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Aniversário do "Cardeal Saraiva"








Editorial




O desafio mais iminente da Imprensa Regional
é o da sobrevivência






O Jornal Cardeal Saraiva acaba de completar a
bonita idade de 100 anos de publicação ininterrupta. Foi na passada segunda-feira, dia 15, que este jornal entrou para o pequeno grupo de jornais centenários. 
Para assinalar a data publicamos ontem uma edição especial do “Cardeal Saraiva”, com um total de 104 páginas, que é a nossa maior edição de sempre e é também o maior jornal alguma vez publicado em Ponte de Lima.
Maior no número de páginas e, é certo, também maior no número de anos de existência.
Mas esta questão seria de somenos importância se ficássemos pelos números e não estivéssemos atentos ao seu conteúdo. E, quanto a essa questão, o que se pretendeu na presente edição do “Cardeal Saraiva” foi dar voz a um leque alargado de colaboradores, escritores e de jornalistas. Alguns desses amigos que por aqui passaram, hoje são escritores, outros jornalistas a desenvolverem a sua actividade profissional em outros órgãos de informação.  
Este convite que fizemos não foi despropositado. O “Cardeal Saraiva” ao longo destes anos de existência foi - e é - certamente um berço de jornalistas, de poetas e de escritores, o que muito nos honra, a nós direcção deste jornal, e certamente será factor de  orgulho para os próprios.
 Nesta edição especial fizemos um regresso ao passado para recordar alguns dos nossos colaboradores já falecidos, e são muitos, pelo que enumerarei alguns dos que ainda com eles privei, tais como José Rosa Araújo, João Marcos, Carlos Lima Magalhães (Menã), Francisco Dafonte. Cada um destes colaboradores tinha o seu estilo de escrita, todos diferentes, mas todos eles com dois elementos comuns entre si: o amor a Ponte de Lima e o orgulho no Cardeal Saraiva.
Regressando um pouco mais atrás no tempo, folheando o enorme espólio do jornal Cardeal Saraiva, logo encontramos colaborações de grandes nomes como, desde logo, António Ferreira, o fundador deste jornal, Júlio de Lemos, Norton de Matos, José Correia e tantos mais que enumerá-los seria tarefa árdua neste momento.
Tenho a consciência da importância de cada indivíduo nesta engrenagem de anos, neste puzzle, e sei que também muita gente mais ou menos anónima deu o seu contributo, pelo que hoje neste dia de festa são também para eles as minhas palavras de apreço.
Hoje na festa do “Cardeal” ESTAMOS TODO DE PARABÉNS.
A celebração deste centenário iniciou-se no próprio dia 15 de Fevereiro, com a realização dos Serões de História promovido pela Câmara Municipal de Ponte de Lima.
Quem esteve presente pôde conhecer a perspectiva de um jornal comunitário, nas palavras do Dr. Salvato Trigo, retalhos da sua história, por Tito de Morais e as estórias de vivências, por Álvaro de Sousa e Castro, proprietário deste semanário.
Segundo Salvato Trigo, o “Cardeal Saraiva” deveria regressar às razões da sua fundação, creio que definindo as suas fronteiras ao concelho de Ponte de Lima e desenvolver os seus propósitos de instrumento de informação/formação de comunidade local.
Recuando um pouco na história recente deste jornal podemos verificar que o “Cardeal Saraiva”, sensivelmente a partir de 1991, sentiu necessidade de quebrar as fronteiras do concelho para se expandir.
Essa alteração deu-se com a introdução semanal de notícias dos municípios da Ribeira Lima, a saber Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Ponte de Lima e Viana do Castelo.
Assumo que foi da minha responsabilidade esta mudança de visão redutora da área geográfica que nos estava adstrita, e fi-lo convicto de ser esse um percurso de futuro.
A interligação que o rio Lima proporciona desde a nascente até foz, parece-me ser o fio condutor para o jornal Cardeal Saraiva e daí termos assumido o slogan “Uma voz na ribeira Lima”.
Esta cumplicidade do Rio Lima, obrigou, mais tarde, a que os municípios por ele banhados se reunissem à sua volta, criando uma associação de municípios, a Valima e, mais tarde ainda, Valimar. Era disso que eu falava, quando o “terreno” das nossas notícias passou a ser ditado por esta intermunicipalidade promovida pelo rio Lima e que acontece até aos dias de hoje.
Com este passo, o “Cardeal Saraiva” abriu as portas a outro mercado, que importava garantir.
O facto de estarmos aqui hoje a comemorar o nosso centenário em Viana do Castelo é prova disso.
 O mercado de Viana do Castelo tem respondido aos nossos desafios, de forma prudente, mas sempre presente.
Mas desafios é o que não falta aos nossos jornais, à imprensa regional em geral.
Para muitos jornais regionais portugueses o desafio mais eminente é o da sobrevivência. Sobreviver ao mercado da publicidade em decadência; sobreviver às avultadas quantias pagas aos correios; sobreviver aos fracos índices de leitura; sobreviver à crise instalada, não à de agora, mas à de sempre.
Por isso, o maior desafio para a imprensa regional deverá passar por parcerias entre os jornais regionais e, acima de tudo, encontrar um elo de união para que as suas aspirações posam ser ouvidas em Lisboa.
O que para muitos é assunto arrumado, para mim afigura-se um assunto a debater: o porte pago.
Durante anos o Estado apoiou a imprensa regional com o pagamento dos portes de correio na totalidade. Tal apoio tem vindo ao longo dos anos a diminuir substancialmente, sendo agora  na ordem dos 40%.
Com esta redução o estado pretendeu responsabilizar mais a Imprensa Regional para que se organizassem como empresas, sem depender de subsídios. Mas o que realmente se verificou é que as empresas de Imprensa Regional foram obrigadas a empregar mais profissionais da comunicação para usufruírem cada vez menos apoio do estado.
Com esta redução do apoio do Porte Pago, foram muitos os jornais que fecharam as portas. Outros fecharão num futuro próximo perdendo-se valores locais de cultura, elos de ligação das comunidades migrantes e quebrando um instrumento de leitura imprescindível e muitas vezes único.
Creio que a Imprensa Regional não quer ficar comodamente sentada à espera dos subsídios do estado, não creio que essa seja a sua postura, mas porventura haverá outras formulas a explorar.
E quanto a isso tenho uma proposta que gostaria de endereçar ao Primeiro-ministro José Sócrates.
Ouço muito frequentemente o Primeiro Ministro falar da necessidade de investimento público, nomeadamente nas grandes obras públicas, que promoverão o emprego e relançarão a economia.
Não estou munido de estudos económicos para o demonstrar, nem tenho essa obrigação, mas talvez assim seja, senhor primeiro-ministro.
Pela parte que me toca, e já que as associações de jornais regionais que nos representam nada fazem, gostaria de lhe sugerir que esse investimento público fosse alargado aos jornais regionais, promovendo o emprego e o incentivando a leitura.
Tal investimento poderia passar por uma parceria entre o Estado e os jornais regionais, a qual contemplaria a restituição do porte pago na totalidade, tendo como contrapartida iguais valores de publicidade.
Ou seja, o que se pretende com esta parceria é que o Estado seja nosso cliente, seja cliente da Imprensa Regional em geral, comprando espaços publicitários em todos os jornais, enquanto que estes receberão como contrapartida o apoio do Porte Pago na sua totalidade.
E será que o estado precisa de publicidade? - poderão questionar. Claro que sim. Veja-se o caso da Gripe A, os incêndios no verão, a sua prevenção no Inverno, alertas sobre a condução sobre o efeito de álcool, uso do cinto de segurança, etc.. E se não houver mais temas para o Estado usar a publicidade, que se vá à carga com o slogan “sempre que efectuar um pagamento exija factura”. É que a fuga fiscal continua por aí e parece até entranhada na nossa latinidade. Por isso, a mudança de atitude só ocorrerá com a mudança de geração e nada melhor do que abrir esse caminho, hoje, com a publicidade, que pode dar uma ajuda preciosa.
Esta seria com certeza uma boa prenda para a Imprensa Regional portuguesa,  já que no caso do “Cardeal Saraiva”, as prendas têm sido poucas. E refiro-me agora a uma campanha de divulgação de débitos que temos vindo a divulgar há dois anos. Daí não resultaram nenhumas prendas… com a Segurança Social a encabeçar essa lista de devedores.
São cerca de 414 mil euros de dívidas que temos. Ao fim de dois anos de publicação da nossa lista de devedores, constatei que não terão sido mais do que dez aqueles que pagaram os valores em dívida. Tal situação não me surpreendeu, mas indignou-me.
E indignou-me pela falta de carácter, falta de vergonha, falta de princípios.
É claro que isto dos calotes não é coisa nova. Já Avelino Pereira Guimarães, meu avô, na génese deste jornal, se queixava do mesmo. Em 1934 Pai-Paulino, seu amigo e colaborador assíduo, decidiu dedicar-lhe um poema em jeito de sátira, no qual referia que o Avelino Guimarães sofria com os calotes, de tal forma que havia um jantar prometido com malta do “Cardeal” que era sempre adiado. E o Pai Paulino avisava: se o jantar não aparecesse ainda um dia o pessoal  se ia todo embora.
Não sei se o tal jantar veio a ocorrer ou não, mas acredito que sim, Avelino Guimarães era homem de palavra e, se havia prometido, haveria de cumpri-lo.
Na presente edição do “Cardeal Saraiva” demos especial destaque à figura de Avelino Pereira Guimarães, grande impulsionador deste jornal. É nossa pretensão homenagear esta figura limiana, pessoa recheada de valores altruístas e humanitários ímpares.
Há quem acerca dele afirme que era o pai dos pobrezinhos e há fundamento na afirmação. Quem o conheceu diz que dava o primeiro dinheiro que ganhava ao pobre que aparecesse na sua Papelaria do Largo de Camões.
O tempo de Avelino Guimaraes foi época de miséria, de guerra, de privações e de censura, tendo ele mesmo sido preso num episódio que resultou num grande grito de solidariedade à sua volta.
Já alguém escreveu neste jornal, dizendo que, para Avelino Pereira Guimarães, a questão do “Cardeal Saraiva” não se reduzia a uma mera situação de trabalho, mas sim a uma missão.
Hoje com a distância do tempo mais se me afiguram verdadeiras estas palavras. Avelino Pereira Guimarães começou esta sua missão quando adquiriu o semanário Cardeal Saraiva em 1911, com o objectivo de não o deixar morrer ali mesmo à nascença e apostou em dar-lhe continuidade. Mantê-lo vivo foi uma das suas missões durante quase cinco dezenas de anos.
Se hoje estamos aqui a comemorar o aniversário deste semanário, devemos isso a Avelino Pereira Guimarães e a esse seu espírito de missão.
Ponte de Lima e o “Cardeal Saraiva” eram a menina dos seus olhos.
Os tempos eram difíceis, de miséria, de guerra, de carências e disso o “Cardeal Saraiva” de então dava conta. Nele se criava um espaço de solidariedade recolhendo fundos para os pobres.
Ajudava quem pedia, dava mesmo o primeiro dinheiro que lhe caia na “gaveta” da sua papelaria no Largo de Camões.
Quem privou com Avelino Guimarães testemunha os seus de actos de extrema bondade, de solidariedade e de altruísmo para com o próximo. Era para muitos o pai dos pobres, dando a quem necessitava, mesmo que tal representasse alguma privacidade para si e os seus mais directos familiares.
Por toda a sua vida altruísta, pela sua personalidade, mas também pela forma evidente como marcou este jornal, Avelino Guimarães merece-nos nesta edição um destaque especial, mas não julgo ser suficiente.
Hoje que comemoramos os cem anos de publicação do Jornal Cardeal Saraiva, creio que é chegada a altura de Ponte de Lima prestar homenagem a este grande homem.
Era intenção desta direcção prestar homenagem a Avelino Pereira Guimarães no passado dia 15 de Fevereiro, colocando uma lápide em sua memória no prédio onde laborou o Jornal Cardeal Saraiva até 2000. Refiro-me ao prédio do Largo de Camões de onde este jornal foi “corrido” para que aí se instalasse um banco.
Para tal acabamos por contactar os donos do prédio em questão, que serão três. Acontece que nos ficamos pelo primeiro contacto, tendo um dos proprietários negado a colocação da placa, já que não teríamos acatado de bom tom a saída do prédio, tendo mesmo “ousado” metê-los em tribunal.
É minha convicção que o que aqui está em causa são valores mais elevados, nada condizentes com a mesquinhez que tanta vez graça nesta terra e que deixa triste até as águas do Lima.
Já em 1980 um grupo de limianos prestou homenagem a este jornal e, entre várias iniciativas, descerrou uma lápide no prédio atrás referido. Como é sabido o prédio sofreu obras de recuperação, tendo com estas desaparecido a placa evocativa. Como parece fácil apagar a história e os marcos da cultura limiana!
 
Não desistimos desta nossa intenção em prestar essa homenagem ao grande impulsionador deste jornal. Julgamos que o lugar ideal é o Largo de Camões, por motivos óbvios. Se não for naquele prédio que seja num seu vizinho.
Assim faremos.
Nesta data evocativa gostaria de recordar ainda a figura de Maria Carolina Dantas Soares Guimarães, minha mãe, que soube estar à altura do desafio que foi ter a responsabilidade de dirigir um jornal em1960, época na qual a mulher tinha um lugar muito reservado na sociedade.
Maria Carolina soube ser mulher, mãe e soube gerir democraticamente os destinos deste jornal.
Como receberia com alegria um exemplar destes 100 anos. Por isso o meu grito de alegria, não vai só para Avelino Guimarães, mas também para Maria Carolina: Chegamos aos 100 Carolina!
Aos jornalistas que comigo já trabalharam, como é o caso de Teresa Costa (agora no Correio do Minho), Silvia Brandão (na RTP), Miguel Rodrigues (no Diário de Notícias), Sotto Mayor (no Aurora do Lima) e Gil do Lago, a eles o muito obrigado pelos testemunho agora deixados escritos para a posteridade.
Aos nossos colaboradores, também o muito obrigado, foram todos vocês que transformaram esta edição num belo exemplar.
A todos eles o meu agradecimento pela colaboração que permitiu que esta edição do jornal seja um marco na história do “Cardeal Saraiva” e na história de Ponte de Lima.
Os meus agradecimentos são extensivos aos incansáveis membros da equipa do “Cardeal Saraiva”: Elsa Touceira e Sofia Alferes que centralizaram todo o esforço de concepção deste jornal. Também aos elementos de apoio Cristina Fernandes e Sandra Ferreira que souberam trazer carinho a esta edição.
Por último, os meus agradecimentos vão para a pessoa de 90 anos que cuida todos os dias do arquivo do jornal e que, a cada hora, nos brinda com um novo exemplar e uma nova estória do “Cardeal”. Sem ele, seria mais difícil regressar ao passado. Sem ele estaria perdido o testemunho na primeira pessoa das estórias da história deste jornal. E ele tem um nome: Álvaro de Sousa e Castro, o proprietário deste jornal.
Muito obrigado a ele e a todos vós por estarem desse lado lendo e colaborando com o “Cardeal Saraiva”.
Ver-nos-emos por aí, a caminho do segundo centenário.

Avelino Castro
Director

 

 

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