Deixar morrer no hospital

de Ponte de Lima?

 

 

Ex.Sr. Presidente Administração

do Centro Hospitalar do Alto Minho

de  Viana do Castelo

 

 

 

 

Ponte de Lima, 24 de Agosto de 2006

 

 

 

            Maria Carolina Dantas Soares Guimarães, directora do jornal Cardeal Saraiva, com 84 anos de idade, tinha já a sua mobilidade reduzida, tendo se vindo a agravar nos últimos tempos. Esse agravamento ditou a necessidade de recorrer a “ca­nadianas” e outras pró­teses de ajuda na mobilidade no seu dia-a-dia.

            Maria Carolina tinha já tido um episódio de Acidente Vascular Cerebral (AVC), pelo que era regularmente vigiada por um cardiologista e procedia ao controle de sangue no Centro de Saúde de Ponte de Lima.

            Em 6 de Junho, após ter se deslocado ao Centro de Saúde, onde procedeu a recolha de sangue para controle, e após ter chegado a sua residência, Maria Carolina necessitou de recorrer à urgência do Hospital de Ponte de Lima (CHAM-PL), tendo sido de imediato internada nos serviços de Medicina Interna daquele hospital. Aí foi detectado que Maria Carolina sofria de Insuficiência Renal Crónica (IRC) e Cardiopatia hipertensiva. Ao fim de sete dias de internamento António Ferro, Médico do CHAM, deu alta à doente, tendo prescrito entre outros medicamentos um antibiótico a que a doente viria a fazer alergia. Foi dito pelo profissional de saúde que a doente não tinha qualquer problema cardíaco, nem renal, pelo que não necessitava de nenhum acompanhamento especial.

            Desta forma em 21 de Junho passado, Maria Carolina teve necessidade de ser observada uma vez mais na urgência do CHAM, tendo sido internada no piso 3 de Medicina Interna, onde lhe foi dia­gnos­ticada toxico­dermia medicamentosa, bem como infecção dos tecidos moles de um dos membros inferiores, insuficiência cardíaca e renal.

            A causa deste inter­na­mento foi apurada co­mo tendo sido motivada pelo facto da doente ter feito alergia ao antibiótico prescrito no episódio anterior.

            No dia 5 de Julho, Mário Almeida, na altura médico do CHAM de Ponte de Lima, deu alta à doente, tendo lhe indicado como tratamento a administração de vários medicamentos, e, entre eles, um glucocorticoide de nome Lepicortinolo. Aque­le médico não definiu nenhum período de tempo para o tratamento pós internamento, remetendo para o médico de família o acompanhamento futuro da doente.

            A família foi aconselhada a se dirigir com a nota da alta ao médico de família, Eloy Sepeda, o que fez nos dias seguintes, tendo aquele médico dito que a medica­mentação estaria adequada para a doente, só deveria proceder à redução de Atarax gradualmente. Ainda foi dito por aquele profissional de saúde que logo que pudesse a doente deveria vir a uma consulta.

            Quanto ao glucocor­ticoide (Lepicortinolo) Eloy não proferiu nem uma palavra, pelo que Maria Carolina continuou a administrar aquele medicamento até ao dia em que teve que voltar ao serviço de urgência do hospital em Ponte de Lima, em 20 de Julho passado.

            Naquela data o seu estado de saúde tinha se agravado, pelo que Maria Carolina voltou a necessitar de recorrer aos serviços de urgência do CHAM para mais uma vez ser internada em Medicina 2 com o diagnóstico de gastroenterite aguda, a qual mais tarde foi questionada no Hospital de S. João do Porto, já que a doente só tinha tido dois únicos episódios de diarreia, o que não definiria tal quadro clínico.

            Com este episódio de internamento o médico Artur Barros suspendeu o medica­mento de nome Lepicor­tinolo, um gluco­cor­ticoide para o qual as prescrições médicas apon­­­tam a necessidade de uma diminuição gra­dual.

            Segundo fonte médica, por nós contactada, este corte abrupto do corticoide, é contra-indicado e poderá estar na origem do agravamento da função renal da doente.

            Durante este interna­mento, na madrugada de 26 de Julho, o estado de saúde de Maria Carolina piorou muito significativamente, tendo havido a necessidade da médica de urgência deslocar-se várias vezes durante a noite ao serviço de interna­mento para ver a doente. Nessa altura era já ponderada a sua transferência para o Hospital de S. João.

            A doente tinha atingido o estado de choque séptico. De manhã, a equipa médica liderada por Artur Barros decidiu pela transferência da doente para o Hospital de S. João, o que veio a ocor­rer somente por volta das 16 horas desse mesmo dia. O estado de saúde da doente era grave, Maria Carolina estava entre a vida e a morte e o médico responsável pelo serviço, Artur Barros, sabia disso. Foi chamada uma ambulância dos bombeiros limianos para proceder à transferência e indicada uma enfermeira para acompanhar a doente na viagem.

            No momento de aban­donar as instalações do CHAM a família, por interposta pessoa, questio­nou Artur Barros, conhecedor do risco da viagem, sobre a necessidade de a transferência ser feita acompanhada de médico, ao que aquele profissional de saúde respondeu que se a situação piorasse o bombeiro deveria sair da auto-estrada e dirigir-se ao hospital mais próximo.

            Tratando-se de uma doente em estado de choque séptico, com diagnóstico de cardiopatia hiper­tensiva, Insuficiência Renal Crónica Agudizada, Anasarca, acidose metabólica e oligúria, com eventual necessidade de suporte dialítico, hipoten­são sustentada e estando a ser administrados vários medicamentos entre eles Dopamina, é nossa convicção, e de outras fontes médicas por nós con­tactadas, de que um doente com este quadro não poderia ser abandonado (sim abandonado!) numa ambulância onde era acompanhada por uma enfermeira que, no desempenho das funções que a sua profissão lhe atribui, não tem poder para alterar qualquer medicamentação que estava a ser administrada à doente. Se porventura se registasse uma paragem cardíaca, como procederia a única profissional de saúde? Como poderia accionar aquela enfermeira os dispositivos de reanimação?

            A viagem acabou por decorrer sem sobressaltos e a doente chegou ao Hospital de S. João em estado grave, entre a vida e a morte.

            O médico que recebeu Maria Carolina no Hospital de S. João, tão rápido se apercebeu do seu estado de saúde, como da deficiente transferência que havia sido feita entre as unidades hospitalares. Indignação é a palavra mais correcta para definir o estado de revolta que o médico da Unidade de Cuidados Intermédios do Hospital de S. João sentiu ao verificar como nos dias de hoje ainda se transferem doentes com aquela gravidade de forma tão deficiente.

            Para aquele profissio­nal, se o estado de saúde de Maria Carolina era tão grave como o haviam descrito no pedido de transferência (e assim era), a doente deveria ter sido acompanhada pelo médico. Tal foi a indignação daquele profissional que ele próprio garantiu que iria comunicar tal situação aos seus superiores. “É preciso acabar com este estado de coisas na saúde em Portugal”, desabafou aquele profissional de saúde.

            Como se não bastasse a deficiente transferência, aquele médico deparou-se ainda com a falta de elementos no processo clínico que acompanhava a doente, bem como com um diagnóstico de gastro­enterite aguda, com o qual ele não concordava já que a doente só tinha tido dois únicos episódios de diarreia, o que não definiria tal quadro clínico.

            Quanto ao processo clínico, ele era deficitário, não havia registo de internamentos recentes, não era indicado o antibió­tico ao qual a doente tinha reagido aler­gica­mente, não era sequer referido que a doente tinha feito uma ecografia aos rins, outra ao coração … e por aí fora.

            Apesar da doente ter dado entrada no HSJ a meio da tarde, só cerca da meia noite é que os CI do HSJ tiveram acesso aos elementos necessários para sustentar de melhor forma a sua actuação médica. E tudo isto porque eu próprio, pelos meus meios, consegui os elementos necessários e os enviei via fax para aquele serviço de urgência no Porto.

            É lamentável que os serviços do hospital de Ponte de Lima prestem tão deficitário serviço com falta de informação médica naquela que era uma situação de vida ou morte. Mais: tendo verificado que, em nenhum dos internamentos, havia sido solicitado pelo CHAM os registos da doente ao médico de família no Centro de Saúde, no dia seguinte eu próprio me desloquei aquele Centro de Saúde de Ponte de Lima para solicitar informação médica para enviar para o HSJ.  Tal não foi possível já que Eloy Sepeda, o médico de família da doente se encontrava de férias.

            Foi-me dito que seria necessário pedir por escrito ao Director Clínico do Centro de Saúde para que ele pudesse fornecer tais elementos. Foi a força da burocracia dos papéis contra uma vida que se encontrava em risco, para a qual não havia tempo a perder. Decidi dirigir-me ao laboratório de análises, onde foi possível imprimir os registos das análises ali efectua­das para que o médico no HSJ pudesse ter o his­torial da doente.

            Maria Carolina começou a reagir bem à me­dicamentação administrada nos Cuidados Intermédios do HSJ (CI), pelo que no dia 1 de Agosto foi transferida para a enfermaria do serviço de Medicina B do HSJ. Maria Carolina tinha recuperado, o seu discurso, era fluente e o seu aspecto era mais saudável. A família tinha sugerido que, dado os seus problemas renais, seria melhor que ela ficasse hospitalizada no HSJ, já que aí existia a especialidade de nefro­logia, ao passo que no distrito de Viana do Castelo essa especialidade não existe.

            Para surpresa da família ao fim de dois dias, a 3 de Agosto, quinta-feira, a doente é enviada de volta para Ponte de Lima.

            O diagnóstico que a acompanhava alertava para o facto de, “apesar do seu estado de saúde estar estável hemodina­mi­camente e a recuperação da função renal ter voltado aos valores habituais prévios ao inter­namento, bem disposta”, seria necessário “ponderar alterar o antibiótico, vigiar o cateter central venoso (CVC), pois apesar da dificuldade nos acesso venosos periféricos, este CVC era sempre um risco para a doente ter um foco de infecção”.

            Acontece que Maria Carolina chega ao CHAM de Ponte de Lima nessa quinta-feira de tarde, não lhe tendo sido atribuído médico pelo facto do anterior médico deixar de prestar serviços ao hospital e por outros se encontrarem de férias. Nestas condições o apoio médico seria assegurado pela médica e directora clínica de Medicina Interna, Cristina Roque.

            Acresce que o acompanhamento médico daqueles serviços, nos pe­ríodos da tarde e noite bem como ao fim de semana, são deficitários já que se verifica a ine­xistência de médico na secção de Medicina Interna, sendo que o único médico de Medicina Interna existente se deverá desmultiplicar entre o serviço de urgência e cerca de 72 doentes em inter­namento.

            Só na segunda-feira foi atribuída uma médica a Maria Carolina, tendo, neste espaço de tempo de quatro dias, se registado novo agravamento do estado de saúde da doente.

            Entretanto a família via a doente com o seu estado de saúde cada vez mais agravado e verificava uma certa inércia no tratamento da doente.
Já no dia anterior, domingo, a família alertou insistentemente para o estado febril da doente, que estava con­se­quentemen­te queixosa, com dores e com o estado de consciência alterado, tendo sido chamado médico da urgência.

            Perante tal facto, nessa segunda-feira, a família insistiu na necessidade de transferir a doente para o HSJ, tendo sido dito pelo clínico que perante aquele quadro  não havia necessidade.

            O certo é que a olhos vivos se verificava que o estado de saúde de Maria Carolina estava a piorar. De tal forma assim era, que no dia seguinte, terça-feira, a família volta a solicitar que se proceda à transferência da doente para o HSJ. Tal solicitação foi feita à médica que havia sido atribuída para cuidar de Maria Carolina, a qual diz mais uma vez não se verificar o quadro clínico que motivaria tal transferência.

            Insatisfeita a família interpela a responsável pelo serviço de Medicina Interna, Cristina Roque, que volta a repetir o facto de o quadro clínico não justificar a transferência.

            Nas palavras de Cris­tina Roque a ocorrer a transferência, “o HSJ poderia devolver a doente para Ponte de Lima, o que não seria bom para a paciente”. E aquela médica reforçava a sua opinião dizendo que “nem aqui, nem em qualquer país da Europa se justificaria a transferência para outro hospital” (no caso o HSJ).

            Tais palavras não agra­daram à família, pelo que nos tivemos que insurgir e questionar Cris­tina Roque se aceitaria transferir Maria Carolina, caso houvesse um médico que a aceitasse no hospital de destino. A resposta de Cristina Roque foi rápida: sim, envio. E acrescentou: “não sabia que isto agora tem de ser tratado com cunhas”, e sorriu.

            Pois, senhora doutora estou certo de que lerá estas palavras e, por isso, lhe digo que muito mal vai este país para ter que tratar de casos como este, onde a vida humana está em jogo, desta forma. Para não dar louvor às cunhas e para que não recorramos a esses artifícios, será necessário que profissionais como Cristina Roque desempenhem o seu papel com o profissionalmente que lhes é exigido.

            E esta minha indignação é justificada pelo que a seguir passo a descrever.

Perante a descrição do quadro clínico por nós feito a um profissional de medicina do HSJ, este acedeu a que fosse efectuada a transferência de Maria Carolina para aquela unidade a pedido da família.

            De seguida demos a conhecer essa intenção e essa possibilidade a Cristina Roque, que de seguida iniciou no processo de transferência da doente, a quem na altura estava a ser administrada um soro e um antibiótico. Havia também uma bactéria em cultura para determinar qual o antibió­tico que deveria ser administrado. Foi chamada uma ambulância unicamente com o bombeiro condutor, foi solicitada a presença de uma enfermeira para acompanhar a doente no transporte. A enfermeira antes de prosseguir viagem ainda questionou o enfermeiro-chefe sobre o que tem que fazer e a resposta é rápida e curta. “Não há muito a fazer. Vigia o soro, basta isso”. E seguem viagem até ao Porto. Eu persigo a ambulância no meu carro e quando damos entrada no HSJ, vejo o enfermeiro da triagem a agarrar a folha que ia saindo de uma impressora, como que apressando a saída da folha, e dizer “rápido com esta doente para a sala de emergência”. Maria Carolina já tinha a abraçadeira vermelha da triagem no pulso. Foi uma corrida até à sala de emergência onde de repente vários médicos e vários enfermeiros se apressavam a tratar da doente. A médica responsável pela Sala de Emergência, Drª Licinia, solicita uma reunião de urgência com um familiar. Sofia Alferes acompanhou sempre a doente desde o início e tinha uma visão geral sobre todo o processo, por isso foi ela a ter essa reunião.

            Aquela médica questiona se é do conhecimento da família o estado em que Maria Carolina se encontra. E diz ser o seu estado grave e de se encontrar entre a vida e a morte. Questionada se a doente já deveria ter vindo há mais tempo para aqueles serviços, a resposta foi peremptória: “Apesar de não querer julgar o trabalho dos meus colegas, sim, há muito tempo”.

            Foi diagnosticada naquele momento uma septicemia e a vida de Maria Carolina encontrava-se em risco. A mesma doente que uma hora atrás “não tinha quadro clínico” em Ponte de Lima, encontrava-se ali entre a vida e a morte.

Fontes médicas por nós contactadas não conseguem encontrar argumentos para a atitude tomada pelos profissionais em Ponte de Lima, nem tão pouco encontram argumentos para que o período de tempo da viagem possa justificar o agravamento vertiginoso da doente. O que está em causa aqui é uma deficiente avaliação do quadro clínico da doente em Ponte de Lima.

            Maria Carolina permaneceu durante algum tempo na sala de emergência e, nesse período, foi nos dado a conhecer que o Hospital de Ponte de Lima efectuou a transferência sem avisar o HSJ, facto que uma vez mais indignou os profissionais de saúde do HSJ. Apesar de ter sido a família a solicitar a transferência, era obrigação do Hospital de Ponte de Lima informar de tal situação, já que não se tratou de uma transferência particular efec­tua­da pela família, mas sim pelo próprio hospital.

            Ainda na sala de emergência evitaram a morte de Maria Carolina, tendo de seguida estabilizado a doente e procedido à sua transferência para os Cuidados Intermédios daquele hospital.

            A causa do seu estado de saúde foi determinada. O cateter central já estava identificado desde 1 de Agosto como um possível foco de infecção. E assim foi, Maria Carolina havia contraído uma infecção através do cateter central.

            Fomos alertados para o facto de que a doente se encontrava em estado grave e que isto seria uma grande luta, preparando assim a família para tentar viver o dia-a-dia, esperando que a sua familiar querida viesse a recuperar (longo prazo), mas sem nos garantir que a sua melhoria seria efectiva.

            Ao longo de dez dias Maria Carolina lutou pela vida e nessa luta muito ajudou a unidade de CI do HSJ.

            No início desse tratamento Maria Carolina respondeu de uma forma positiva à medicação, mas ao fim de alguns dias a situação reverteu tendo vindo a falecer.

            Apesar de todos os esforços médicos, não foi possível combater aquela infecção e a família analisa uma eventual negligência médica na demora da identificação da origem da infecção (a qual se localizava numa virilha, no cateter central). Essa possibilidade encontrava-se identificada e foi dada a conhecer ao Hospital de Ponte de Lima aquando da transferência de Maria Carolina do HSJ para o Hospital de Ponte de Lima em 1 de Agosto.

            Estou certo de que haverão muitos casos de sucesso no Hospital de Ponte de Lima, assim o espero. Há concerteza falta de recursos humanos, mas quanto vale afinal a vida humana para jogar com ela um jogo difícil de vida e morte?

            Sabemos que há famílias menos empenhadas, menos esclarecidas e, por isso, questiono como seria então se o caso acontecesse com essas famí­lias? E se fosse um fami­liar de um dos profissionais de saúde envolvidos, teria acontecido o mesmo? Teríamos ido até ao limiar da minha questão de “deixar morrer no Hospital de Ponte de Lima”?

            Não. Não quero acreditar que assim fosse.

            Depois disto tudo,  descansa em paz, Mãe.

 

 

Avelino Castro

(Filho de Maria Carolina

e Director Adjunto

do jornal “Cardeal Saraiva”)

 

NOTA: Carta publicada na edição 4147 do Jornal Cardeal Saraiva de 25 de Agosto de 2006

 

 

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