital industrial em títulos que o tornou ainda mais vulnerável do que o capital financeiro. Este pode reduzir a sua rentabilidade mas tenderá a desequilibrar em seu favor qualquer partilha da hipoteca sobre o futuro. Todo o capital financeiro depende do trabalho futuro.

 
Lembranças da minha rua

Menã
colaborador

 
Passas na rua, na minha rua,
Com as saudades que ela merece
Falas com ela ao romper do dia
E na madrugada dela te esqueces.

A minha rua, já foi alegre,
Agora é triste e tem saudade,
Tanto lhe quero, quero-a p’ra sempre
Por isso lhe mando a minha amizade.

Prédios velhinhos, as portas caídas
Os vidros partidos telhado no chão,
Assim a encontra quem passa por ela
Com muita saudade e desilusão.

Já falei com ela e fiquei mais triste
E com muita mágoa a compreendi,
Falou-me dos tempos em que era bela
E dos namorados que eu conheci.

Agora e o que resta desta minha rua
É uma lembrança que não vou perder,
Como o reviver de todo o passado
E muita ternura por não a esquecer.

 
“Loucuras de Verão”

Jaime Franco
colaborador

Chegou o Verão,
Chegou o calor,
Chegou a ocasião,
De viveres o amor.

De usar mini-saia,
E fio dental,
De ir para a praia,
Fazer o integral.

Bronzear o corpinho,
De frente e de costas,
Mostrar o rabinho,
Como tanto gostas.

De ir ao bailarico,
Com um par jeitoso,
E regar o manjerico,
Que está sequioso.

De ir ao cinema,
Ver filmes de amor,
E repetir a cena,
Tudo ao pormenor.

De ir ás discotecas,
Beber e dançar,
E dar umas  quecas,
Á luz do luar.

De ir aos arraiais,
Ou a outro evento,
E fazer algo mais,
Viver o momento.

Beber umas taças,
Dar umas  beijocas,
Tirar umas passas,
Meter umas cocas.

Curar a ressaca,
De noite ao relento,
Ou ir para a barraca,
Ganhar novo alento.

O comércio da seda em Bizâncio (7)

João Gonçalves Costa
Colaborador

Alguns manuais e autores referem-se às Rotas da Sede, ou Caminhos da Seda, desde a Chia e praticamente todos os países onde fosse possível chegar em segurança. Preferimos falar, hoje, de Centros comerciais, onde a Sede tinha sempre seu lugar, desde os tempos mais remotos. Desta forma, o comércio das coisas materiais também andava muito ligado ao comércio espiritual e, muitas vezes, como ainda acontece hoje, é difícil separar um do outro pois ambos fazem par do desenvolvimento humano a todos os níveis e, simultaneamente, do próprio Planeta. Deixemos, portanto a perspectiva de Rota ou Caminho da Sede, porque ela chegava a todos os lados, mesmo a Portugal, como já se viu. Vamos, então, agarrar um dos mais importantes centros de comércio internacional onde tudo chegava e partia a bom preço pelos centros mais importantes do Próximo e médio Oriente e Europa. Bizâncio ocupava uma posição de relevo entre as Rotas do Oriente e as do Ocidente, devido ao facto desta Cidade se Ter tornado o Centro da Igreja Cristã, para onde eram chamados todos quantos tinham algum cargo ligado à Igreja. Nada temos contra o facto, apenas lamentamos que Constantinopla na se tenha tornada, a Cabeça da Cristandade, ou pelo menos aliada de Roma, mas não sua subordinada como se viu em vários Concílios, para onde eram mandados elementos facilmente do­máveis ou, então, aparentemente ignorantes do que iam fazer nos Consílios de Constan­tinopla Pois que eles nem grego sabiam ler nem interpretar).A principal fonte de rendimento do governo de então, em Bizâncio, era o comércio de tudo que circulasse entre os pólos já citados, mas fiscalizado pelo governo de então, onde as Sedas, especiarias, marfim da China e da Índia, peles de couro, couro, madeiras raras vindas do Sul da Rússia e dos países eslavos, obras de arte da Grécia, Macedónia, Egipto, Pérsia, Índia, China, África, etc. Se falássemos de animais de carga e tiro, isso então nunca mais acabavam. Estamos mesmo a ver que a Indústria de Bizâncio e Mar Negro tinham atingido o pico das riquezas comerciais. Onde também se trabalhava o ouro, a prata e a arte dos mosaicos (usado de representação de ícones de santos), tudo para dar mais valor à própria seda. Com tanta riqueza, a Igreja e os Nobres seus aliados podiam dar uma boa formação escolar, artística e científica, em comparação com o que acontecia na Europa Ocidental, onde as classes nobres eram, em regra, mais pobres e os restantes eram os seus servos da gleba. Para estes, a indumentária tinha que ser de segunda ou, por vezes, quase nula. Porque a terra andava cansada e produzia mal, pouco e não havia tecnologia adequada para aumentar a produtividade. Depois da entrega do poder dos Césares à Igreja, no Ocidente, muitos tinha de se alimentar de raízes ou verduras mal amanhadas, quando as ordens Religiosas não podia socorrer. Portanto, mercê de melhores condições, a Igreja Bizantina esteve sempre no top, quanto a riqueza material e artística. Daí que Constantinopla se tenha tornado um dos maiores centros Culturais, artísticos e, até, religiosos, do Mundo antigo, tendo conseguido chegar da Grécia à Moscóvia, onde deixaram, onde levar a Língua e a Arte Gregas, a Cultura e a Espiritualidade. É interessante constatar que, segundo textos sagrados, a última reencarnação de Jesus Cristo (sob o nome de Apolónio de Tiannes), que voltou ao Mundo das formas na Região da Capadócia, não muito longe de Bizâncio. A maioria dois caracteres do Alfabeto Russo são de origem grego, introduzidos nesse grande país por S. Cirilo daí a designação de escrita cirílica).
Nas Igrejas Bizantinas não hás estátuas nem esculturas pintadas à moda do Ocidente. Tudo é reproduzido por pequenos ícones, pintados sobre madeira, cercados por uma extensa aura de pequeníssimos mosaicos com rosto sóbrio e nada de tristeza nem de ocultação dos elementos em determinadas datas. Daí que também não tenha pegado a moda de andar com o Cristo morto elas ruas. Alguns autores referem-se ainda a Seda Inglesa, Seda Chinesa e Seda Francesa, esquecendo a Seda Portuguesa. Na realidade, a cultura do bicho e a manufactura da seda, em processos rentáveis ainda eram escassos, nos princípios do séc. 800 onde alguns artífices começavam a desenvolver  algumas indústrias familiares ou locais, mas ainda mal se distinguiam da pequenas indústrias, com pessoal de casa, pouco expedito para manter uma indústria de seda no género daquela que vinha sendo desenvolvida alguns séculos antes de Cristo. Na cidade de Lião, no Sul da França, em 1780 cerca 800 de artífices para trabalhavam na seda para apenas 48 mercadores de sede. Mesmo com estes trabalhadores, que já constituíam uma empresa média, o trabalho era feito habitualmente em casa de empregados, que era uma forma conhecida por “sistema de artesanato doméstico”. Na década de 1720 fábrica de seda de Thomas Lombe, em Derby, U. K. já empregava várias centenas de empregados. Tudo começava a desenvolver-se, à medida que se desenvolvem as máquinas necessárias para a sede e outros produtos. Quanto ao desenvolvimento da Sericultura em Portugal, especialmente na Região Beirã e Transmontana, os estudos ainda são inci­pientes para demonstrar, em remos económicos e estatísticos) a importância desta tão interessante indústria que, possivelmente, muitos ignoravam que tenha existido, como está provado pela Museu da Sede, em Braganção e pela Cooperativa de Sericul­tores de Freixo.

O mistério do Dr. Manuel Alegre

 Antero Sampaio
Colaborador

Para mim, um modesto analista político, a figura imponente do Dr. Manuel Alegre, é um mistério.
Embora  seja um militante de peso do Partido Socialista e Vice-Presidente da Assembleia da República, desde o começo do consulado do Engº. José Sócrates, no Parlamento e fora dele, o Dr. Manuel Alegre tem criticado a política do Primeiro Ministro. Mesmo nas votações, na casa da democracia, onde o P.S. tem a maioria absoluta, enquanto os seus pares fazem sentir o seu peso político, o Dr. M. A., ou se abstém ou vota contra. E isto acontece, porque este político entende que este Partido Socialista, em vez de fazer política de Esquerda, está a praticar uma política que serve a Direita, contrariando os seus princípios de militante do P.S. e do seu passado anti­fas­cista.

Para as próximas eleições, o Dr. Manuel Alegre já não fará parte das listas de deputados à A.da R. pelo Partido Socialista. Isto quer dizer que, quer o P.S. ganhe ou não as eleições legislativas, aquele político não será deputado nem Vice-Presidente da A. da R.. “Vai andar por aí”, como disse um conhecido político do PSD.
Posta de parte esta eleição, resta ao Dr. Manuel Alegre, esperar por 2010, para voltar a concorrer à Presidência da República.  Será que este político espera ser o candidato que o P.S. vai apresentar para disputar a eleição com o Dr. Cavaco Silva? Ou terá de mais uma vez, concorrer so­zinho?
Toda a gente sabe que o Dr. Manuel Alegre é um “socialista de primeira água”, que é fiel aos seus princípios socialistas, que não pactua nem pactuará com políticas de Direita. Também sabemos que este político tem pautado a sua conduta pela defesa intransigente das classes mais desfavorecidas: os desempregados, os pobres, os que têm fome de justiça, etc.etc., contrariando assim a política deste governo que, na sua opinião, favorece os grandes grupos econó­micos, em desfavor das reformas sociais. Por isso, é com tristeza que eu vejo o abandono  da cena política, do Dr. Manuel Alegre.
Na crise em que Portugal está mergulhado, a existência de personalidades políticas com a craveira intelectual do Dr. Manuel Alegre é sempre salutar e é, ao mesmo tempo um enriquecimento da nossa Democracia. Pode ser que ainda pense mudar de opinião e regressar à Assembleia da República, com aquela  figura imponente dum tribuno, admirado e respeitado por todas as forças políticas.


CS4298


Rotary e Lions – clubes de serviços


Lima Barreto
Colaborador

Existem em quase todas as vilas e cidades e funcionam com compa­nheirismo, no serviço à comunidade.
São estas instituições apelidas de elitismo e isso é um pouco verdade, mas não de todo: juntando médicos, engenheiros, bancários, comerciantes, industriais e até alguns indiferen­ciados. Ambos têm co­mo lema o serviço. Mas qual serviço: normalmente rastreios ofta­mológicos, apoio específico a caso de deficientes a quem doam, por exemplo uma cadeira de rodas, mas esse serviço tem uma matriz que vai de  encontro à sintonia das profissões dos ditos “companheiros”. Não é nunca um serviço que tenha a ver com “caridade”, mas antes com uma dualidade de critérios: alguns ganhos de promoção social  e o ilícito de serem quase uma “confraria” de bem fazer. Mas não. Eles são laicos (dizem até que os rotary tiveram alguma ligação com a maçonaria, na sua origem “genética”) mas isso nunca foi comprovado.
Um serviço e uma acção que esses indivíduos respeitáveis realizam e de que outros indivíduos  à partida carentes de qualquer coisa, tiram uma vantagem qualquer.
Na prática, a vivência destes clubes, resume-se mais a jantares de confraternização, promovem conferências ou colóquios e distribuem algumas “benesses”  por quem eles determinam que têm necessidade.
A sociologia tem por objectivo as diversas maneiras como os homens obtêm os serviços de outros homens, ou mais geralmente, como os seres vivos obtêm os serviços de outros seres vivos. Mas nestes clubes, a prestação dum serviço nem sempre justifica o valor desse serviço, mas antes a sua  oportunidade.
Falamos já em sociologia que é uma ciência que trata do social, da sociedade, dos grupos e dos factos ou acontecimentos sociais. Aí, os clubes em questão não têm uma dinâmica social do progresso, mas talvez tenham uma dinâmica de ordem social, de ordem social, de equilíbrio de interesses sociais e até culturais, sem que exista uma filosofia subjacente a tudo isto, a não ser o simples pretexto de ser prestado um serviço mais ou menos relevante, quase como um “ tapa buracos” sem se ser propriamente um cantoneiro da sociabilidade. Reina e predomina o colectivo sobre o individual, o que é já uma referência importante, mas no sentido nor­mativo, esse serviço lionista ou rotário não e especificamente virado para progresso da sociedade, mas antes e só para o seu aperfeiçoamento e colmatar de algumas lacunas mais visíveis e por vezes apetecíveis existentes no tecido social, que por vezes, paradoxalmente, podem cair numa socio­latria, ou seja, no culto de uma sociedade específica, com limites definidos, algumas vezes até hieraquizados, no vínculo social, como a celebração colectiva que se leva ao serviço, de uma forma fundamentada em fenomenos sociais, quase como que esses clubes pudessem ser apelidos de “curso de filos” isto é, dinámica social sem progresso.
A sociologia trata da sociedade e como tal os clubes dos rotary e dos lions, estão organizados numa anatomia na fisiologia social, mas restrita a um discurso sobre o espírito positivo da solidariedade, sem nunca roçar o perjurativo que alguns actos sociais, assumem, quando para culto das personagens; claro que isto não é a essência destes clubes e pode cair, por vezes, naquilo que eles podem ter de supérfluo.
Os clubes assim formados não funcionam como uma sociabilidade de imitação, mas antes de antecipação. Não são dirigidas propriamente a “sociedades menores” razão pela qual afastamos deles o cariz caritativo; agem no corpo dos indivíduos sucessivos, sem que essa sucessão lhes destrua, quer a doutrina, quer a continuidade do seu trabalho, que é o serviço por servir e não o serviço como um todo real, mas antes como o conjunto de relações reciprocas entre indivíduos ou colectividades, sem a busca da notoriedade social, que ás vezes é quase uma “evidencia parda” infelizmente. Eles são uma organização simples, nada complexa, estável nas relações de um companheirismo um pouco “diplomático”. São associações (clubes) quase sociais mas não verdadeiramente sociáveis.          

 
As mentiras e os cornos

 Antero Sampaio
Colaborador

Segundo um artigo publicado num jornal diário, “se as mentiras valesssem tanto como um par de cornos, já não havia ministros. Nem Primeiro Ministro”.
Isto quer dizer que a maioria dos políticos, sobretudo daqueles que têm responsabilidades governamentais, quando interpelados pela oposição, na Assembleia da República, a Casa da Democracia, como lhe chamou o Presidente da República, passam a vida a dizer que fizeram mundos e fundos, que o governo tem governado  de acordo com o seu programa, etc. etc. Em resposta, a Oposição passa a vida a chamar-lhes mentirosos , que prometem e não cumprem, que o que hoje é verdade, amanhã é mentira e assim se passam os encontros entre o Governo e a Oposição. A prova mais evidente do que acabo de dizer, foi o último Debate da Nação, em que o Governo que tinha prometido os TGVÊS, a Terceira Travessia sobre o Rio Tejo, o Novo Aeroporto e uma nova Autoestrada Lisboa-Porto, informou os deputados de que todos estes projectos tinham sido adiados para depois das eleições legislativas. Isto é, se o PS ganhar as eleições, estes projectos seguem em frente. Se for o PSD a formar Governo, estes projectos serão executados ou não.
Como o PS perdeu as Eleições Europeias, o governo actual não se quer comprometer com projectos que, no caso de perder as eleições legislativas, não poderá executar.
Creio que uma das principais vítimas, das trapalhadas deste Governo,  foi o ex-ministro Dr. Manuel Pinho. Falando aos empresários, declarou que a chamada crise já tinha passado, quando isso não é verdade, pois a crise continua. Depois, no estrangeiro, pediu mais investimento, dizendo que em Portugal a mão de obra era barata. Isso também não é verdade, pois, nos sectores mais produtivos, os trabalhadores tem salários de acordo com as responsabilidades e habilitações académicas. Veja-se o caso da Auto-Europa. No entanto, aquele Ministro tem a seu crédito, muitos investimentos que colocaram Portugal nos primeiros lugares da Europa e  a luta que ele travou para evitar a falência de várias empresas, algumas já muito antigas, com muitos trabalhadores.  Infelizmente foi traído por aquele gesto dos adornos dum animal quadrúpede, ruminante, que nos dá o leite e a carne,  que motivou o seu pedido de demissão.
Termino como comecei. “Se as mentiras valessem tanto  como um par de cornos, já não havia ministros. Nem o Primeiro Ministro escapava.”. Quem assiste aos debates televisivos, entre o Governo e a Oposição, o que vê: uns a dizer que é verdade, os outros a dizer que é mentira. Chamam a isto “debate político”… Não há dúvida que a Democracia, não sendo uma forma de governar perfeita, ainda é a melhor.
Será?


Gaivotas

Maria Alice Martins
colaborador

 

Manhã de sol.

As crianças brincam na praia

As bochechas rosadas

Da brisa fresca do mar

No olhar a alegria de criança

Crescer e ser feliz

Aproximei-me e dei um chuto

Na bola de trapos

Com que brincavam

Já de mãos dadas

Fomos passear junto ao mar

Olhando as ondas

Que faziam castelos de espuma

Bandos de gaivotas

tantas de pasmar

O peixe na lota

Fresquinho a saltar

Pescadores sorrindo

De rosto enrugado

Da vida no mar

Uma esperança nasce

Em cada criança

Que haja bonança

Para ir e voltar.

 

Os municípios multiusos

 
Manuel Pires Trigo

Colaborador

A função tradicionalmente desempenhada pelos municípios está profundamente aumentada e em alguns aspectos adulterada sem que a Lei diga expressamente se é legal ou não. O município, como or­ganizador de alguns aspectos da vida colectiva, viu com a democracia e com a nova visão que esta trouxe ao municipalismo, muito aumentadas as suas competências e apropriou-se doutras. São os municípios multi­fun­ções, vulgo multiusos.
Também perdeu algumas prerrogativas principalmente por efeito da sua escala, no geral pequena. Um bom exemplo é o dos matadouros municipais extintos por força da criação de unidades de âmbito mais vasto, mais rentáveis, mais saudáveis, mais funcionais. Também nesse sentido se desloca a gestão da água e resíduos, a necessitar de muitos investimentos e de ganhos de escala
Os municípios também se têm visto livres de áreas tradicionais entregando a sua gestão a privados. São os serviços de limpeza, jardinagem, transportes, etc. de que muitos municípios abdicam por concessões temporárias e condicionadas. Outra via é a criação de empresas municipais com alguma autonomia de gestão. A dimensão dos municípios é determi­nante nas opções feitas, mas não há regras quando à opção a fazer genericamente aceites.
Do lado dos ganhos temos uma cada vez maior capacidade de intervenção na gestão do território através de planos directores periodicamente revistos e alterados. Ultimamente os municípios passaram a ter uma intervenção acrescida na área do ensino, na reorganização e gestão escolar. E além disso têm recebido da administração central muitas competências a nível de quase todos os ministérios por via da sua descentralização.
Quanto às novas áreas de intervenção os municípios grandes são no geral mais tradicionalistas, talvez porque tenham um aperto orça­mental mais elevado. Os municípios pequenos, que têm hoje um desafogo orçamental superior ao de algum dia, são os que mais se aventuram por novas áreas de intervenção e até de negócio. Muitos passaram a investir os seus excedentes orçamentais em equipamentos de cujo aluguer usufruem.
É o caso de Ponte de Lima que se destaca na criação e gestão de equipamentos da área da hotelaria. A Câmara já é o maior empresário desta área, alugando restaurantes, cafés, residências, parques de campismo, bicicletas. O que era impensável há anos, ou se entendia como actividade residual, é hoje uma das principais actividades deste órgão de gestão autárquica. No entanto a Câmara está a intervir num sector em que esta concorrência era dispensável.
Em simultâneo vemos desenvolver outras actividades já suficientemente difundidas por outras localidades como é a organização de festas, ora rebaptizadas de eventos de todo o género festivo. O município remete todos estes eventos para a área cultural, embora seja mais que contestável esta qualificação. O povo gosta, o problema é os artifícios que se fazem para contornar a Lei que não permitiria esses dispêndios tão avultados em estrelas de duvidosas qualidades, em espectáculos de pouca valia artística.
Efectivamente está na moda que os municípios criem associações ou sociedades de direito privado de que são o único accionista e para as quais transferem avultadas verbas cujo gasto se torna assim mais opaco, menos sujeito ao escrutínio político. Nessas associações tipo “Comissão das Feiras Novas” não há o mesmo rigor contabilístico, a mesma transparência que hoje se exige à afectação de dinheiros públicos.
O que está em causa é a alteração drásticas do municipalismo que, embora sempre possa ter subsidiado a realização de festas tradicionais, nunca foi o seu principal promotor e divulgador, muito menos criador de novos eventos. Hoje o município concorre com outras iniciativas da sociedade, realiza eventos em simultâneo com realizações tradicionais mais dispersas mas mais significativas para as pessoas das terras onde ocorrem e consegue subalternizá-las.
Há ainda o problema do tipo de eventos que se promovem ou patrocinam. Também os há de carácter mais saudável, mas muitos são nitidamente quase desprezíveis, atractivos para os indivíduos mais marginais, mais anti-sociais. Além de as iniciativas municipais não deverem competir com outras de índole privada, por mais rentáveis que elas possam ser, também não devem abranger temáticas desa­justadas do ambiente local. Até a inovação tem limites.
As contas de todas as iniciativas municipais neste âmbito deveriam ser do conhecimento público para que se não pense que há iniciativas grátis, que há políticos beneméritos, porreiros e outros forretas, uns tristes. Até nesta área, mesmo que aceitemos integrá-la nas competências municipais, há melhores maneiras de gerir o dinheiro. As actividades lúdicas devem ser dinamizadas doutro modo, criando de preferência condições para que a iniciativa privada as promovam.
Dinamizar actividades puramente culturais seria mais louvável, mas decerto seria mais problemático ter qualidade e adesão apropriada. Mas o principal senão é que os agentes culturais não raro se deixam levar pelo vício da subsidiação. Nos nossos municípios há imensa gente pendurada como se tivesse mérito cultural para lá estar. Simplesmente o seu trabalho é invisível, muitas vezes não se lhes vê o cheiro. Ainda falta saber o que é cultura para muita gente.
Os problemas dos vários municípios são hoje muito iguais e também são idênticas as ambições de cada um. Além desta dedicação ao entretenimento todos quererem um “multiusos” para si, mesmo que haja um deficientemente utilizado a escassos quilómetros Não existe planeamento, discussão sobre a melhor localização dos equipamentos, forma de evitar desperdícios.
Muitos atribuem esta duplicação de equipamentos à falta de regiona­lização, mas tal não serve de desculpa. Há elefantes brancos que o bom senso recomendaria se não fizessem. Os custos do seu não funcionamento vêem a penalizar futuras administrações. A solução para quem os têm é mesmo tudo fazer para lhes dar uso e utilizá-los para o desporto e a cultura e, porque não mas só depois, para actividades lúdicas, que os sectores privado e associa­tivo os podem aproveitar.

 

Recordações do rio lima

Menã
colaborador

 
Ai rio rio, ai meu rio lima

De tanto feitiço e de tradições,

De lendas antigas escritas nos tempos

De feitos históricos e recordações.

 

Recordo o passado que era risonho,

Recordo os tempos que eras leal,

Recordo a alegria dos jovens brincando

Quando conservavas o teu areal.

 

Recordo ainda em tempos passados

Essa tua fúria de tudo querer,

Recordo os tempos em que tu andavas

Pelas ruas dentro e sempre a crescer.

 

Recordo a beleza da tua largura

E das tuas ondas a subir ás ruas,

Recordo a pressa que sempre tu tinhas,

Recordo a gente e as amarguras.

 

Recordo agora o teu mau estado

E a sujidade que trazes contigo,

De rio amado ficaste mais triste

E abandonado sem teres um amigo.

 

Ópio e algodão substituem a seda na corte Ming (6)

 João Gonçalves Costa
Colaborador


Na China de antanho, as dinastias formavam-se, cresciam e autodes­truíam-se com o tempo e a usura. Lembramos a data do Grande Cão Mongol que quase tinha engolido o Mundo de então: 1227 foi uma data feliz para o Khan Mongol e uma libertação dos aguerridos e asselvajados mongóis de poucos sentimentos nem morali­dades. Para estes, a seda não tinha interesse, como já dissemos antes, porque estes não tinham palácio para se exibir com tais indumentárias fina nobreza. Agora, os chineses lançam-se sobre os terríveis Mongóis e constitui-se uma nova dinastia que ficou a chamar-se de Ming, que, em 1308, recolocara funcionários públicos competentes em pontos-chave do Estado. O governo Ming teve grande sucesso com as medidas tomadas em defesa do povo chinês, afastando para longe os corruptos aliados dos Cãos Mongóis. Nos mares, os Ming construíram uma enorme armada, cujo comandante Cheng  Ho, a partir de 1405, obteve um numeroso contingente de enormes juncos às suas ordens, em sete grandes expedições limpou das costas chinesas tudo o que restava dos Mongóis e seus aliados. Esta poderosa armada chegou bem longe nas suas expedições de limpeza: tendo alcançado a Índia, Ceilão (Srilanka), Arábia e África oriental.  Em 1434, tais expedições mudaram de táctica porque eram muito dispendiosas. Foi então que os piratas japoneses aproveitaram para penetrar ainda mais no Continente chinês. Através do Continente chinês, o povo continuava no seu afã de produzir riqueza, manter a ordem, domar os rios e os diques através do Grande Continente, que começava a receber outras culturas, outras plantas, outros frutos.
Três novas espécies apareceram para dar de comer aos milhões de povos antes escravizados pelos estrangeiros: apareceu o Milho grosso (Zea mayz), a batata doce (Ipomoea batatas) e o amendoim (Arachis hypogaea), espécies exóticas que desde logo começam a produzir frutos em abundância para alimento do povo e dos animas. Todo e qualquer canto ou colina era aproveitado para desenvolver estas novas culturas que pareciam ter caído do Céu a pedido dos Ancestrais Chineses. Além destes três espécies de fruto, os imperadores deram ainda grande impulso à economia da China, encorajando a cultura do algodão, trazido da Ásia Central (que agora vai tirar o lugar à cultura da Sede, que é mais lenta e com outras características. Logo e fiação e tecelagem do algodão, que trouxeram muita riqueza aos povos das cidades da bacia  do Iansequião. O progresso  e a prosperidade chegaram até às portas dos antigos inimigos do Norte, uma região devastada pelas sucessivas incursões de nómadas famintos e rudes. Nasceu uma nova capital para a China: Pequim (hoje Beigin), sobre os escombros da Velha Cambaluc, erguida pelos Mongóis. No ano de 1200, a população da China totalizava cerca de 100 milhões e, em 1600, ultrapassava já os 150 milhões, excedendo o total da Europa, na razão de três para dois. Uma vez mais a riqueza e o fausto atraía a Corte Ming para o desastre, devido aos excessos nas habituais despesas que levam à corrupção dos funcionários e dos seus chefes. Pelo ano 1600 começaram a lançar pesadíssimos impostos sobre o povo, e o abuso do poder começou a minar a autoridade do Imperador, dando origem a que os mais rebeldes se fossem aliar a uma facção contrária aos Ming, que ficou conhecida pelo nome de Tribo do Norte, ou Manchu.
Agora, apoiados de dentro, os Manchus abriram caminho para o sul da China, esmagando a autoridade Ming, vindo a fundar, depois a última grande casa reinante da China (1644-1912). Uma vez mais se viu que eram os funcionários chineses a partilhar o poder com os Manchus, em detrimento dos Ming. Contudo, alguma coisa tinha que  acontecer com o aumento assustador da  população que trabalhava a mando e orientação de leis rigorosas impostas de fora. Seguiu-se um novo surto expansionista com várias direcções: No Ocidente, o Tibete, o Paquistão e a Mongólia caíram perante as tropas chinesas. No Sudoeste, os colonos chineses ocuparam as províncias fronteiriças de Kweichow e Iunan, muito ricas em minerais. Segue-se um rápido incremento no comércio, com várias direcções: os produtos chineses – chá, sedas, artigos de algodão, porcelana – escoavam-se, por terra, para a Rússia, e, por mar, para o Sudoeste da Ásia, Índia, Médio Oriente e Europa. No séc. XVII o crescente gosto pelo chá, que se verifica na Europa, justifica um enorme aumento de exportação desse produto por mar. Por volta dos anos 1800, a decadência económica volta a rondar a Grande Nação Chinesa. Vários factores contribuíram par esse fracasso económico: erosão dos solos, cuja estrutura é muito sensível ao vento, à chuva e as camadas de areia fina (Loes). O processo das culturas exóticas não obedeceu a critérios correctos para manter o solo e subsolo. O abate sistemático das florestas foi outro crime de ordem ambiental. Os chineses tinham apostado na cultura algodoeira, mas a concorrência do algodão inglês foi um terrível desastre para China.
Não tendo ainda compreendido que cada cultura e produto necessitam de condições adequadas, os Chineses acabam por abrir as portas a outro cultura terrivelmente perigosa, para os nossos tempos, que foi a introdução da cultura de Papoila do Ópio (Papaver somniferum), tendo comprado enormes quantidades de Ópio à Companhia das Índias Orientais (inglesa). Tudo isto e muito mais levou à corrupção e fà alta de coragem para trabalhar e produzir. A partir de 1796 camponeses descontentes começaram a provocar constantes rebeliões, levando a China ao declínio económico e comercial, face aos vizinhos que já envolviam a China, especialmente o Japão e países europeus, incluindo Portugal.


A estratégia de Cavaco Silva

 
Hélio Bernardo Lopes

Colaborador

No seu discurso recente em Santarém, o Presidente Cavaco Silva salientou a necessidade de se atuar estrategicamente, pensando nas medidas que deverão balizar a nossa saída da crise criada ao Mundo pelos dirigentes neo­liberais, políticos e financeiros, depois de utilizarem, de todo o modo e feitio, os mecanismos da globa­liza­ção.
Acontece, porém, que desenvolver um pensamento estratégico nunca é tarefa fácil, mesmo quando se trabalha em regime estacionário, ou seja, em que se conhece a estrutura onde irá ter lugar a intervenção estratégica em causa.
Todavia, tudo se torna incomensuravelmente mais complexo se o regime em que se tem de decidir deixou de ser estacionário, tendo-se tornado, digamos assim, torrencial e fortemente variável. Precisamente o que tem hoje lugar no nosso Mundo atual, atirado pela via neoliberal para o pandemónio que nos traz preocupados com o presente e com o futuro.
Acontece que na véspera daquele discurso do Presidente Cavaco Silva me foi dado acompanhar o programa, Toda a Verdade, que passou na SIC Notícias pelas duas horas da madrugada. E neste programa o tema tratado girou em torno das existências mundiais de petróleo, e na dúvida sobre se o designado pico do petróleo terá já sido atingido, ou ainda não. Como é evidente, não existe unanimidade neste domínio, mas o que se percebe é que a médio prazo esse pico do petróleo será atingido.
Aí chegados, e a médio prazo, seguir-se-á uma realíssima crise mundial, mas que é hoje impossível de evitar pelos governantes do Mundo. Mesmo partindo do princípio de que a crise virá nos tempos mais imediatos, ninguém, sobretudo em Portugal, poderá gizar uma política consistente ao nível estratégico, pela simples razão de que o futuro, bem como o seu quadro de atuação, será então absolutamente imprevisível. E mesmo ao nível de previsões aceitáveis, só muito pouco desse futuro será por nós determinável. Um infinitésimo de uma insignificância. Como a História de Portugal sempre mostrou.
O que aqui pretendo dizer é que não existe estatégia possível, se excetuarmos aquelas medidas simples, embora eficazes, que se encaixam no aviso do Presidente Cavaco Silva, de que os portugueses deverão redimensionar o seu modo de vida. Derlei, até há pouco no Sporting, entendeu não seguir esse caminho, embora lhe seja impossível conseguir os duzentos mil contos mensais de Cristiano Ronal­do no Real de Madrid.
E já agora: onde se situa, neste último caso, a ética no trabalho e na organização da sociedade? E porque não quinhentos mil contos mensais, como se dá com certos desportistas norte-americanos? Haverá aqui lugar para valores de natureza ética? Que pensará o Presidente Cavaco Silva de uma tal realidade político-social?

 

CS4296

Artesanato em
Ponte de Lima

 
Lima Barreto

Colaborador

A vila  e arrabaldes não é propriamente nem exímia, nem muito célebre pelo seu artesanato. Outras terras em Portugal têm outras valias, como por exemplo Barcelos com os seus “galos” e as vilas do Minho “Vila Verde e Fafe) por exemplo, conhecidos pelos seus “lenços de namorados” e panos e toalhados de linho.
O linho é no nosso Minho, motives da mais variada e policroma tecelagem, com realce para todos os trajes minhotos, mas com realce para todos os trajes minhotos, mas com realce para os típicos trajes de Viana, conhecidos e apreciados em todo o mundo.
Enquanto que, por exemplo, na região e bacia limiana há tradições singulares e exóticas, como sejam as narrações do fantástico, como são a “serra da velha”  e a “Queima do Judas”, o “jogo do pau” ainda hoje se pratica nas Feiras Novas, são lendas ou memoriais tão importantes como a “moira de Fontão”, ou a luta do “galgo preto”, ou a das mulheres de pernas de cabra, algumas, pertença da nossa tradição oral, outras são ainda hoje rituais de algumas das nossas aldeias: “vaca das cordas”, “serrada da velha” em Rebordões Santa Maria e também Correlhã, os “Maios” (como afastar do demónio) que são rituais comuns a todas as aldeias do nosso Minho, a “Mesa dos Quatro Abades” que respeitava fronteiras e poderes, o “Samiguel” em Cabaços, terra fértil nos milhais, a “Martinada” em Friestelas que era uma prática de prova de vinhos no S. Martinho, “os cantares ao desafio” ainda hoje sobrevivos, a lenda do “Mal Degolada” pertença histórica da Falha, enfim tanto histórica da tradição oral e tanta estória do património imaterial.
Mas o nosso Artesanato porque foi sempre tão pobre e nunca a 1ª escolha do povo limiano? Porque a ele se sobrepôs sempre o “património da memória” e todos nós sabemos que o artesanato é produto de uma ferramenta “material” no Vale do Lima. A tecelagem, o mobiliário rústico de pinho crú, a cestaria fina encostada de luxo e a cestaria encostada grossa, a cantaria uma região farto em granito, a lotaria fina aplicada a lanternas, apliques e candeeiros, as rendas, as colchas, as toalhas, a tamancaria, todo esse artesanato ainda se vai encontrando nas Feiras de Ponte com certa profusão.
Mas como já referimos, foi o linho, o escolhido sempre pelo povo minhoto e também limiano, como o produto da terra, mais apetecido de trabalhar, porque dele vinham produtos nobres e belos, como toalhas bordadas, tapetes, os próprios trajes populares, enfim, o linho, no artesanato levou vanguarda, tanto na estopa como no “sedeiro”, pois a roca fazia dos dedos do nosso povo verdadeiros pincéis semelhantes aos dos maiores artistas de quadro ou pinturas.
Dos  novelos, às dobadeiras, eram urdidos e colocados nos teares para “tecer a estopa ou o linho” como quem pinta um quadro com os vários pincéis apropriados.
A descrição sucinta e cura do nosso linho, ainda hoje mora em muitas das nossas gentes mais antigas, não só como tratamento da terra, como também e sobretudo, com a preparação artística dos ditos linhares, existentes um pouco por toda a parte.
Com o linho, vinha sempre aliada a força do nosso povo, ao plantá-lo no campo, na maior de todas as dificuldades laborais, como também a alegria, quando se faziam os tratos especiais e requintados deste produto tão querido do povo: ripagem, tecelagem, espadelagem, enfim coisas práticas, pertenças também do lúdico e do convívio, do esforço e do próprio concurso de mãos mais habilidosas.

 
Bem prega Frei Tomás

Franklim Fernandes
Colaborador

Tem sido notícia a polémica que se instalou à volta da reconstrução do bar do Arnado, em Arcozelo. A Irmandade de Sto. António da Torre Velha desinstalou-se da sua capela e assentou batarias contra aquela obra de inegável necessidade para o apoio que tem de prestar às largas centenas de visitantes que, todos os fins-de-semana de verão e um pouco por todo o ano procuram os espaços envolventes, o parque de merendas, a fresca das areias do rio Lima e as sombras do Arnado para uns bons momentos de sadio descanso e de lazer.
Sendo embora públicos os argumentos daquela entidade para a oposição à obra, duvida-se das verdadeiras intenções desta cruzada que divide opiniões e provoca sentimentos de repulsa nos espíritos mais liberais e menos conservadores da opinião pública que não conseguem entender esta súbita e inesperada defesa do património arquitectónico a ponto de se promover a paralisação dos trabalhos de reconstrução dum equipamento imprescindível à zona que o envolve e ao bem-estar dos seus utentes.
A construção em causa pretende substituir, com vantagem, o bar que, no passado mês de Dezembro, foi totalmente destruido por um violento incêndio que provocou a inactividade duma empresa familiar composta por quatro elementos – dois casais, um deles de recente formação. Era daquela estrutura que todos colhiam a maior parte dos seus recursos económicos e de onde esperavam construir um futuro estável. Com esta objecção, vêem mais longe a esperança de retoma da sua economia arrasada por uma tragédia que não mereceu a atenção nem a solidariedade de qualquer confraria vizinha que, não tendo promovido qualquer “abaixo-assinado” de apoio nesse difícil momento, se lembrou agora de a agravar e adiar, tudo em defesa duma procissão anual cujos andores não passam no cruzeiro (recentemente alvo de um atentado patrimonial ao ser gravado em rebaixamento com dizeres que pretendiam afirmar posse)! Ora, tal argumento é negado pela distância entre o cruzeiro e a estrutura do bar. Por isso espera-se para breve uma petição para o derrube desta frondosa árvore que, no entanto, não mereceu para já qualquer reparo na passagem da procissão.
Bem sabemos quão melindrosa é esta controvérsia e como pode ser causa de sérias desavenças e, levada ao extremo, provocar indiferenças e friezas em questões de fidelidade religiosa. É que nem todos compreenderão esta pioneira intromissão da estrutura religiosa numa questão temporal de lana-caprina cuja única colisão de interesses visível passa pelo curso de uma manifestação pro­cessional uma vez por ano se não chover, pisando terrenos do proprietário da obra embargada. Porém, é coisa que parece não incomodar o descanso da irmandade e dos componentes sobrantes da mesa administrativa.
Melhor teria andado a instituição se esperasse pela posição da Assembleia de Freguesia de Arcozelo que, curiosa e coincidentemente, sentiu também as dores da irmandade. Não arcaria com o desonroso ónus do vanguardismo em questão divisionista, bem ao contrário dos ensinamen­tos  do fundador da ordem religiosa que a patrocina que defendeu e proclamou: “onde houver discórdia que eu faça a união”, não se espere, pois, que se calem todas as vozes por que “se alguém diz mal é porque alguém faz mal”.
Uma virtude teve, para já, este movimento reivindicativo: ficou a saber-se que o pregador Frei Tomás era francis­cano.

 
A nível da palavra tudo será permitido?

 
Manuel Pires Trigo

Colaborador

A democracia tem variantes, e estas por sua vez têm diferentes méritos. A mais meritória democracia é a política, porque só esta pode ser o sustentáculo de todas as outras. Porém a democracia política tem um senão: É organicista na forma. Nunca se conseguiu uma democracia directa. No organicismo ganha-se eficácia mas perde-se genuinidade. O órgão adquire uma lógica própria que suplanta a pessoal.
A maioria de nós fez uma clara opção pela intervenção dentro dos condicionalismos que a democracia nos impõe. Para essa democracia concorrem os partidos políticos, associações de estrutura diversa. A sua constituição e funcionamento mesmo em democracia não têm que ser livres. Escasseiam as regras para o seu funcionamento, estão mal definidas as suas formas de intervenção. No fundo a sua imprescindibilidade mais faz realçar os seus defeitos. Isto torna-os sujeitos à crítica permanente da população.
Os partidos funcionam a várias escalas, com diferentes formas de representação e problemas específicos aos seus distintos níveis. Às escalas mais elevadas os partidos assumem um carácter exclusivo. Assim a maioria da população é excluída da participação política a esses níveis e vê-a dificultada a níveis mais baixos. Aqueles que acham que deveriam poder dar uma colaboração de valor acrescido à vida pública do País, sem necessitar de para isso estarem enquadrados em partidos, sentem-se frustrados.
Além de todos os outros defeitos os partidos só recorrem aos chamados independentes em última instância. Os poucos que conseguem furar todas as barreiras à entrada são mal vistos, marginalizados, o seu trabalho chega a ser sabotado, minimizado, ridicularizado mesmo. Aos políticos profissionais nada é exigido, aos independentes têm que ser os melhores. A sua participação cívica depende da maior ou menor mesquinhez dos aparelhos partidários.
A maioria dos independentes desconhece muitas das regras dos partidos, têm uma sensibilidade “imatura” para responder ao cinismo prevalecente nos meios políticos. Quem não prescindir de ser genuíno, de ter uma satisfação própria naquilo que faz, não tem lugar. Os poucos aceites acabam por soçobrar à mão daqueles que parasitam os aparelhos partidários. Os partidos estão cheios de “sargentos” à espera da sua vez de se promoverem a “oficiais”. E estes, os que têm “estatuto” são arrogantes e mesquinhos.
A política, como trituradora da personalidade individual, ataca menos os profissionais, mais preparados para o efeito. E estes atacam os não filiados por terem excessiva independência. Abrigam-se no facto de eles mesmos serem obrigados a aceitar opiniões diferentes das suas, a defenderem perante outros aquilo que muitas vezes é contrário à sua sensibilidade. Os independentes são uns privilegiados neste aspecto. Só que normalmente já provaram noutros fóruns a sabedoria que os profissionais nunca são obrigados a provar.
Os independentes não estão obrigados a tantas cedências, não se deixam arrastar pela militância tantas vezes acéfala e seguidista, nem se deixam ficar pela apatia de muitos dos que um dia se filiaram num partido com objectivos menos sérios. Claro que também há falsos independentes, há aqueles que querem apanhar a boleia e querem ficar de vez com um lugar na carruagem. Quem se quer manter independente cultiva-se, desenvolve ideias, métodos próprios, porque os partidos ainda não descobriram nada de infalível.
Há uma clara diferença entre quem procura ter uma satisfação pessoal naquilo que faz politicamente e quem tudo faz por obrigação, a contragosto às vezes. O verdadeiro independente não prescinde da sua sensibilidade, não deixa que se esmaguem os seus sentimentos pessoais. Nunca esquece o que era matricial em si. O independente empenha-se se se sente enquadrado, sentimental e intelectualmente, num plano estratégico mesmo que definido por outrem.
Parece pois existir, e as pessoas concluem-no, haver perversão na política. O mundo em que os políticos mergulham é artificial, tem regras próprias embora retiradas de velhos princípios comummente aceites. Mas princípios criados noutros contextos não conseguem integrar facilmente o actual. Honra, dignidade, frontalidade, seriedade e outros perderam o significado quando transferidos para um mundo diferente daquele em que tais termos ganharam significado.
Há valores que eram próprios de um mundo de hierarquias rígidas e, por anulação das regras próprias, o seu significado perdeu-se. Ainda se não encontraram regras eficazes que se apliquem à vida de hoje. De alguma forma falta uma autoridade exterior à política, alguém capaz de dirimir conflitos entre os vários agentes políticos, de impor alguma lisura e clareza à luta política. É tanta a confusão que em cada momento até falta saber o que está em causa, seja a curto ou longo prazo, seja ao mais pequeno nível, seja ao mais vasto.
Os políticos movimentam-se hoje em quadros mentais para os quais a sua contribuição é muitas vezes mínima. Não os tendo elaborado, não sendo seus proprietários, seus gestores, quando muito são seus defensores, mas chegam facilmente a ser seus escravos, prisioneiros da sua lógica própria. Muitos políticos atiram-se a discutir assuntos para os quais não estão preparados e não estão convictos daquilo que defendem. Por vezes só deles têm uma noção vaga.
Embora não haja liberdade absoluta e haja valores sociais a respeitar, podemos manter a nossa liberdade enquanto conseguirmos manter a alma, estivermos convencidos da bondade do que fazemos, seguirmos um caminho solidário escolhido com entusiasmo e vivido com satisfação pessoal. Só a espontaneidade, a naturalidade são demonstrativas da nossa liberdade. O falso verniz dos políticos é a capa que esconde caracteres de duvidosa índole.
Qualquer submissão absoluta à lógica da luta política é contraproducente. Também o é suplantar a ignorância por meios artificiosos. Dada a necessidade de existirem políticos profissionais só resta pedir-lhes que não tornem artificial a sua sensibilidade e recorram a quem sabe sempre que não estejam seguros. Este mundo em que se não toleram uns cornos e se suportam todos os insultos tem algo de podre. Hoje os políticos procuram munir-se de instrumentos intelectuais perfeitamente perversos. A nível da palavra parece ser tudo permitido.

 
Ai meu Portugal

Antero Sampaio
Colaborador

Cada vez dou mais razão àquele emissário romano que, às ordens do Imperador, se deslocou à Lusitânia, para indagar como vivia um povo denominado Lusitano. E por ali andou. Quando regressou a Roma e entregou o relatório da sua visita ao Imperador e ao Senado, estes chegaram à conclusão que os Lusitanos eram um povo que” não se governa nem deixa ser governado”.
Presentemente, este povo, a que pertenço, na minha opinião é muito difícil ser governado. Mas que andam aí uns lusitanos de colarinho branco que se governam “à grande e à francesa, isso é verdade.
São uns lusitanos que não se importam de estar presos, pois creio que nada lhes falta, outros dizem que disseram mas não disseram, que ficam muito admirados como é que alguns milhões de euros entraram na sua conta bancária e que, quando são chamados a comissões de inquérito (ainda não percebi bem a utilidade dessas comissões), portam-se tão bem que, para serem anjos, só lhes faltam as asas.
Os outros lusitanos, aqueles que todos os dias enchem as estatísticas  do desemprego, aqueles cujo salário não chega para sustentar as  suas famílias, aqueles que, como eu, vive da sua reforma, assistem impávidos e serenos, às histórias destes figurões que enchem as primeiras páginas dos jornais e as aberturas dos noticiários das televisões.
E como reage o Governo deste País ?. Sinceramente não tenho resposta para esta pergunta. Quando o Governo parece ter resolvido um problema, logo surgem dois ou três problemas, ainda mais difíceis.
Claro que vivemos em crise, crise que atinge todo o mundo. Mas nós, que pouco ou nada produzimos, seremos os últimos a sair dela. Até lá, os despedimentos continuarão, o custo de vida aumentará . Mas  tenham cuidado os governantes que, a história está cheia de conflitos que começaram, porque o povo vivia na miséria e não podia aguentar mais. Embora sejamos um povo de “brandos costumes”, quando a barriga tiver fome, a cabeça começa a funcionar mal. E tudo pode acontecer.
Ai, meu Portugal.

 

Com os mongóis a seda deixou de ser comércio importante (5)

 
João Gonçalves Costa

Colaborador

Com o desenvolvimento do comércio marítima das grandes cidades costeira e a queda da dinastia Song, a China vai pôr de parte o grande comércio da Seda entre o Oriente e o Ocidente, visto que, para os esfomeados rebeldes mongóis o comércio mudava de rumo e havia necessidade, especialmente, de produtos mais simples, mais nutritivos, capazes de alimentar legiões de cavalos e seus cavaleiros. Portanto, vamos deixar que as Amoreiras cresçam muito para alimento da Fauna alada e terrestre.
Os novos senhores vestir-se-ão de qualquer forma. Aliás, para povos nómadas e sempre em rotação, é necessário fabricar produtos fortes para erguer tendas móveis, extensas para homens e suas alimárias. Durante maia se um século, a História da China dos Dong vai confundir com as hordas de povos vindos da Mongólia e seus vizinhos. A China ficou reduzida a uma província da Ásia Central. E Era tudo o que restava dos tempos de Confúcio. Estes novos invasores, habituados a cultivar as melhores terras dos planaltos, bordos dos grandes rios, das estepes onde criavam animais rijos e fornecedores de leite, carne, peles, pelos, ossos, etc. estavam-se nas tintas para culturas de elite, cujas folhas alimentavam milhões de bichos-da-seda. Agora a moda é outra e o modo de viver, deslocar-se e fazer a guerra obriga e outros métodos, que não as belas amoreiras muito trabalhosas e pouco rentáveis. Aliás, as tribos de pastores nómadas não esperavam cobrir-se de belos panos de seda fina, nem mesmo depois de mortos.O que mais afligia estes guerreiros de pouca civilizados, era a falta de água, bons pastos para alimentar os seus carneiros, bois, cavalos, camelos e alguns animais menores. Ao contrário da Seda, estes animais forneciam o essencial de que precisavam estes guerreiros: Comida (Leite, queijo, carne), roupas de pele de carneiro, coberturas de feltro para as suas tendas redondas, também, transporte rápido e seguro (Cavalos típicos do deserto). Alem do mais carneiros e cavalos, lã e crina de cavalo e barba de camelo constituíam, naqueles tempos produtos muito adequados para o comércio com os sedentários do Sul e do Leste. Estamos, de caminho, a ver como nasce outra importante indústria que, ainda hoje, se desenvolve através da maioria dos países muçulmanos: os tapetes, carpetes e suas variantes. Durante muito tempo houve abusos e violências entre os nómadas mongóis e os povos sedentários, a quem o primeiros queimavam as terras, os animais, as colheitas para, depois, eles se instalar no lugar deles. Se não era a lei da selva, era pelo menos a lei do Deserto e a falta da ética que Confúcio tentou espalhar pela China. Contudo, as grandes invasões em massa têm nome e ficaram registadas na História da Humanidade. Podemos, desde já, citar os ataques dos Hunos, que contribuíram para derrubar o Império Romano; o assalto turco ao Islão e a constante pressão tribal que levou os dirigentes da China e erguer uma das maiores muralhas do Mundo, que ainda se pode ver e admirar pelo esforço de milhões de chineses. Claro que as gentes de hoje apenas ouvem falar do Muro de Berlim e das fronteiras patrulhadas dia e noite. A Muralha da China, iniciada muito antes de Cristo, é um dos mais importantes Monumentos naturais construído pela força do povo e a vontade de defender a Nação dos povos migradores vindos da Mongólia. Para evitar que as terras de cultura e as pastagens dos chineses fossem sistematicamente invadidas e destruídas pelos “Povos do Norte”, os chineses desenvolveram o projecto Grande muralha, onde milhões de  povos pereceram sob as cargas de pedra, argamassa, areia, terra, fome, sede, doenças e chicotadas. Contudo, as coisas acabaram por mudar de feição, visto que os povos nómadas e guerreiros inconstantes, não tinham jeito para administrar grandes cidades e continuar com processos culturais que vinham de muitos anos de antes de Cristo e, desta forma, ou se retiravam para outras terras ou se ligavam aos locais, por casamento ou miscigenação, que teve efeitos benéficos em termos sociais. No séc. VIII surgiu um chefe mongol de extraordinária capacidade, ficou conhecido pelo nome de Temuchin e, depois de várias vitórias sobre diversas tribos vizinhas, ficou conhecido na História pelo nome de Gensgiscão*, cujo nome significa: “Poderosíssimo Rei”. Tendo as tribos turcas por aliadas, Gengiscão lançou-se numa extraordinária carreira de conquistas: para o sudeste em direcção ao Norte da China; para o sudoeste, através da Pérsia muçulmana, e para o Sul da Rússia. Por todos locais onde combateu, a cavalaria mongol obteve sempre as maiores vitórias. Só em parte deviam os Mongóis os seus sucessos ao factor número (com um exército de 250 000 homens era demasiado pequeno, na avaliação feita pelos chineses). Contudo, mais importante que o número de homens em combate, eram os poderosos arcos de flechas, que podiam matar um soldado à distância de 200 m, além do facto de os cavalos e os cavaleiros resistir de modo espantoso à fadiga. O chefe tinha imposto uma rigorosa disciplina militar e organizou as suas tropas em unidades de 10, 100, 1000 homens. Táctica genial, Gengiscão, ou melhor “O Grande Cão (Khan)” sabia muito bem como e quando podia cercar o inimigo ou como atraí-lo, fingindo retirar, logo surgia a terrível emboscada. Ao mesmo tempo, O Grande Cão aterrorizava os seus inimigos, queimando-lhes as aldeias, cidades, depois de conquistadas, chacinava sem piedade e os seus habitantes. Felizmente que o Grande Cão morreu em 1227, numa altura em que o seu Império ia desde o oceano Pacífico ao mar Negro, os seus sucessores ainda alargaram mais fronteiras do Império daquele Grande Khan Mongol chegando, então à Alemanha, Ocidental e à Palestina do sudoeste. Com a chegada de mais Khans (não confundir com cães) em 1280 o império abarcava toda a China, onde se instalaram.
Confrontar textos e gráficos  de “ A HISTÓRIA”, Ed. Europa América, vol I, Lisboa, 1964.

 

O pobrezinho

 
Maria Alice Martins
colaboradora

 
O dia declinava

De regresso à minha casa

Encontrei um pobrezinho

Caído na berma da Estrada.

 

Dei-lhe o meu braço amigo

Ajudei-o a caminhar

Levei-o p’rá minha casa

E dei-lhe do meu jantar.

 

Matei-lhe a fome com pão

Com àgua a sede matou

Uma manta p’ra agasalho

E em minha casa ficou.

 

E logo ao romper da aurora

Com forças p’ra caminhar

Lágrimas de gratidão

Dos olhos lhe vi saltar.

 

Ouve amigo meu irmão

Se encontrares um mendigo

Se nada tens p’ra lhe dar

Dá-lhe o teu braço amigo.

 

Escuta meu bom amigo

Não esqueças a lição

Nem só da mão sai a esmola

Sai também do coração.

 

 
CS4295


O gesto é tudo


Antero Sampaio

Colaborador

 
O gesto insólito, in­qua­lificável, injustificável e atrevido do Sr. Dr. Manuel Pinho, durante o debate do Estado da Nação, na Casa da Democracia, que é a Assembleia da República, correu todo o Mundo, foi capa de jornais e revistas, de aberturas nos telejor­nais e estações de rádio e fez esquecer, por momentos a transferência multimilio­nária do Cristiano Ronaldo para o Real Madrid e a crise que continua a  afectar o nosso País.
Além disso, este acontecimento invulgar, num País de “brandos costumes”, é conversa de café, de rua e da vizinha do lado que ficou de “boca aberta”, ao ver na Televisão, um ministro a fazer uns “corninhos” a um deputado.
Este triste acontecimento, num “Portugal dos Pequeninos”, que pertence à União Europeia, ocupando, em todas as valências, o lugar dos últimos, noutro País, não teria o impacto dum “tsunami” político que lhe querem atribuir. Há Parlamentos onde os deputados se agridem verbalmente, com insultos muito graves, com ameaças até de confrontos físicos, mas que têm o valor que têm.
Nada mais. Com o Dr. Manuel Pinho, não aconteceu assim. Farto de apanhar pancada durante quatro anos e meio, ciente que exerceu o seu mandato da melhor maneira que soube e que pôde, satisfeito por ter resolvido, duma forma positiva, alguns problemas delicados em diversas empresas, contente  por ter colocado o nosso País, nos lugares cimeiros das energias renováveis, sector onde Portugal é deficitário, este ex-Ministro da Economia, como não é político profissional, não aguentou mais insultos e disparou, duma forma nada convencional, que pôs todo o País a olhar para ele e a crucificá-lo. Creio que poderia ter reagido duma forma mais benigna, com um sorriso nos lábios, com um certo desprezo até, mas não. Como um jogador de futebol, que passa o tempo de jogo a ser massacrado pelo adversário, com o olhar sereno dum árbitro bonacheirão… em determinada altura, com uma entrada mais violenta, perde a cabeça e agride o adversário, tal como fizeram o Zidane e o Pepe.  Por este acto irreflectido, é expulso, prejudicando a sua equipa, que fica reduzida no seu número de jogadores. E o Dr. Manuel Pinho, que é uma pessoa inteligente, sabia muito bem que estes actos pagam-se muito caro e é agora o Sr. Ministro das Finanças que vai abarcar a pasta da Economia, ele que já se vê “grego”, para aguentar o barco do dinheiro deste País.
No meio disto tudo, entendo que o Dr. Alberto João Jardim tem toda a razão ao afirmar que no Parlamento da Madeira, este acontecimento, que é noticia nacional e mundial, seria um momento de bom humor, hilariante até, não merecendo o valor que está a ser dado no Continente. Na Madeira, se o Dr. Jardim mostrasse uns “corninhos” a um deputado, este, concerteza, acharia muita graça, e não levaria  muito a sério este insulto político, pois é de política que se trata. Mas a Madeira é a Madeira e o Continente é o Continente.
Caro leitor. Portugal atravessa uma das maiores crises da sua existência. O desemprego não pára de aumentar. Os empresários fazem “das tripas coração”, para manter os postos de trabalho dos seus colaboradores. Os pobres, cada vez são mais pobres e os ricos  não param de aumentar, honestamente ou não, as suas fortunas.  O custo de vida não pára de subir e cada vez  mais o poder de compra dos portugueses é menor. Falo por mim.
Portugal, passados trinta e cinco anos do vinte e cinco de Abril, que prometeu aos portugueses, melhor qualidade de vida, em todos os sentidos, ainda está longe duma estabilidade política que garanta à população portuguesa, mais emprego, melhor saúde, melhor ensino, etc. etc. O aumento da abstenção, nos actos eleitorais é sinónimo de desencanto, de descrença na classe política, duma certa tristeza dum povo que viveu muitos anos em ditadura e que, agora, em Democracia se vê, confrontado com uns políticos, quer sejam de Direita ou de Esquerda, que prometem muito, mas que nada fazem. A continuar assim, o fosso entre os ricos e os pobres vai aumentar ainda mais, o desemprego de jovens licenciados, começa a ter índices preocupantes, os empresários, sem encomendas, fecham as portas, a população idosa começa a não ter dinheiro para comprar os medicamentos e com este panorama aterrador, ainda hoje se fala do Ex-Ministro da Economia, Dr. Manuel Pinho que, na Assembleia da República, teve um momento infeliz de mostrar uns corninhos a um deputado da Oposição. Um Pobre País e um País Pobre. E por último, uma pergunta: será que poderemos algum dia viver, com estabilidade política? Têm a palavra os políticos profissionais.

 

Feira do Cavalo

Lima Barreto
Colaborador

Começou ali em Cal­velo, numa área extensa, com barracos de Madeira e pistas em chão mesmo rústico; mas depressa os cavalos, que são uma paixão das gentes limianas, sobretudo os garranos e aqueles cavalos do monte a que podemos chamar de “rafeiros”, depressa dominaram o sector nacional e já ultrapassam fronteiras.
Nesta última Feira do Cavalo, um analfabeto inocente perguntou a um organizador deste certame qual era a diferença entre o garrano e o cavalo lusitano, que esteve em “peso de ouro” nessa localidade limiana. Claro que a pergunta foi tão ingénua que foi difícil dar-lhe resposta. O garrano é um cavalo de pequena estatura (em linguagem mundana ele é quase o anão da raça cavalar), mas o cavalo lusitano tem cédula de descendência e de cruzamento que teve durante milénios. É um cavalo alto, robusto, inteligente, esbelto, muito macho e com vigor fálico em evidência.
O pobre camponês que conhecia só os garranos pelos menos estava naquele local de corrida, porque gostava de cavalos.
Nós, por exemplo, tendo o cavalo como um animal perfeito, tal qual atleta olímpico, temos por ele um certo respeito e medo, por causa do seu coice. Ora o cavalo só dá coices quando está “zangado” com ele ou com o cavaleiro, ou então, quando pressente em nós o medo. Nada pior que o medo para assustarmos qualquer animal. Mesmo quando um cão corre contra nós, não devemos fugir e se pararmos, ele pára também e não nos faz qualquer dano, tirando o psicológico.
Em Ponte de Lima tudo cresce, tendo se dá, como a semente no campo do agricultor. Já na capital deste Alto Minho, nada cresce sem contestação. Parece-nos o exemplo de uma planta chamada salsa que dizem que não cresce em terra de gente invejosa. Será que Viana tem inveja a Ponte de Lima? Deixamos a pergunta no ar e responda quem souber.
O cavalo, no mundo etoniano, era um arquétipo portador de morte e de vida, porque em épocas remotas, as guerras, metiam no seu forte, a cavalaria, quando não havia ainda canhões de infantaria.
Os psicanalistas referem-se ao cavalo como símbolo do “psiquismo inconsciente” ou da psique não humana, mas com “inteligência”.
Impetuoso, elegante, nobre, ele às vezes é benéfico, outras vezes maléfico, quando atira para o chão quem o monta, talvez mal.
Não é um animal muito submisso, pois só obedece a rédeas, curtas, seguras e inteligente. Dentro de “ferros” , couraça, armadura, etc, é um animal quase de poderes mágicos. Tem tradições na literatura, já nas antigas Grécia e Roma, onde sempre exerceu funções de guia e de intercessor, numa palavra própria, de “psicopompo”. Sob este aspecto ele é mesmo um animal cheio de magia, de peito largo, coração de leão e corrida quase de lebre. Dizem muitos que os cavalos têm muita coragem que alguns confundem com inteligência. Inteligência ou instituto, o certo é que é também um repreensível amigo, donde já até se use o cavalo para a terapia da deficiência física ou mental, com resultados apurados, positivos.
O cavalo despertou sempre o nosso imaginário, e ficamos contentes, por Ponte de Lima ter agora um autódromo a nível internacional, que muito contribui também para que os limianos continuem a valorizar o seu garrano ou o seu cavalo maltês, ou seja, o cavalo do monte. Estas duas raças deverão crescer na região, e como os cavalos são o carro que puxa o Sol, então que o sol limiano, seja puxado sempre por garranos e cavalos do monte, porque no futuro, Ponte de Lima, pode ter também cavalos lusitanos, que é uma paixão superior do povo português, ou melhor das gentes lusitanas. Parabéns a Ponte de Lima, não só pelos cavalos, mas também pelos possíveis cavaleiros que se venham a perfilar na aerófago cavalar nacional.
O cavaleiro não é uma estátua em cima de um cavalo, como alguns retratos importantes, reproduzem, mas o cavaleiro é antes de mais um “cavalo humano” a dirigir um cavalo de raça apurada, geneologicamente, ou não.
Um cavaleiro é hoje, não um guerreiro, como outrora, mas antes um artista da arte equestre, sem estilo de Guerra ou de morte, como na antiguidade mitológica, mas antes como o artista da aventura da nossa vida, que dá à verdadeira competição um sentido físico, psicológico, estético, científico e até ético. Recordemos, por exemplo o simbolismo mítico dos “cavaleiros do santo graal” que faziam parte do “Palácio Celestial” da nossa bela literatura épica.
As Festas do Cavalo em Ponte são para continuar.

Repugnante

Hélio Bernardo Lopes
Colaborador

Sendo embora o escândalo dos escândalos, este mais recente, ligado ao tratamento cruel, abusador e desumano, que teve lugar em colégios católicos da República da Irlanda sobre crianças dos dois sexos, desamparadas de uma vida de amor e carinho, e que agora foi dado a conhecer aos irlandeses e ao Mundo, já não determinou em mim um ínfimo de surpresa.
Tudo está em levantar a história de tais colégios e nos pontos mais diversos do nosso Mundo.
Ao pensamento de imediato me ocorreu o tristemente célebre caso canadiano do Colégio da Divina Providência, situado em Québeque, onde algo de semelhante teve lugar, embora com uma outra variante, mas cuja natureza, neste tempo de empobrecimento acelerado, pode muito bem estar de regresso por onde menos possa esperar-se.
E pude, por igual, recordar os milhares de casos que tiveram lugar nos Estados Unidos, ao longo de décadas, sempre em torno de jovens desamparados ou pobres, abusados e vilipendiados na sua dignidade, por aqueles que se apresentavam como seguidores de Jesus Cristo, mas que mais não eram que réplicas do Diabo.
Como naquele colégio canadiano, também neste caso dos colégios irlandeses parece que os criminosos sairão por sobre a fasquia da Justiça, mostrando que as instituições religiosas de há muito vêm funcionando como escudos protetores dos que, na sua estrutura, se determinem a praticar crimes os mais hediondos.
Tinha a hierarquia da Igreja Católica da Irlanda que saber de uma tal realidade, à semelhança do que se deu no Québeque e nos Estados Unidos, entre outros países. E o mesmo terá de aceitar-se no respeitante ao conhecimento que terá existido ao nível das estruturas centrais da Santa Sé, como se pôde perceber a partir das orientações do Vaticano no sentido de evitar queixas públicas por parte das vítimas de tais ignomínias nos Estados Unidos, já lá vão décadas muitas.
Mas o que mais este escândalo sobre crianças em mim reforçou foi a ideia, que de algum modo sempre tive, de que o Vaticano terá sempre tido conhecimento do que se passava na Alemanha de Hitler, apesar de nada ter sido dito ao tempo. Como de resto ainda hoje. É-me legítimo acreditar numa tal realidade, perante mais este escândalo conhecido desde sempre e nunca parado nem denunciado.
Essencial é não esquecer a proteção dada, no próprio Vaticano, ao croata Ante Pavelic, logo após o fim do segundo conflito mundial, depois de ter superintendido no assassínio de cerca de duzentos mil sérvios ortodoxos. Quem tiver a oportunidade de conhecer um sérvio culto, de imediato ficará a saber o quão longa é a memória daquele povo, e de como só com extrema dificuldade os sérvios de hoje e de amanhã poderão esquecer os crimes praticados sobre os seus antepassados, sobretudo pelos croatas católicos durante a última grande guerra.
Tomo por evidente e indiscutível que a mensagem de Cristo e os textos deixados pelos evangelistas constituem autêntica e natural linha de rumo, para cada um de nós e para o Mundo. O mesmo se não pode dizer da Instituição que Cristo fundou, porque a Igreja Católica, pelos mil e um repugnantes exemplos deste tipo, e de outros igualmente repudiáveis, de há muito deixou de ser exemplo para o Mundo. A prova de que assim é está, mais uma vez, na postura assumida perante quanto agora se conheceu publicamente: naturalmente, tem de condenar, mas nada faz para castigar, perante a Justiça, os crimnosos que no seu seio se acolitam desde há décadas. É a vergonha das vergonhas.

 

Campanhas eleitorais e cultura política

Manuel Pires Trigo
Colaborador

O que torna as campanhas eleitorais quase pacíficas é o facto de que as tensões se vão descarregando durante o período de uma legislatura e chegados ao fim já pouco mais há a dizer, está praticamente tudo dito. Isto tem as suas vantagens de que se realça este aspecto mas tem evidentes desvantagens principalmente em criar um estado de campanha eleitoral permanente.
Outra desvantagem nítida é que, entrados no período propriamente dito de campanha eleitoral, muitas das questões que poderiam ser abordadas, por o terem já sido exaustivamente durante o período anterior, ficam esquecidas, não são facilmente reavivadas. Não haveria mal maior se a discussão feita a quente não fosse muitas vezes enviesado e levasse assim a conclusões erróneas, conclusões cuja veracidade os factos consequentes se encarregam de desmentir.
Efectivamente não há praticamente medida que não tenha contestação imediata, mas os resultados de muitas só se vêem a prazo e, mesmo que se vejam até à campanha eleitoral subsequente, vai faltar a reanálise, a reavaliação que eventualmente poderiam diferir das conclusões tiradas à altura. Passa por mais importante o debate teórico, feito na ocasião do lançamento de uma medida, que o debate que se poderia fazer estando já na posse de dados da sua aplicação.
Dir-se-á que vai depender da força que as forças políticas interessadas conseguirem imprimir aos assuntos que mais lhe são favoráveis de modo a inclui-los na agenda política. Força que a razão decerto reforçará mas que se terá que dispersar contra muitos temas, muitos adversários, no meio de muita controvérsia inútil criada pela manha e engenho dos mesmos. As condições para o debate nunca mais serão as mesmas.
Outra desvantagem da campanha permanente é o desgaste que provoca na capacidade de acção e de inovação. Não só pode ter efeito negativo na acção em concreto, quando esta poderia vir a ser benéfica, como tal efeito se pode repercutir noutras acções e iniciativas a tomar. A oposição agarra-se à ideia de que é melhor ganhar agora que esperar ganhar a prazo e que é necessário perturbar a eficácia alheia. A situação tenta junto da população que tenha validade a máxima “deixem-nos trabalhar” e deixem a avaliação para depois.
Na verdade são as medidas mais radicais, que implicam mudanças irreversíveis, que são mais difíceis de implementar, que sofrem mais contestação, que têm resultados a mais longo prazo. A fragilidade do sistema democrático permite que haja armas de que a oposição, mesmo em minoria, se pode munir para embaraçar, atrasar, ir diferindo essas medidas para que nunca se consiga a sua plena execução. E muitas vezes pior que nada fazer é implementar uma medida só parcialmente.
Isto torna difícil, senão impossível, fazer do Estado um edifício coerente, há retalhos de medidas que ficam aplicados aqui e acolá e outros que nunca se chegam a aplicar, há sectores evoluídos e outros que não conseguem sair de uma organização artesanal. Também isto tem um efeito directo na criação de injustiças relativas, de desequilíbrios internos e externos às organizações, de desigualdades funcionais, nos meios, nos rendimentos, no pleno dos factores sociais.
Como fortalecer a democracia, impedir bloqueios extemporâneos, conseguir cumprir até ao fim e mantendo a mesma força mandatos expressivos? Suspender durante um tempo a democracia, seja por via da ditadura do proletariado ou duma ultraliberal, não é solução. Acreditar que as coisas acabarão bem após este jogo de forças que de algum modo vai permitindo avançar parece ser o mais lógico.
Mas para quem não vê lógica na crença vejamos: A maioria dos avanços, feitos em particular nos últimos cinquenta anos, não se deve à política mas a outros factores de natureza social e muitos deles desenvolveram-se mesmo contra a política. Resistências ao desenvolvimento sempre se manifestaram e principalmente quando este tem repercussões nas estruturas sociais.
Em primeiro lugar temos a ciência no seu ramo físico, a ciência dita experimental e a sua ramificação utilitária que é a tecnologia. Será despiciendo destacar alguns dos seus ramos ou realizações, mas, quanto aos seus efeitos derivados da conjugação de muitos factores, pode-se realçar aqueles que se referem à alimentação, à saúde e à comunicação.
Temos depois a ciência computacional cujas realizações já hoje abarcam quase todos os domínios da actividade humana. Sobressai ainda a ciência das organizações que se foram tornando autónomas da ciência do poder. Por fim, mas não menos importantes, temos todas as outras ciências humanas, cuja evolução tem sido mais lenta, mas cujos efeitos se tem feito sentir em toda a vida quotidiana das pessoas.
Também a ciência política tem sofrido avanços mas também aqui há resistência da parte das velhas estruturas e protagonistas. A incomodidade é grande ao faltar saber para lidar com novas realidades. A política vê-se agora sob pressão não já para criar ou dar origem a fenómenos novos, mas para acompanhar e enquadrar a evolução desencadeada a partir doutros centros de poder.
A introdução de novas tecnologias, de novos procedimentos computacionais e organizacionais, de novos comportamentos pessoais e colectivos faz-se em muitos casos sem pedir o “agreement” dos políticos e de muitos sectores sociais que se lhe oporiam se tal lhes fosse possível. Fazem-se muitas vezes sem Leis que enquadrem esses novos fenómenos, colocando os políticos numa corrida louca para irem atrás, suficientemente perto para não perderem o controlo total.
Estamos numa sociedade em que existe uma ânsia medonha de que haja Leis sobre tudo. Mesmo que em muitas situações se pudessem aplicar Leis já existentes pela verosimilhança com outras, exige-se a descrição pormenorizada de todo o contexto invocável, a referência explícita a cada um dos seus elementos particulares. Só isto já coloca o governo sob pressão máxima e a oposição ajuda e até se ri enquanto está nessa posição. A população incrédula exaspera.
Isto é também um dos factores que leva a oposição, a imprensa e o público em geral a criar uma espécie de tribunal permanente, um julgamento em que os argumentos esvoaçam ao sabor do vento dominante no momento. Colocar o governo a trabalhar mais e melhor, dar à oposição menos poderes de interferência, não será só por si qualquer remédio para a questão. Só uma maior cultura política da generalidade das pessoas permitirá melhorar este ambiente por vezes infernal.

 

O martírio da Tia Luzia

 
Eugénio Monteverde
colaborador


Sentada no gasto poial junto ao portão,

Luzia do outeiro continua à espera

da filha, que numa distante Primavera

partiu cheia de promessas e ilusão.

Não sabe que ela está prisioneira

de rufiões, se insensíveis mafiosos,

que vende os seus dotes bem graciosos

a quem, na calçada, dela se abeira.

 
E a Tia Luzia, de lencinho na mão,

seu velho confidente de há longos anos,

vai enxugando as lágrimas dos enganos,

os profundos suspiros da insatisfação.

O enfarruscado cão, fiel companhia,

parece adivinhar o que lhe vai na alma

e fica junto desta mulher enfadada e calma,

afaga as rugosas mãos da Tia Luzia.

 
Naquele rosto onde só o olhar brilha

sobre o baixo-relevo da sua cruel dor,

apercebemo-nos daquele imenso amor

que sempre devotou à sua querida filha.

E o povo, compreensivo, não passará

sem vir consolar a pobre Tia Luzia

dizendo para ter fé em Deus, que um dia

a sua inesquecível filha voltará!

 

Confúcio incentiva a cultura da seda (4)

João Gonçalves Costa
colaborador

A China dos nossos dias não parece reflectir o enorme espaço carto­gráfico que nos apresenta a China Moderna. Por isso, desde os tempos mais remotos, enormes massas de gente pobre, sem trabalho nem formação escolar, lançavam-se a esmo sobre s diversas regiões da China de então.
A dinastia dos T’Ai acabou por ser substituída pela dinastia dos Song, já no tempo de Confúcio, um dos primeiros mestres que chegou para pregar a Moral, chegando mesmo a desafiar o pode discricionário dos imperadores.
Desta forma, a autoridade do Estado do seu tempo ainda se reforçou mais com o confucio­nismo. Confúcio era um mestre muito antigo, que reencarnara para servir de ponte de união àquela grande nação que queria impor-se como potência mundial, mas os seus vizinhos Caim, amiúde, sobre ela e, pelo processo da corrupção, impunham imperador de feição sem formação nem dignidade, demasiado corruptos.
A Filosofia de Con­fúcio era simples e prática: exaltação dos laços que deviam unir amigos e inimigos, irmãos, maridos e mulheres, pais e filhos e, acima de tudo, gover­nantes e governados. O lema de Confúcio era parecido com o de Jesus-Cristo, mas em termos activos e funcionais: Faz ao teu Irmão aquilo que querias que ele te fizesse. Mais tarde tudo isto foi virado ao contrário e aí temos o fruto. Apesar de muito feio e ter sido repudiado pelo pai, o Mestre Confúcio era muito mais Belo por dentro. Pois tinha passado pela Europa, em vidas passadas, conhecendo-se duas delas: o Filósofo Séneca (séc. I), e  o autor e estadista medieval Boécio (sécs. V e VI)- ver Pérolas de Luz, vol II. Ainda no tempo de Confúcio, houve grandes mutações sociais, com o aparecimento de novas castas  e novos modos de recrutamento dos funcionários, através do novo sistema de exames. Surgem, então os nobres rurais, que viviam em extensas fazendas(chuang-yuan) geridas por caseiros, de mistura com servos da gleba ou escravos. Milhões de homens passaram pelo trabalho forçado, devido à prática corrente de comprar e vender simultaneamente as terras juntamente com os seus trabalha­dores. (Lem­bramos o Brasil, depois de Cabral).
Contudo, devido ao enriquecimento rápido de algumas classes, começou a desenvolver-se um conjunto de utensílios para obter maior produção: grades, cilindros, adubos, rotação das culturas e introdução de trigo de amadurecimento rápido. Aumento muito a produção de alimentos e permitiu um grande desenvolvimento da população activa. Em três séculos, cerca de 1200 a população do Sul da China triplicou e a China dos Song e Chin juntas totalizavam 100 milhões de seres humanos. Por todos os lados se expandiam os pequenos comércios que, lentamente, se transformara em grandes espaços comerciais e urbanos. Agora sem programação nem controle oficial os mercados abriam-se para os chineses e para os estrangeiros. Havia enorme tráfego de mercadorias fabricadas de oferecidas livremente ao mercado Havia grandes corporações urbanas de mercadores e artífices, na sua maioria especialistas na cultura e fabrico de sedas, lacas, porcelanas, produtos agrícolas, aves e animais domésticos para servir o grande público. Bancos e companhias privadas desenvolviam-se e financiava vultosos negócios com papel-moeda, emprestado a juros. No mar também se desenvolveu um importantíssimo comércio, especialmente entre as cidades litorais mais ricas de então: Ch’üan-chou, Amói e Cantão. Mais tarde surgiu Macau, muito perto destas áreas. Nestes portos, os muçulmanos já eram senhores de muito respeito, além de outros estrangeiros, especialmente povos da longínqua Mesopotâmia.
Com tanta riqueza comercial, a maioria dos chineses elevaram o nível cultural, técnico, científico e espiritual. Muitos construíam wa-tzu (ou jardins de prazer e bem-estar). Eram, portanto, predecessores das casas de campo, dos nossos dias. A cultura também tinha o seu lugar cimeiro: teatro, fantoches, jograis e contadores de estórias (cujos contos se transformaram nas primeiras novelas). Muitas peças teatrais e romances estimularam, por sua vez, um intenso comércio editorial de livros produzidos em série. Daí nasceu uma importante classe urbana de literatos. Cerca de 1200 as escolas particulares e oficiais multiplicavam-se rapidamente, dando resposta às exigências não só dos exames oficiais, como da cultura popular. Consequentemente, as cidades do Sul, incluindo Hangchow, que era a maior cidade do Mundo, tornaram-se grandes centros de ensino. No séc. XIII, os matemáticos chineses eram peritos em álgebra e os médicos já tinha inventado uma vacina contra a varíola. Em resumo, pode dizer-se que a “revolução comercial “da China e a reforma governamental Song tiveram enorme repercussão na Sociedade chinesa. Contudo, os reformistas e os investidores Song não conseguiram enfrentar a fúria e a ambição dos seus inimigos internos e externos. O fim dos Song surgiu repentinamente  em 1279, com a morte do último imperador desta dinastia, ao fugir do furioso ataque das irresistíveis hordas de mongóis, que passam a ser, agora, o novos senhores da China e não só, pois muitos países nossos coevos, agora mais sossegados, têm suas raízes mais profundas nas diversas Tribos mongóis: para que não esqueçam, lembramos alguns: Turquia, Hungria, Finlândia, grande parte da população russa do Oriente, onde se mistura muito sangue mon­gol. Não se sabe bem se os actuais Bascos também se possam meter classe, incluindo muitos ciganos que vagueiam pelo Mundo e ignoram as suas raízes.

 

Narciso

Maria Alice Martins
colaboradora


Ó narciso ó narciso

Narciso minha paixão

Tu bateste à minha porta

Eu abri-te o coração.

 
Narciso da minha vida

Narciso dos meus sonhos

Fico sempre enamorada

Quando olho nos teus olhos.

 
Decerto tu serás meu

Tenho-te tanta feição

Vives no meu pensamento

Moras no meu coração.

 
Já passaram tantos anos

Narciso da minha vida

Eu abri-te o coração

Naquela noite esquecida.

 
Naquela noite esquecida

Tu bateste à minha porta

Eu abri-te o coração

Levaste a chave que importa.

 
Eu abri-te o coração

Levaste a chave que importa

Eu passo os dias à espera

Que venhas bater-me à porta.

 
E nesta noite tão fria

Teu carinho é meu abrigo

Diz só que me tens amor

Que eu fico sempre contigo.

 

 
Edição 4282


Ovos de Páscoa

 

Lima Barreto
Colaborador

 

A história de cada povo é a sua maior riqueza e nela cabem os acontecimentos que definem a personalidade jurídica, cultural e política de um homem social, além de um todo conteúdo sociológico baseado em arquétipos de rico conser­va­dorismo, como são as lendas, as tradições, os costumes.

 Assim, o parceiro social de uma convivência histórica pode bem ser a lingual de um povo, como até a sua própria ficção filosófica: há uma atracção indomável pelos heróis, e um fastídeo arrepiante pelo culto do insucesso. Uma sociedade não nasce como o fio de um ribeiro que a montanha pariu, algures, no tempo, mas antes como a manta ou o pano de um linho que se tece com a mão rústica ou letrada de tanta gente quase desconhecida. As pessoas não existem apenas como os fios de uma aranha que cada um constrói, sem mesmo dar por isso, para si e para os outros. Todos construímos o tecido social.
Agarramo-nos tantas vezes a diversas efemé­rides, não tanto para reforço do tradicionalismo, mas mais como um elemento essencial de nós próprios, que é a alegria.
Aparece agora no segundo trimestre do ano, a Páscoa; como símbolo da alegria.

Mas porquês se ela pressupões toda uma quarentena quaresmal imbuída de sacrifício e de luto? Não interessa intro­nizar os sacrifícios, mas antes personalizar a alegria.
A tradição popular é semelhante a um pássaro que faz o seu ninho; parece sempre tudo igual; é feito quase sempre das mesmas coisas; e sempre lindo; e todas as vezes diferentes. Há que preservar as boas tradições, ainda que elas estejam ou não ligadas pelo tal “ópio do povo”. E este povo precisa tanto de festas, quase como mudar de roupa, para imprimir nova cor aos dias, à rotina dos quotidianos ou ao mono­córdico despertar das manhãs. O envolvimento das pessoas, na Páscoa, faz-se de mil maneiras, mas manda a tradição que os padrinhos dêem o “folar” aos afilhados; que se triture amêndoa ou que se saboreie uma fatia de pão-de-ló; que se distribuam tremoços pelos mais carenciados, acompanhados de uma pinga que espirre de uma torneira, tempesti­va­mente; que se coma fartamente o cabrito assado ou se pintem os ovos de policromas tonalidades. Enfim, a Páscoa é doce, como o Carnaval é gordo.
As famílias juntam-se deslocam-se como se a atracção fraternal fosse um íman induzido pelo calor da recíproca generosidade. As casas cheiram a fresco porque o lixo não pode coabitar com a curiosidade feminina das pessoas e das coisas. Então vai daí que a barrela também é comadre da Santa Páscoa.
Falar de Páscoa serve assim para atenuar os nossos fracassos, endivida as pessoas face ao repto da doçura; faz esquecer mazelas; parece que a vida é mais fácil, os projectos são encapotados com túnicas brancas a substituir o roxo qua­resmal. Alguns confessam os seus pecados porque lhes são pesados; outros subtraem-nos com singeleza, dormindo sobre eles, como a cinza adormece sobre o carvão queimado. Afinal, todos temos os nossos defeitos; e estes são a coisa mais repetitiva do dia-a-dia; é fácil ter um defeito, difícil será cultivar uma virtude.
Dado que a pondera­bilidade do quotidiano exige toda a espécie de renúncias, também a espontaneidade de um festejo reivindica colocar-se na passarela com alguns sonhos cor-de-rosa ou de marfim. Sonhos com cheirinho de alecrim; oportunidades geradas e não consubs­tanciadas; delírios de um prazer ilimitado de criar génios sem defeitos, enfim, milhões de situações deliciosas que são como ovos da nossa bela Páscoa. Os sonhos não são para se materializarem, senão deixavam de ser sonhos.
Há prendas que se não chegam a receber porque o orgulho de cada um, por vezes, mancha o dever gratuito da generosidade. Todos nos sentimos felizes quando alguém se dá com naturalidade aos outros; não estamos assim tão longe uns dos outros, mas quantas vezes fazemos a caminhada como duas montanhas paralelas, mudas como surdas. Os Ovos da Páscoa que cada um espera receber, podem não ser senão ovos de avestruz rachados ao meio.
A vida não está fácil e poucas são as pessoas que esperam por Ovos da Páscoa. A própria gover­nação que nos oferece? Uma alarmante carga fiscal; um ensino que continua em crise permanente; uma saúde para os portugueses que está assente em estruturas anquilosadas; uma convivência social baseada na degradação continua do uso e abuso dos bons costumes e das boas maneiras; uma comunicação social que nos atira para autênticos campos  de concentração do fútil e do inútil, tornando o homem, preso da máquina e si próprio; poluição das ideias que se esvaziam de ideias. Esta visão é bastante pessimista, mais ilusória que os Ovos da Páscoa, mas de facto o síndrome moderno parece ser a destruição do homem pelo homem, comparativa a uma eutanásia provocada e consentida.

Ovos de Páscoa. Quanto engano.

Seria bom que algo de melhor nos reservasse a nossa própria compostura social; que as crianças não fossem aritmeticamente fechadas em gavetos socio-culturais, delineados pelos nossos erros, perante a incapacidade de vencermos uma batalha, que não é senão a nossa própria sobrevivência.

 

O Compasso

Jaime Franco
colaborador

O compasso é um negócio,

Que está para durar,

Qualquer padre arranja um sócio,

Para ocupar o seu lugar.

 

No tempo em que cada padre,

Tinha a sua freguesia,

Era Páscoa de verdade,

Hoje é pura fantasia.

 

Mas mesmo sendo diferente,

É sempre uma festa alegre,

Porque hoje esta nova gente,

O que quer é come e bebe.

 

E isso é coisa que não falta,

Já deixou de ser surpresa,

O melhor que há na ribalta,

Aparece em muita mesa.

 

O que gosta de doçura,

E portinho a acompanhar,

Vai encontrar com fartura,

Em qualquer casa que entrar.

 

Há lagosta e camarão,

Champanhe para acompanhar,

Há cabrito e há leitão,

E até lampreia e caviar!

 

Há presunto e salpicão,

Há bebidas a granel,

Há tinto do carrascão,

E aguardente com mel.

 

Uns cantam a aleluia,

Outros só fazem barulho,

Dão ao Compasso alegria,

E vão enchendo o bandulho.

 

Para acompanhar a Cruz,

Até há quem tire férias,

E à pala de Jesus,

Tira o ventre de misérias!…

 


A máquina fotográfica de Kirlia (13)

 

João Gonçalves Costa
colaborador

 

No Ocidente acredita-se no trabalho dos Devas e os Elementais para defender as grandes massas de árvores. Em Portugal, tudo quanto é florestal, lenhoso ou capaz de fazer sombra a alguns, arde e destrói tudo. Então, quando chegam. os bombeiros  pouco envolvidos e, finalmente, proceder ao relatório das despesas a cobrar ao nosso povo.

 As florestas da Austrália e da Florida ardem, e hão-de arder ainda mais, porque foram invadidas pelas habitações dos mais ricos, menos sociáveis, que se instalam em qualquer lugar do planeta só porque têm mais dinheiro e poder sobre os mais fracos. Aí começa o trabalho dos guardiães da Floresta. A Natureza é um bem planetário de todos, ricos ou pobres. Ela  tem que ser vista em termos anacrónicos e apartidários. Com o aquecimento galopante do Planeta, devido a estes abusos, as espécies vegetais percorrem mares, oceanos e instalam-se onde sabem que podem sobreviver e continuar a desfrutar dos elementos essenciais à vida: água e sol. Nos mares, também há guardiães para enfrentar os que pretendem acabar com a fonte da Vida na Terra. Por isso, muitos ambiciosos lá entram e depois não podem sair de lá vivos.
Desde há milhões de anos que o Homem tem vivido em paz e respeito pelos mares e pela Natureza. No Oriente, os monges passavam mais tempo na floresta do que na cidade, ou nas salas de jogos e haréns. As  preces, as orações, os mantrams, o sacrifício, o jejum, as mensagens de paz e amor são formas antigas e modernas de ajudar o Planeta a equilibrar suas energias vitais, planetárias e cósmicas. Os muçulmanos dizem: “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vem a Maomé.” E nós, onde vamos, depois dos incêndios? Restam-nos, pois, as hortas fluviais para refrescar os neurónios.
A Flora e a Fauna são dois pilares da Vida na Terra. Se fôssemos clarividentes, ou atentos ao despertar da nossa consciência individual e colectiva, facilmente concluiríamos desta verdade.
Nos anos de l939, Semion Krasnodar Davidowitsch Kirlian, técnico de electrónica, cidadão soviético de origem arméni (Croácia), conseguiu, pela primeira vez, fixar imagens de uma mão e de folhas de plantas vivas, em fotografia, segundo um aparelho por ele concebido. A partir daí, numerosos investigadores se debruçaram sobre esta temática. Os esposos Kirlian provaram que se podem fixar em fotografia as energias das plantas, bem como dos próprios humanos. Basta arranjar maneira de as fotografar pelo referido processo.
Afinal, o que essa máquina capta são as vibrações, diríamos, a consciência vibracional, dessas plantas (que não é igual para todas). Geralmente usam-se as folhas e as flores para efeito de análises, já que os caules e as raízes funcionam como canais condutores de energia. O estudo das plantas ajuda também à compreensão do papel do homem na Terra e às  suas obrigações, face à defesa intransigente dos elementos que nos rodeiam.

 

Um erro político desnecessário

Hélio Bernardo Lopes
Colaborador

 

Decorreu há dias lugar em Lisboa um colóquio subordinado ao tema, Tempos de Transição, em que foram oradores Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Maria Caetano, filha do antigo Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, e que tratou, precisamente, da passagem deste nosso político pela chefia do Governo.

 O atual académico terá ali referido que Caetano era um homem excecional, o que constitui uma indiscutível realidade, e com da qual eu mesmo, muito mais distante no contacto do que Marcelo, sempre pude perceber e testemunhar.
Marcelo referiu, por igual, que Caetano terá chegado ao poder dez anos mais tarde do que seria desejável. É um ponto com que não concordo completamente, porque a sua aceitação remete-nos para a possibilidade de Caetano dispor já nesse tempo mais antigo de uma visão política para o futuro das nossas antigas províncias ultramarinas, o que, de quanto li até hoje, nunca encontrei.
Tocava a nossa questão ultramarina demasiado fundo a vivência histórica dos portugueses, o que foi possível observar em Almeida, por via de uma histórica intervenção pública de Teófilo Carvalho dos Santos, logo ao início da violência no norte de Angola, quando ali se manifestou contra a barbérie que havia sido praticada e em favor da defesa da presença portuguesa na nossa antiga província ultramarina.
Claro está que tal posição veio depois a sofrer modificações, mas também é verdade que as mesmas se ficaram a dever à moda da época e não a um equacio­na­mento capaz de quanto estava em jogo.
Fora do poder da nossa vontade, o tempo foi naturalmente decorrendo, e o que hoje se pode ver da situação vivida pela maior parte do continente africano não é de molde a sufragar a iniciativa de conceder independências do modo como tiveram lugar, quando os europeus se deram conta de que poderiam explorar as riquezas daquele continente com um preçço muitíssimo mais baixo.
O que é paradigmático é o caso do Zimbabué, desde o início da sua independência apontado como um caso de descolonização exemplar, mas onde, afinal, a sua população de pouco era detentora, porque a grande riqueza do país ficou, naturalmente, nas mãos dos históricos colonizadores. O resultado está hoje bem à vista.
E o que é verdade foi o referido em certo discurso de Caetano, a cuja luz, sem as nossas províncias ultramarinas Portugal ficaria de mão estendida perante a Europa mais desenvolvida. Precisamente o que se tem visto, e num domínio onde, afinal, nunca a nossa dita democracia concedeu aos portugueses o naturalíssimo direito de decidir o futuro do seu País.
Atualmente oitocentos mil portugueses vivem em Angola, sendo que o ritmo da sua chegada ali só não crescerá se for impedido, sendo que está a mostrar uma realidade histórica de há muito conhecida, ou seja, que o País não consegue um desenvolvimento harmonioso e sustentado só por si. Vistas bem as coisas, nem mesmo o dinheiro europeu chegou. Ao contrário, o que voltou foi o novo Eldorado de Angola e a generalizada emigração para as mais diversas partidas do Mundo. Precisamente o que Caetano referiu nesse seu longínquo discurso.

O ascendente da política sobre a economia

 

Manuel Pires Trigo
Colaborador

 

Duas poderosíssimas forças se digladiam, se conluiam, se harmonizam perante a nossa clara impotência. Desde que a economia assumiu o seu papel na sociedade, libertou outras forças e as pôs a colaborar no sentido de obter novos bens que não só os naturais, que a política, até aí única força dominante na sociedade, com a fiscalização mais ou menos próxima, mais ou menos comprometida da religião, vem travando uma luta inglória pela reconquista da hege­monia.

 Cedo os políticos liberais e libertários se aperceberam que era necessário que a política tivesse uma independência total da religião e um ascendente claro sobre a economia, que esta se submetesse àquela, que fosse a política o intérprete dos interesses gerais da sociedade. Na realidade, mesmo que não quisessem que houvesse promiscuidade, os políticos raramente têm capacidade para resistir à força da economia.
No caso português a economia nunca teve um papel notório nem mesmo antes de Salazar, quanto mais na ditadura deste. A política sempre foi preponderante e os agentes económicos sempre foram subservientes perante ela. No entanto não era este ascendente que os políticos democráticos pretendiam ter. Após o 25 de Abril e após um pequeno período de capitalismo de Estado mal definido, até foi a política que mais contribui para que a economia ganhasse uma nova energia, se libertasse de uma tutela castradora, obsessiva.
Cedo a economia portuguesa se integrou para o bem e para o mal na economia europeia e através desta na mundial. De forme que até podemos dizer que houve sectores da economia que aprenderam bem mais depressa os esquemas fraudulentos que os processos honestos. De tal modo que a crise financeira mundial trouxe à tona da água iguais problemas àqueles que são correntes nos países mais avançados, baseados na mesma ganância, aventureirismo e inebriamento argentário.
De repente a economia parece ter ficado de gatas perante a toda-poderosa política que agora sim, parece não ir deixar a oportunidade de a submeter, à economia, a regras que a ponham a contribuir tão só para o seu fim específico. Mas nunca o será com o beneplácito da direita, ainda a sonhar com as benesses do neo-liberalismo, e que quer deixar que a economia tome de novo as rédeas do poder, se auto governe, se auto satisfaça e se auto destrua, se for caso disso.
A direita que não é suicidária estará pronta a arrepiar caminho. Mas cabe à esquerda fazer algo mais, tomar a iniciativa de lançar princípios que não sejam os velhos princípios igualitários, sem mérito e sem credibilidade, mas novos princípios que moralizem a distribuição e o uso do dinheiro. As medidas que podem ajudar a definir esses princípios são:
Começar pelo fim dos paraísos fiscais, contra os múltiplos interesses que lutam pela sua manutenção, mesmo que já se resignam a menos benesses. Depois há necessidade de tornar claras as condições do empréstimo de dinheiro e da tomada de empréstimo do mesmo. Só pode emprestar dinheiro quem o tem e só pode pedir empréstimos quem possa pagar os encargos respectivos.
Não é admissível que se invista dinheiro na depreciação de qualquer tipo de bens, sejam mobiliários ou imobiliários. O investimento tem que ser feito pela positiva e com o conhecimento de toda a espécie de riscos que sejam plausíveis, sendo que o seu grau de probabilidade será sempre uma incógnita. A economia não necessita dos complexos produtos financeiros, criados com o único fito de mistificar a realidade.
Ser proprietário não significa ter o direito a usar discricionariamente os seus bens, nem mesmo os rendimentos que deles possam advir. É necessária a consagração do dinheiro, das empresas, das organizações como bens sociais cuja utilização e usufruto devem obedecer a regras claras. Impõe-se uma gestão providencial, que tenha em conta o interesse social e o futuro, incluindo o seu próprio ciclo de vida.
Têm que haver entidades que se interessem pela viabilidade e vitalidade de cada negócio e que tenham os poderes de autorizar e fiscalizar a sua actividade, nomeadamente dos desvios que desvirtuam o fim para que cada empresa é criada. Tem de ser encontrado uma conciliação favorável entre a livre iniciativa e o condicionamento que se impõe em sectores em que a anarquia que se instala é prejudicial.
Com a criação dos negócios especulativos permitiu-se desligar o dinheiro da sua origem no trabalho produtivo e “autorizou-se” que as pessoas fizessem dele o que mais lhes aprouvesse. Sendo de todo impossível terminar com a especulação, é de todo possível impedir que os negócios assentes numa outra actividade ponham a sua própria viabilidade em risco só por quererem entrar num negócio para o qual não têm vocação.
O marxismo pretendeu criar uma relação mecânica entre o trabalho e o dinheiro. A tentativa de a levar à prática na URSS revelar-se-ia um fiasco monumental. Mas o forrobodó neo-liberal que se seguiu à queda do muro de Berlim deu no que deu, nesta crise de contornos tenebrosos. O que esta crise veio provar é que, por mais valor que os bens que hoje se criem venham a adquirir no futuro, continuará a ser o trabalho humano a fonte primordial em que vai assentar a economia do futuro.
E quem senão a política será capaz de impor directrizes para a actividade económica de modo que ela não derive para caminhos duvidosos? Como há duzentos anos se coloca de novo a necessidade da primazia da política sobre a economia. Se não forem tomadas medias quanto antes, verificaremos que o actual ascendente corre o risco de não ser senão passageiro.



Eu acredito

Maria Alice Martins

colaboradora

 

Eu acredito em Ti Senhor

Eu acredito

Eu acredito na tua mensagem

De paz e amor

Eu acredito tu és o caminho

Eu acredito em ti meu redentor

Eu acredito tu és a esperança

Eu acredito tu és a verdade

A tua palavra é que me enriquece

Eu já encontrei a felicidade

A Estrada é longa

Mas não tenho cansaço

Por mim esperas Senhor

Eu acredito

E eu caminho sorrindo na dor

A força me vem do infinito

O teu rebanho

Conhece o pastor

E já se apascenta

No alto da serra

A tua palavra senhor

Eu acredito

É como a água

Que fecunda a terra.

 

 

 .........................

Deportado não, obrigado!


Defensor Moura
Presidente do Município de Viana do Castelo

Nas últimas semanas os relatos da qualidade arquitectónica de Viana do Castelo têm competido com os recados sobre o meu futuro político, no noticiário local e nacional.

O destaque proporcionado à nova arquitectura vianense pela conceituado revista inglesa da especialidade Wallpaper, a propósito da distinção concedida pela rainha Isabel II ao Arquitecto Siza Vieira, constituiu uma inesperada promoção internacional de Viana do Castelo que, felizmente, foi vastamente reprodu¬zi¬da no nosso país por diversas reportagens publicadas em jornais diários e revistas semanais.   
Lamentavelmente, em vez de se congratularem com mais este sucesso de Viana do Castelo, houve protagonistas políticos que estiveram mais interessados em inventar cenários sobre o meu futuro político.
Primeiro propagan¬deando que tinha sido vetada a minha candidatura à Câmara Municipal, aprovada por unanimidade pela Comissão Política Concelhia do PS.
Depois anunciando que eu iria para deputado e, finalmente, que José Sócrates me tinha destinado lugar na lista de deputados do Porto ou de Lisboa.
Foi esta a questão que me foi colocada pelos órgãos de comunicação social, logo que cheguei da minha viagem ao estrangeiro.
Naturalmente respondi que continuo a ser candidato à Câmara Municipal da minha terra natal, dado que não tenho conhecimento de qualquer decisão partidária em contrário, já que a federação distrital apenas avocou o poder de decidir sobre isso, mas ainda não decidiu quem será o candidato.
Quanto à candidatura a deputado, confessei que seria um desafio interessante protagonizar uma efectiva e activa representação do meu município na Assembleia da República, sendo o porta-voz do pensamento e da experiência de Viana do Castelo que há tantos anos faz falta naquele fórum nacional.
Mas sendo, naturalmente, candidato e eleito por Viana do Castelo!
Até porque desconheço qualquer acusação fundamentada de malfeitoria, nem sei de qualquer julgamento que me condenasse à deportação!
Não é muito próprio do sistema democrático o julgamento sem possibilidade de defesa, nem a eliminação administrativa ou desterro de adversários políticos!
Mas sobre isso, terei com certeza oportunidade de expressar melhor o meu pensamento independente, se a tal for obrigado.
Por agora, quero apenas denunciar a forma como esta questão está a ser encarada por alguns dos intervenientes directos ou indirectos neste infeliz episódio partidário.
Como para a maioria deles, ser presidente de câmara foi uma promoção social e ser deputado é um bom tacho, consideram os cargos que me querem “atribuir” como uma choruda compensação para o atropelamento pouco democrático que me prepararam.
Desenganem-se, bondosos beneméritos.
O exercício do cargo de Presidente de Câmara não me trouxe qualquer promoção social na minha terra, nem muito menos qualquer vantagem económica e, até, o inerente protagonismo cívico tive o cuidado de o repartir com os excelentes vereadores que integraram as equipas que escolhi.
Pelas mesmas razões, não considero que ser deputado seja um invejável tacho!
Aliás, nunca precisei nem lutei por tachos, mas não prescindo da intervenção cívica que norteia a minha vida há cinco dezenas de anos, nem abdico do meu direito democrático de exercer os cargos para que sou escolhido e eleito pelos meus pares e concidadãos.
Independentemente, quer das dificuldades do empreendimento quer dos engulhos que possa provocar aos meus adversários!

Alguns pobres levam a vida de rico

Lima Barreto
Colaborador

Há pobres que não trabalham; que não têm doenças e por isso não  vão à farmácia; que não perdem o sono por causa de negócios; que não ligam ao vestuário e desprezam mesmo a caricatura de uma gravata formal.

Não têm dinheiro, daí também não terem vícios. O pobre é sempre mais feliz do que o rico, porque não tem preocupações de maior. Não sonha com o que não pode ter nunca; assim não sofre de insónias… O verdadeiro pobre é aquele que nunca sonhou. “ E o que dá ao pobre empresta a Deus”. Pobre não é aquele que tem pouco, mas aquele que deseja mais.
O problema da pobreza é o de ocupar o tempo todo.
A pobreza não é vergonha, só é muito des¬confortável. O maior fardo que o pobre carrega consigo, é a pobreza com pertences. Se a pobreza, por vezes, é mãe de  crimes, a falta de juizo é o seu pai. O funeral de um pobre é menos triste do que o rico porque tem pouco acompanhamento. Não pensam no futuro porque o que se diz mal é sempre do passado. O presente, para um pobre é a longevidade da sua vida: normalmente vivem tempo de sobra, muito superior ao que vive uma pessoa rica . Nenhum homem é suficientemente rico para poder comprar o seu passado, muito menos o seu futuro.
Nem a pobreza, nem a riqueza, ouvem a voz da razão.
Na riqueza nunca faltam amigos falsos; os amigos dos pobres, pobres são como eles, e por isso têm inveja de nada.
A riqueza  consegue-se com esforço e com o roubo, mas a pobreza sabe que nada tem a perder. Os pobres choram sozinhos.
As suas rugas já são hereditárias. A sorte não quer nada com os pobres porque estes não sabem gastar o seu dinheiro, que são sempre migalhas de ricos. Para um pobre não existe o sucesso, porque ele vive sempre no fracasso assumido. As lágrimas do pobre secam depressa, sobretudo quando se trata das tristezas dos seus semelhantes.
Uma fortuna é a maneira mais simples de começar a enriquecer a partir da fraqueza dos outros. O fracasso descobre o génio e ao pobre não lhe interessa a verdade porque só se inventa  a mentira. O pobre só se sente fracasso quando more. Não pensa no futuro com medo de nele tropeçar. Habitua-se a tudo, porque até o hábito tira a piada ao prazer e ao sofrimento. O pobre não é hipócrita apenas pela razão de que  a hipocrisia é a melhor homenagem que o vício presta à virtude. O pobre ama o vício e odeia a virtude, porque sabe que nunca será santo para ninguém. Não dá esmolas; de vez em quando pratica um furto; não precisa de ser honesto porque tem medo de ser ridicularizado.
Tem fome mas faz dela a sua força de vida; não faz vida de formiga porque a da cigarra diz melhor com o seu perfil. Além do mais nós sabemos que a formiga ocupa um lugar humilde na tradição celta, a humildade não é coisa de pobre, só de “padre”…
O pobre come do pote, o rico come da panela de pressão. O pobre tem cor preta, porque o branco é a cor dos anjos. O beto do pobre é sempre o puto, porque um luto branco é de pessoa “chique” ou tem qualquer coisa de mes¬siánico. O pote do pobre só serve para o caldo, mas para o rico pode servir para guarda dos suas libras de ouro.
O pobre não precisa de poupar, como o rico só precisa de gastar.
Os pobres nem se quer precisam de ler e portanto também não gastam dinheiro em livros. Os ricos compram livros mas não os lêem… Por isso, para um pobre, um livro é sempre aberto como o seu coração; o rico tem os livros fechados porque escondem neles os seus negócios.
O sol é para todos; por isso também é para os pobres. Os ricos não têm mais sol do que os pobres, porque o “sol quando nasce é para todos”…
Para os pobres a morte é o fim das suas angústias, enquanto para os ricos a morte é o leito dos seus remorsos….

Está um navio no cais

Maria Alice Martins
colaboradora


Está um navio no cais
Para o meu amor levar
Não quero vê-lo partir
Para não ter que chorar.

Está um navio no cais
Vai levar o meu amor
Enquanto vai e não volta
Por ele rezo ao senhor.

O navio já vai longe
Já lá vai no alto mar
Com o meu lenço acenando
Chorando o vejo a afastar.

O navio já vai longe
Do cais o vejo a afastar
Aqui vou ficar à espera
P’ra mais cedo o ver chegar.


A igualdade de  oportunidades e a inveja social

Manuel Pires Trigo
Colaborador

A igualdade de oportunidades é a primeira das igualdades e talvez seja a igualdade suficiente para garantir as outras. Há no entanto quem pense que a dificuldade da efec¬tivação de uma séria igualdade de oportunidades deve levar em que se pense como, através de outras igualdades, se pode compensar essa falha e corrigir as desigualdades assim criadas.

Outros dirão ainda que a falta de igualdade não é de agora, tem gerações, e continuamente se agrava. Terá havido um momento primeiro em que todos foram iguais. Depois agrupamo-nos, organizamo-nos em tribos e clãs, em cidades e nações e voluntariamente ou não fomos perdendo igualdade, foram-se definindo funções, foram-se herdando estatutos, foi-se criando um passado colectivo e inveja social.
O Estado Moderno é uma tentativa de repor um certa igualdade à nascença e de contribuir para a não criação de diferenças radicais. Este modelo está longe de ser globalmente seguido embora seja bastante aceite. E cada Estado tem, como as pessoas, um passado representado por sucessivos gerações que confluíram, se sedimentaram e organizaram.
Do nosso passado colectivo se vai deixando um rasto, uma linha de rumo, alguma característica que pode até já já pouco dizer no presente, mas ainda representa uma reminiscência que é levada em conta em momentos decisivos, pronta a desempenhar o seu papel de influência sobre os comportamentos individuais.
Os portugueses são tidos como um povo de conquistadores. Motivo de orgulho para um povo pequeno, vivendo num território pobre e marginal. Mas nunca o senti, nunca participei, nunca me atribui esse rótulo. E se principalmente no tempo da guerra colonial me apercebi que havia quem se sentisse como tal, quem se sentisse vestindo a pele dos velhos conquistadores que um pouco à sorte deambu¬laram por esses mares além.
No tempo da guerra colonial eu aceitava o passado, não renegava as gerações anteriores, mas sentia-me ultrapassado pelos propósitos de então, não me reconhecia neles. Era como se eu sempre tivesse colaborado, participado nas conquistas que haviam sido feitas mas, chegado aqui, tinham feito de mim um conquistado como aqueles que em gerações passadas “eu” ajudara a submeter.
Os benefícios da conquista haviam sido só para uns que permaneceram para sempre conquistadores e não para a maioria que se dispersou misturada com os conquistados. Mas ainda por cima esse pensamento de conquistador sobreponha-se à minha solidariedade para os efectivamente conquistados, o que era a pior lástima para mim.
Esta sensação de estar cá com o coração e lá com o intelecto, de não poder deixar de estar com os meus, com o meu exército, e dar razão àqueles que estão do outro lado é dilacerador para a alma lusitana. Uma nação de conquistadores é uma nação desigual, mas quando persiste no erro para além do razoável perde identidade. Uma nação que não consegue ainda estripar da sua alma essa fonte de desigualdade que a noção de conquista transporta não consegue estar de bem consigo própria.
Estar de bem passa por compreender a razoabilidade das coisas no contexto histórico em que se desenrolaram e a sua reversibilidade natural. Por não darmos aos outros as mesmas oportunidades nossas, eles conquistaram-nas, libertando-se da ignomínia. Também individualmente não estamos prisioneiros de todos os factos que ocorreram na nossa existência. Podemos com¬preen¬dê-los, ultrapassá-los na medida em que constituíram entraves à realização das boas oportunidades ou tê-los em conta quando favorecem os nossos sucessos.
Só tendo a noção do nosso próprio valor saberemos se aproveitamos bem as oportunidades que a vida nos deu ou se os obstáculos intranspo¬níveis as tornaram impossíveis. E temos de estar permanentemente disponíveis, não obcecados, para corresponder a novas oportunidades. Aquilo que nos faz andar angustiados toda a vida é procurarmos compensar no futuro aquilo que a vida nos não deu no passado. Na nossa conta corrente temos sempre um crédito imenso a cobrar não sabemos a quem.
Atribuímos culpas ao desbarato com a ideia peregrina que alguém se poderá dispor a pagar algum dos créditos que temos à cobrança. Como esta atitude não é nada compensatória, embora nós nos não preocupemos que o justo pague pelo pecador, raramente nos livramos desta esquizofrenia colectiva de que todos somos culpados e vitimas. Porque razões não bastamos nós, as nossas dificuldades e ainda temos que suportar este passado normalmente pesado no seu deficit?
Oportunidades perdidas todos tivemos, mas oportunidades que não nos foram dados foram muito mais e para muitos mais. Oportunidades únicas, irrepetíveis são poucas e os que delas beneficiaram são normalmente egoístas e mesmo gananciosos. Mas é destas que nós pensamos quando falamos de igualdades de oportunidades.
Porquê não termos sido nós a ter uma dessas oportunidades? Porquê não a podermos ainda ter no futuro? Podemos pensar assim se não cairmos na inveja social. Efectivamente esta tem nas mesmas oportunidades o seu campo predilecto mesmo que se não fique por aí. Criadas virtualmente pela inveja social imensas oportunidades ficam por surgir e as que aparecem são avidamente procuradas.
Perante a impossibilidades de todas as oportunidades estarem ao dispor de todos, só nos resta combater a inveja social e estabelecer um limite máximo para as imensas compensações que as tais oportunidades únicas podem proporcionar. Os recursos da humanidade são escassos e só têm que ser aproveitados no proveito de todos, afastando-se o egoísmo, a ganância exacerbada e o parasitismo social.

O meu sonho


Jaime Franco
Colaborador

Estando a sonhar, julguei ter ouvido,
Alguém a chorar, por um ente tão querido.

Vi nesse meu sonho, que era por Jesus,
Que num sofrimento medonho, carregava uma cruz.

Coroado de espinhos,
Com o sangue a jorrar,
Ia caminhando,
Arrastando a cruz,
E os seus assassinos,
De látegos no ar,
Iam flagelando,
O corpo de Jesus!…

Com o olhar tão triste e tão magoado,
A todos falou, olhai bem para mim;
Foi para remir o vosso pecado,
Que o Pai me enviou, para sofrer assim!…

Senti na consciência,
Um grande remorso,
E no meu coração,
Uma enorme dor…
E por penitência,
Rezei um Pai-Nosso,
Pedindo perdão,
Ao meu Salvador…

Ao acordar do meu sono, senti paz e bonança!
E ao lembrar o meu sonho, senti nova esperança!…

Vou guardar este sonho gravado na mente,
E enquanto viver o irei recordar,
Pois graças a ele creio firmemente,
Que Jesus morreu para nos salvar!…

Sonhai vós também, irmãos em Jesus,
Não percais a fé e acreditai,
Que Cristo aceitou, o suplício da cruz,
Para nos resgatar e levar para o pai!…



A Consciência Cósmica

das Plantas (12)

João Gonçalves Costa
Colaborador

Consciência, Vida e Alma constituem um trinómio da vida na Terra, em todas as dimensões, desde o Mineral, o Vegetal, o Animal ao Humano. Numerosos estudiosos da vida das plantas provam que estas têm consciência e lutam pela preservação da vida, como os animais ou os humanos. Quando ouvimos dizer que o mundo vegetal está a pontos de se extinguir, é prova evidente que tais observadores nunca se detiveram junto de um antigo vulcão para ver como a vida pula e avança, em todas as dimensões, à volta do vulcão. Na realidade, alguns não enxergam nem compreendem a energia das plantas e dos outros seres. No Universo tudo é energia em vibração. Até os buracos negros são energia.
 Através das suas vibrações, as plantas percorrem o planeta em poucos segundos, detectando perfeitamente onde é possível sobreviver e multiplicar-se. Milhares de espécies exóticas estão constantemente a entrar em Portugal. As plantas procuram os melhores habitats, perguntando umas às outras, onde se poderão instalar livremente. O mar e os rios portugueses são portas abertas à flora exótica. Muitas espécies fogem ao controle dos parques, jardins, aquários e entram em movimento através das águas, auxiliadas pelos ventos. Dizer que são as aves que trazem as sementes na moela é uma lenda como aquele que diz às crianças que os meninos vêm de França no bico das cegonhas. Somos um povo dominado por lendas e conceitos pueris ancestrais, que devemos ultrapassar. A França já não tem cegonhas para todos.
Para nós, muitas são chamadas plantas ruderais, daninhas, infestantes, ou perigosas, só porque são exóticas, desconhecidas, e logo as pomos de parte, no rol dos inimigos. Isto é uma falta de amor pela Natureza. As plantas pouco se importam com o que pensamos delas. Elas têm consciência do seu papal neste planeta. Quando os humanos resolveram transformar os bosques, as serras, elas sofrem, protestam e resolvem  chamar quem as há-de defender. Aí está a causa de muitos e enigmáticos incêndios que deixam tudo em cinzas. Infelizmente, os incêndios são uma endemia mundial.  Tanto ardem as serras da Galiza, como da Grécia, da Amazónia, da Florida, da Austrália. Os inimigos da Vida são idênticos em todo o Mundo. Na selva da América do Sul, os Aluxes defendem, de noite e dia, as terras de seus antepassado Incas, Maias, Aztecas e outras culturas.
Os Aluxes, do México, ligam-se segundo a tradição, às almas das plantas das florestas; estes seres também são chamados, em vários sectores espiritualistas, de espíritos da Natureza e, no Oriente, Devas (deuses menores).Os Espíritos da Natureza trabalham em diversos departamentos correspondentes às diversas classes de plantas.

Considerações inúteis

Hélio Bernardo Lopes
colaborador


Constitui para mim um espanto o modo aparentemente feliz como a grande comunicação social, à semelhança dos partidos políticos oposicionistas, ou mesmo de muitos dos detentores de grandes interesses, se nos mostram em face da chegada de novos indicadores de grandes dificuldades económicas e financeiras do País.
Foi o que voltou há pouco a poder ver-se, depois da revelação do último relatório do Instituto Nacional de Estatística. O próprio Presidente Cavaco Silva, numa sua visita a Abrantes, não resistiu a salientar que os números divulgados por aquela instituição não são nada bons, e que se torna essencial pensar para lá do presente ano.
E não deixam de ser algo espantosas estas considerações, porque que os referidos números não são nada bons já os jornalistas sabiam, sendo de esperar do Presidente da República palavras de ânimo no sentido de que os mesmos podem ser invertidos, embora sob certas condições.
Também deveria ter evitado aquela referência à necessidade de se olhar para lá do presente ano, porque tal seria sempre interpretado como uma alusão a um suposto eleitoralismo do atual Governo, o que, podendo ser uma realidade, é-o naturalmente, e sê-lo-ia, por igual, com qualquer outra maioria que estivesse à frente da gover¬nação. É sempre assim e em todo o Mundo. São considerações que só ajudam a piorar o clima político que o País já vive.
Acontece que o Presidente Cavaco Silva referiu uma outra realidade cujo conteúdo se não consegue entender, e que foi o facto de não se conseguir vencer a crise sem empreendedores. Simplesmente, trata-se de um facto evidentíssimo, embora não possa fazer-se muito neste domínio quando, por natureza cultural, a população é pouco empreendedora. O País tem uma História, já com muitos séculos, e conhece-se bem o que se passou, ao menos, no seu último século e meio.
Diga-se o que se disser, não deixo de ficar espantado com o modo aparentemente feliz como boa parte grande comunicação social e dos políticos das oposições, ou dos comentadores, se manifesta perante a chegada de indicadores que mostram que o País está a andar para trás.  
Como se não estivesse isto mesmo a ter lugar por todo o Mundo! Chega a dar a sensação que os que assim falam têm uma solução para a crise!!

Retalhos Literários (6)

Américo Carneiro
colaborador


Se toda a nossa vida
é desafio

DIOGO BERNARDES

Se toda a nossa vida é desafio,
Se sobre nada tem seu fundamento,
Que descuido este meu? Qu‘errado  intento?
Que pretendo? Qu‘espero? Em que me fio?

Oh vida humana, folha em seco estio
Levada pelo ar de qualquer vento!
Oh flor de primavera, num momento
Chamuscada do Sol, murcha do frio!

Quando cuido no tempo atrás passado,
O que passei m‘espanta, o por vir temo,
No presente não sei que me embaraça.

Mas, ainda que de ti tam alongado,
Ordena tu que torne, ó Pai Supremo,
Este pródigo filho a tua graça.

.............

Ponte de Lima é o sol dos solares

Lima Barreto

Colaborador

 

A mais bela vila histórica do Minho, Ponte de Lima, acaba por ser também o “sol” dos solares. Tem muitos e lindíssimos, hoje quase todos ao serviço do turismo.
Os solares estão ligados à nobreza das gentes e à felicidade das terras. De uma riqueza histórica e cultural e também antropológica, o solar representa o senhor da terra e o servo da mesma; na idade media, mais concretamente, o sítio do nobre a a atracção do pobre pela felicidade dos campos.
Há solares em Ponte da Barca, Arcos de Valdevez, Melgaço, mas a Vila tem os de maior proeminência arquitectural e de atracção turística.
Na antropologia estudam-se as estruturas sociais, como o grande liame estrutural e a relação sanguínea dos povos; a importância das casas e do seu “habitat” sócio-cultural, a relação da família com os seus fundamentos e com os seus “fundos”, o espaço e o tempo ligados por uma solidariedade humana, as relações de vizinhança de proximidade, os trabalhos e as tarefas e também os ecossistemas que fizeram desenvolver modelos sociais baseados na reciprocidade de alguns valores materiais e outros espirituais ou até religiosos. As comunidades limianas, hoje por tidas por paróquias, juntas de freguesia, centros sociais ou casas do povo, têm o sinal da nobreza não só nos seus castelos mas também nas suas gentes, nos aldeamentos caldeados de tradições populares, muitas dele ainda hoje sobrevivas, fazendo o património imaterial de toda esta região, com manchas de agricultura avulsa e agregados familiares escravos do trabalho.
Os solares de Ponte são conhecidos em todo o nosso País e até no estrangeiro: e isto porque à volta deles se criou uma religiosidade laica e ao mesmo tempo estimulada por crenças mitológicas e divinas, que são o segredo maior desses recantos paradisíacos. Promoveram em seu redor o folclore, as romarias festivas, o fortalecimentos das feiras, enfim, eles são ainda hoje quase uma simbiose confusa entre o religioso e o maçónico, porque são quase como lojas de segredos que só os nobres conhecem.
Deram origem a uma literatura aristocrática mas também popular, porque o nobre nunca se quis separar do pobre, para benefício recíproco.
As terras de Diogo Bernardes e António Feijó, celebradas na mais bucólica ribeira portuguesa, têm o seu coração em terras de Ponte de Lima. E na área deste concelho que castelos coabitam com veias e alvéolos, encostas e cumes, biombos de montanhas a espiarem o Rio Lima e outros rios menores, ribeiras, riachos, fontes, nascentes, tudo o que faz o encanto natural de qualquer jardim geograficamente estratégico e localizado numa densidade histórica e humana, harmoniosa, sempre defendida dos ventos e sempre bafejada de sombras miticas e do sol radioso do nosso verde Minho.

Os castelos, para esta região limiana, são como as suas próprias igrejas: locais de concentração de tradições e costumes, cantares e dançares e ainda por cima com uma ementa gastronómica fenomenal, sem par neste nosso torrão natal.
Num habitat muito disperso nasceram castelos, como cogumelos nas matas sombrias da região limiana. O palácio nunca sufocou o casebre e o casebre nunca menosprezou o palácio, sua fonte de sustento durante séculos.
Por isso é que a nobreza na região limiana nunca foi conflituosa com o seu povo, porque esse povo soube aproveitar o que o palácio tem de inebriante:  “o seu genius loci”, isto é, a alma da história limiana, num espaço geográfico de eleição, dom da natureza e do trabalho do homem.
Os muitos testemunhos arquitectónicos desses castelos estão recheados de talhos, pinturas e azulejos, uns sobretudo do gosto e do interesse dessas gentes em preservá-los no cadinho da sua mais bela história.

 

Os medos portugueses

Hélio Bernardo Lopes

Colaborador

 

De grande interesse, como costuma ser já hábito, foi a recente entrevista que António Pires de Lima, antigo Bastonário da Ordem dos Advogados, concedeu a Ana Lourenço e ao programa, dia d.
Nunca tive a honra e o gosto de conhecer António Pires de Lima, mas é minha convicção de que não deverá alguma vez ter mexido uma palha para pôr em causa o regime constitucional da II República. E, a ser tal uma realidade, nunca teria razões para sentir medo de viver nesse tempo.
Eu mesmo, antigo e claro apoiante daquele regime constitucional, também nunca senti medo de viver nesse já longínquo tempo, sendo que desde muito novinho, aí com os meus oito anos, já falava de política em casa e com os amigos da família.
Já no meu tempo de liceu, essas conversas eram diárias e uma marca típica dos rapazes e das raparigas do meu liceu e das suas turmas. 
Falar de política, discuti-la, opinar sobre literatura, cinema ou música, bom, eram coisas correntes, e marcas que permitiam criar lideranças de tipo diverso.
Naturalmente que havia a PIDE, e mais tarde a DGS, mas estas pobrinhas só dispunham da possibilidade de utilizar cerca de meia centena de linhas telefónicas na central dos TLP da Trindade.
Por todo o território nacional, a rede telefónica era a dos CTT, com a sua organização em árvore e centrada nas designadas mesas, pelo que a escuta telefónica sobre um nosso concidadão fora de Lisboa e Porto - área dos TLP -, era praticamente impossível de realizar, porque logo as estruturas de que estivesse a ser escutado, com probabilidade elevada, tomariam do facto conhecimento.
O antigo Bastonário da Ordem dos Advogados desconhece uma história que comigo teve lugar num domingo de Agosto de há três anos. Com um telemóvel que me havia sido emprestado, de molde a poder falar com a família, fui-me entretendo a marcar para a minha casa e casas de amigos que sabia estarem fora do País, a passar as suas férias.
Em dado momento, cerca de um minuto depois de marcar certo número, recebi uma chamada de um outro desconhecido, e que não atendi. E fiquei admirado com tal facto, porque desconhecia completamente aquele número de telefona da rede fixa e de Lisboa.
Uns trinta minutos depois, voltando a brincar com o telemóvel, repeti as chamadas para os tais números cuja casa estava vazia. Num ápice, logo depois de marcar o tal número referido atrás, eis que voltei a receber nova chamada do tal número desconhecido. Perplexo, escrevi esse número no livro que tinha na mão e que me encontrava a ler, sobre a História das Equações Algébricas.
Ao final de Agosto cheguei a Lisboa e cerca de uns vinte e tal dias depois ocorreu-me ao pensamento o tal caso das chamadas que não atendi. Procurei o livro e pedi à companhia a morada do tal número. 
Qual não foi o meu espanto, quando vi o proprietário do número: uma família muito conhecida, de vista, que uns tempos depois o locatário do número para onde eu ligara antes de ser solicitado me disse que não conhecia...
Em síntese, o meu amigo conhecia, pessoalmente, a tal família, a quem facultava a chave de casa, fosse lá a razão a que fosse. Em todo o caso, nunca me revelou tal facto, o que passou a constituir mais uma resposta a uma questão de há muito conhecida nos seus contornos e na sua sbstância. São as consequências do modernismo, mas também um sinal do tempo que passa.

 

Primavera

Maria Alice Martins

colaboradora

 

Primavera espaço curto

Encantos sem igual

Fazem as aves os ninhos

Desabrocha o roseiral.

 

As primaveras passadas

São meus sonhos e quimeras

Já não és o que eras antes

Já não és o que antes eras.

 

Coitada de mim coitada

Mesmo assim sorrindo vou

Recordando a Primavera

Que há tempos por mim passou.

 

Na estação da Primavera

Há nela dias bem frios

Na primavera da vida

Também há dias sombrios.

 

Nos dias de Primavera

Anda perfume no ar

Volta sempre a Primavera

No brilho do teu olhar.

 

 

A satisfação com o trabalho e a satisfação com o cargo

Manuel Pires Trigo

Colaborador

 

Muitos de nós tivemos a ilusão de que seria possível a existência de uma sociedade de funções em que o seu desempenho não constituiria qualquer caracterização do homem. Imaginava-se uma inte­gração social absoluta e um respeito absoluto pela individualidade que teria a suficiente liberdade para a desenvolver. Pura utopia, é evidente.

 A sociedade tal como a conhecemos permite-nos apostar em duas formas possíveis de inte­gração e o desenvolvimento pessoal está condicionado por elas mas também por múltiplos outros factores. Normalmente damos primordial importância à independência económica, base para que possamos desenvolver outras vertentes, se assim entendermos. A primeira caracterização do homem passa pelo seu trabalho.
Numa segunda escala dos valores colocamos o papel social, realizado segundo o princípio da nossa liberdade de iniciativa e da oportunidade social, mas também muitas vezes usado somente como justificação para a nossa reivindicação de independência económica. A relação entre papel social e situação económica nem sempre é pacífica.
São duas as formas de integração social mais comuns e passam pela empregabilidade e pelo empreendorismo, mas não estaremos longe da verdade se colocarmos como suprema ambição do homem a ociosidade. No entanto a mais banal dos nossos percursos leva-nos a lutar pela preparação para o desempenho de uma função numa qualquer organização de que não somos proprietários, uma luta pela empre­gabilidade.
Já a existência de alguns factos favoráveis nos podem levar a desenvolver uma superior capacidade de iniciativa, mas também uma capacidade própria para manter vivo um projecto, para assegurar a continuidade de uma organização. Muitos empreendedores começam bem mas falham e a razão maior é o excesso de confiança. A satisfação que se tira é muito subjectiva, mas é sempre fraca se só passa por não estar dependente.
Porém uma das razões que dá origem a mais falhanços entre aqueles que não têm que ter “patrões” é a ociosidade. O acompanhamento que qualquer negócio exige não se compadece com uma entrega absoluta ao ócio. Poucos terão a sorte de puderem vir a beneficiar verdadeiramente deste estado que nos pode dar o tempo de reflexão que a vida normal no geral nos não faculta.
O que acaba por tocar a quase todos é pois sermos empregados. A diversidade do emprego tem aumentado continuamente. No tempo em que a agricultura era a principal actividade, os comerciantes e os artesões eram os únicos empregadores. Outros serviços e mesmo da área cultural só estavam as dispor dos Reis e de alguns poderosos.
O desenvolvimento da indústria trouxe desenvolvimento do comércio, dos transportes e mais tarde derivou para novas áreas como a energia, as comunicações, os serviços pessoais. Também as organizações se foram tornando cada vez mais complexas e portanto a necessitar de pessoas capacitadas para desempenhar funções a diferentes níveis de responsabilidade.
O emprego evoluiu de modo a corresponder a cargos e a dar às pessoas posições na escala social. Estão disponíveis aos empregados diferentes papéis sociais. A alguns são atribuídos poderes que, sendo específicos, não deixam de ser relevantes. O tipo de organização, privada, associa­tiva ou do Estado é determinante para este efeito.
Em qualquer tipo de sociedade é inevitável que haja uma divisão social do trabalho. No geral as pessoas procuram empregabilidade, adquirem capacidades para lutar por um lugar e vir a ocupar um ou mais dos cargos disponíveis no mercado de trabalho. A adaptação das pessoas à função, ao cargo não tem que ser absoluta mas é determinante para a eficiência da organização, para tirar os benefícios do seu trabalho. Mas, não raro, estamos satisfeitos com o trabalho, mas insatisfeitos com o cargo.
Cabe aos gestores sociais preocuparem-se com este aspecto da questão, mas o imedia­tismo e o acaso da sorte, se vistos em termos subjectivos, são mais deter­mi­nantes que qualquer princípio que se procure implementar. No geral é inglório procurarmos o ajuste certo entre as pessoas e o lugar que ela ocupa em termos de organização de trabalho e da partilha dos benefícios económicos que a actividade global nos proporciona a todos.
A realidade humana está cheia de injustiças que se reflectem no individual e no colectivo. Bloqueamos perante elas, ficamos constrangidos perante a impotência que em nós se manifesta quando nos sentimos injustiçados, mas tal passa por darmos pouca importância a nós mesmos.
O termos consciência de que esta é a injustiça primeira, o não ocuparmos o lugar em que nos achamos com direito, não quer dizer que não vivamos a nossa circunstância com o sentido de relatividade que ela comporta. Normalmente achamo-nos compensados ou descompensados de uma outra forma, mas só a maturidade nos leva a obter o equilíbrio que ambicionamos ter.
Na juventude a vi­vência familiar e social condiciona sobremaneira a nossa visão do mundo e nem sempre vemos as coisas com racionalidade. Dizem os velhos que falta na juventude um incentivo ao amor ao trabalho. Esta asserção simples está longe de transmitir aos outros a quantidade de informação de que nec